O Papa Francisco, no dia 23/02, afirmou peremptoriamente: “Urbi et orbi” (pela TV e pela imprensa escrita): “É melhor ser ateu do que um cristão hipócrita.” Isto me fez lembrar de 3 fatos concernentes ao tema, vividos por mim quando no desempenho de minhas atividades de servidor público estadual, tanto na Saúde Pública como na Educação.
1) No corredor de uma repartição pública, na Saúde, presenciei lamentavelmente uma cena constrangedora, desumana. Estava lá quando uma senhora, 70 anos, da cor do ébano, vendia seus salgadinhos,através dos quais tirava seu sustento. Por sinal, salgadinhos saborosos. Ela insistia resolutamente nesta ação, condenada de maneira persecutória pelo chefe da repartição. Na frente do público,aos berros, ele disse: “Saia imediatamente daqui sua negra nojenta!” Ela, em lágrimas, ofendida visceralmente, replicou e profetizou: “O Sr. vai pagar, por me humilhar. Vai ter um câncer e morrer logo!”.
Dito e feito. Três meses depois ele foi acometido um câncer galopante, surgido do nada, que o levou inexoravelmente à morte. O indigitado chefe era alguém cheio de qualidades, inclusive praticante da religião cristã, mas infelizmente era racista convicto, frio e determinado.
2) Numa sala de repartição da Educação, onversava eu, a serviço, com uma pessoa inteligente, culta, cheia de apanágios invejáveis. Entrou uma funcionária da cor do ébano e aparteou nossa conversa, para tratar de assuntos referentes às suas atividades profissionais. As duas não se bicavam, tratavam-se formalmente. Terminado o rápido diálogo a funcionária da cor do ébano retirou-se. Ato contínuo, a pessoa interlocutora disse para mim, em desabafo: “Essa negrinha é insuportável”. Aquilo causou-me espécie, porque a pessoa ofensora era cristã, praticante da sua religião.
3) Na mesma repartição, supracitada, na semana seguinte, em outra sala, conversávamos eu e outra pessoa, quando surgiu o nome da servidora citada no caso 2. O assunto girava em torno das atividades executadas pela servidora da cor do ébano. Então a pessoa interlocutora torceu o nariz ao se referir ao comportamento da pessoa em questãp: “Eta negrinha insolente!”. Aqui também a pessoa ofensora era tida como fiel praticante da religião cristã. Encerro relembrando o poeta brasileiro Belmiro Braga nos seus famosos versos: “As almas de muita gente/São como o rio profundo/A face tão transparente/E quanto lodo no fundo”.
O Papa Francisco está certo: “É melhor ser ateu do que um cristão hipócrita!”