Incrível. Houve um tempo em que o coração disparava apenas porque a gente pegava na mão da namorada. No cinema, claro. Aliás, tudo acontecia no cinema e só nele acontecia quando as luzes se apagavam. Antes, porém, era preciso muito cuidado na leitura do sinal. Onde estava a mão da menina? Sobre o braço da poltrona? Sobre o colo? Neste último caso, nem pensar, luz vermelha no semáforo do namoro. Paciência. Jeito não tinha. Era esperar a mudança da cor.
Fora do cinema, o mundo era adulto, ameaçador. Havia bocas e dedos que tudo proibiam. Menos no escurinho do cinema, onde a ousadia das mãos dadas desafiava e acontecia. Quando elas se tocavam, pura vertigem, uma energia boa e inocente beliscava os corpos adolescentes. Então, os corações descompassavam, a boca secava, a respiração entrecortava-se e os olhos mentirosos fingiam ver um filme nenhum. Nenhuma palavra na boca também. Nessa desordem do corpo e da alma, impossível juntar sílabas numa frase, raquítica que fosse, fiapo de pensamento. Os meninos mais espertos ofereciam estrategicamente às meninas balas pippers ou chicletes Adams.
Incrível. Houve um tempo em que o coração disparava apenas porque a gente dançava de rosto colado, laquê e brilhantina. Eram as chamadas brincadeiras dançantes: alguém emprestava a sala da casa e o dinheiro garantia a formatura da oitava série. Antes de colar o rosto, muito cuidado também na leitura do sinal. Estando a mão da menina espalmada contra o peito do menino, que ele parasse por ali, a distância estava matematicamente determinada. Quando, contudo, os rostos se colavam e os corpos se uniam, o mundo desaparecia e o "dois pra lá e um pra cá" ia ficando cada vez mais lento, ameaçando parar. Cupido da época, os metais e as vozes de Ray Conniff ganhavam ouvidos e corações para nunca mais deles saírem. Cuba-libre e Hi-fi, goles apressados, goles encorajadores. Quem sabe? A noite guardava segredos... talvez a menina mais bonita, com ela dançar e sonhar.
Incrível. A festa acabou. Drummond bem que avisou. E agora, José? E agora, Maria? Em tempos do politicamente correto, melhor acrescentar: E agora, José, que é Maria? E agora, Maria, que é José? Agora, nada mais se pode fazer, tudo é lembrança, quando muito retrato em preto e branco do que irremediavelmente se perdeu. Uma voz, sentindo o perigo depressivo, veio logo, com justiça, protestar. Nostalgia não! Saudosismo não! A vida continua! Claro, o tempo anda pra frente; claro, a vida se renova; claro, a alegria não é coisa que se prenda em calendário... Disso tudo sabemos, claro. Contudo, meninos e meninas de mãos dadas no escurinho do cinema...
Contudo, meninos e meninas de rosto colado, corpos unidos, dois pra lá e um pra cá, nunca mais. O tempo cuidou de tudo apagar. É o que ele mais sabe fazer.
O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras - curso_romag@uol.com.br