08 de junho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Maria Bárbara Kernbeis Amaro

Giselle Hilário
| Tempo de leitura: 6 min

Fotos: Arquivo Pessoal
Bárbara, Alyssa e o marido Donato Fidelis
Bárbara e sua paixão, Alyssa

Quem vê essa moça aí ao lado, a Maria Bárbara Kernbeis Amaro, 31 anos, carregada de medalhas não imagina que ela entrou para o esporte praticamente obrigada (isso mesmo: obrigada!) pela mãe, a jornalista Dulce Kernbeis. E hoje, Bárbara é referência no Brasil e no Exterior quando o assunto é polo aquático. É até nome de troféu - Troféu Babi Amaro -, dado pela Universidade de Hartwick, EUA, a atletas que se destacam tecnicamente.

Atualmente, Bárbara é assistente técnica da Associação Bauruense de Desportes Aquáticos (ABDA) e é categórica: “Hoje, no Brasil, não tem nenhum clube que tenha tanto material humano de qualidade como a ABDA”. Confira os principais trechos da entrevista a seguir: 

JC - Você tem uma trajetória incrível no polo aquático. Começou a jogar em 2000, foi campeã júnior pelo Bauru Tênis Clube (BTC), foi vice-campeã paulista na categoria adulto, tem ao menos sete títulos brasileiros, foi campeã sul-americana, jogou no Exterior... como tudo isso começou? Soube que você foi obrigada pela sua mãe...
Maria Bárbara Kernbeis Amaro - Fui (risos). Quando eu era criança, fazia natação. Dos 8 aos 12 anos. Com 12 para 13, parei de nadar. Cansei, não queria mais. Com 13, moramos um período em Araçatuba. E lá vi uma reportagem que as meninas do polo aquático tinham conquistado bronze num campeonato importante. Achei o esporte legal, coletivo, na água. Mas não tinha em Araçatuba e ficou por isso mesmo. Daí, voltamos para Bauru. Eu estudava de manhã e ficava em casa à tarde, sem fazer nada. E minha mãe (Dulce Kernbeis) deu o ultimato: “Em casa, a tarde inteira, sem fazer nada, você não vai ficar. Escolhe um esporte. Qualquer um”. E eu me lembrei dessa reportagem que eu tinha visto em Araçatuba. Sabia que aqui em Bauru, no BTC, tinha equipe de polo. E estamos aí. Se tornou a minha paixão.

JC - E hoje você é assistente técnica da ABDA.
Bárbara - E o engraçado é que lá em 2000, quando fui procurar o polo, fui com uma amiga, a Gabriela Sanches Mieli. E hoje, o filho dela, Pedro Mieli, treina comigo na ABDA.

JC - Mas, antes de você assumir o cargo de assistente técnica em Bauru, a carreira como jogadora foi intensa.
Bárbara - Foi tudo muito rápido. Tinha 14 anos quando comecei. Amava. Só fazia isso. Passava julho inteiro treinando. Na escolinha, era eu e mais uma menina e só meninos na água. Era eu e uns 20 moleques dentro da água quando comecei (risos). Só depois é que fui para o time mesmo. Então, em 2000, eu comecei a jogar. No mesmo ano, conquistamos o título de campeãs brasileiras pelo BTC. Em 2001, estava na Seleção Paulista e fomos campeãs. Em 2002, fui convocada pela Seleção Brasileira Jr. Francamente, não esperava essa rapidez.

JC - Você enfrentou preconceito por ser menina?
Bárbara - Não. Tinham pessoas que me diziam que meu corpo ia ficar muito masculino, que ia ficar fortona. Mas eu não ligava. Na verdade, eu me sentia mal por ser alta (1,80 metro; pés número 39). Era fora do padrão para a época. Só depois entendi que a altura era um facilitador para o esporte que eu escolhi. E ela, aliada com minha idade, me deu chances incríveis. 

JC - Sua trajetória no Exterior começou antes dos 20 anos, correto?
Bárbara - Joguei meu primeiro campeonato adulto com 19 anos. Meu técnico de lá (Alan Huckins, da Universidade de Hartwick, EUA) me viu jogando no Mundial de Montreal, no Canadá. Ele entrou em contato comigo logo depois do campeonato, me convidando para ir pra lá. Fui para jogar com uma bolsa de estudo integral, 50% pelo esporte e 50% pela parte acadêmica, já que eu tinha boas notas. Mas não foi um começo fácil. Não tinha inglês fluente e fui vítima de situações engraçadas por conta disso. Até no shopping, na Califórnia, fui “esquecida” (risos).

Arquivo Pessoal
Maria Bárbara Kernbeis Amaro é referência no Brasil e no Exterior quando o assunto é polo aquático

JC - Como assim?
Bárbara - Estávamos num jogo lá e fomos comer. Não ficava todo mundo junto. Cada um escolhia o que queria comer. E o técnico nos disse para pegarmos o que queríamos e voltar para a van, porque iríamos ver uns jogos. Bem, mas eu não entendi isso... E eu, recém-chegada do Brasil, quis conhecer o Starbucks! Não tinha no Brasil ainda, quis ir lá. Quando eu volto, cadê todo mundo? Me esqueceram! Sorte que os pais de uma das meninas estavam por lá, me viram de uniforme, ligaram para o técnico e me levaram de volta. E a situação me rendeu piadas até o fim da faculdade.

JC - Mas, passado o susto, sua passagem pela Hartwick foi importante. Tanto que você virou nome de troféu (Troféu Babi Amaro).
Bábara - Pois é. Fiquei muito feliz com esse reconhecimento. Principalmente porque meu técnico, o Alan, pegava muito no meu pé. Mas muito. E ele assumia que colocava muita carga em mim porque esperava muito de mim. Por isso, meu nome ser dado a um troféu para quem se destaca tecnicamente é um reconhecimento importante. Isso é muito legal. E um estímulo para as meninas.

JC - Você ficou quatro temporadas em Hartwick. Aliás, terminou sua primeira faculdade (psicologia) lá.
Bárbara - Pois é. Quando fui para lá, tinha feito aqui no Brasil um ano e meio de publicidade. E lá, concluí psicologia. E aprendi muito jogando polo lá. É muito diferente daqui. Uma coisa muito forte lá é a coesão de grupo, uma jogar pela outra, uma respeitar a outra, ter várias atividades para provocar a união do grupo. Coisa que a gente vê pouco no Brasil, mas vê na ABDA. Para os nossos meninos e meninas daqui, a ABDA é a vida deles. Eles têm bolsa, almoçam juntos, passam a tarde juntos. Nos outros clubes, não. 

JC - Como você avalia o momento do polo em Bauru?
Bárbara - Maravilhoso. Sou muito grata por esse projeto. Entre polo, natação e atletismo são 3.900 crianças na faixa de 5 a 20 anos. E está transformando a vida de muita gente. Dá oportunidades que as crianças e as famílias delas que elas não teriam se não fosse pelo projeto. É uma transformação.  

JC - O polo é sua paixão?
Bárbara - Sempre fui apaixonada pelo polo. É um esporte pouco conhecido. Mas mesmo dando pouco rendimento financeiro, sempre fui contornando minha vida pessoal para poder focar no polo. 

JC - A Alyssa, sua filha, tem 3 anos. Ela também vai jogar polo aquático?
Bárbara - Ela faz natação, levo comigo para alguns jogos, quando é possível, e certamente vou apresentar outros esportes a ela. Se ela vai escolher polo? Vai ser uma decisão dela. 

JC - Dessas mais de 3 mil da ABDA, há chance de alguma ir para seleções?
Bárbara - Sem dúvida. Temos meninas na Seleção Jr., temos meninas que esse ano vão entrar na seleção adulta. E por conhecer o nível técnico do grupo, sei que têm chances de jogar fora do Brasil também. 

JC - O que falta para você realizar seus sonhos?
Bárbara - Ser mãe de novo. Apesar de me dividir bastante, a maternidade me realiza muito. Na parte profissional, quero ver minhas atletas, meus atletas jogando fora, crescendo. 

SERVIÇO

Quem quiser conhecer o trabalho da ABDA no polo aquático, natação e atletismo pode ir à reunião informativa às segundas-feiras, 15h30, na rua Cussy Jr., 13-30.

Perfil

Maria Bárbara Kernbeis Amaro, a Babi, acabou de fazer 31 anos. Nasceu em 7 de fevereiro de 1986, em Bauru. Tem como hobby jogar polo aquático, sua paixão depois da filha, Alyssa, 3 anos. Quando o assunto é música, ela não preferência: ouve de tudo. Time? Torce pelo São Paulo. E dá Nota 10 para a mãe, a jornalista Dulce Kernbeis. E a Nota 0 vai para o ditador coreano Kim Jong-un.