08 de julho de 2026
Nacional

Reformas: protestos no País e em Bauru

Marcus Liborio e Thiago Navarro
| Tempo de leitura: 8 min

Grito das ruas ecoa pela quarta-feira

Atos contra as reformas da Previdência e Trabalhista mobilizaram professores, estudantes, funcionários e militantes políticos

Samantha Ciuffa
Com faixas, apitos e cartazes, manifestantes tomaram a Praça Rui Barbosa logo pela manhã
Malavolta Jr.
Manifestações ocorreram durante todo o dia, inclusive em frente à Catedral do Divino Espírito Santo, no Centro de Bauru

Essa quarta-feira (15) foi marcado por protestos em Bauru. Professores, estudantes, entidades, sindicatos e partidos políticos de esquerda se mobilizaram em ato público contra as reformas da Previdência e Trabalhista, alterando a rotina do Centro da cidade. Logo pela manhã, mais de 300 manifestantes, segundo estimativa da PM, realizaram passeata pela avenida Rodrigues Alves, saindo da Praça Rui Barbosa, até a Câmara Municipal. O trânsito ficou impedido durante o trajeto. Nenhum incidente foi registrado.

Já no final da tarde, novo ato, desta vez com percurso foi inverso. Cerca de 130 pessoas, conforme estimativa da PM e dos organizadores, saíram da frente da Câmara e foram até a Praça Rui Barbosa, onde se somaram a servidores públicos municipais, que protestavam contra o reajuste salarial oferecido pela Prefeitura de Bauru. Na junção dos dois movimentos, cerca de 200 manifestantes permaneceram na praça, entre a Catedral e o Coreto.

Em razão dos protestos, várias escolas dos ensinos estadual e municipal tiveram as atividades interrompidas totalmente ou parcialmente, informou o Estado e a prefeitura. Um detalhe: ontem foi comemorado o Dia da Escola. Entre as municipais, no Ensino Fundamental, 13 das 16 escolas aderiram total ou parcialmente, afetando 5.114 alunos. No Infantil, nove das 66 unidades foram afetadas pela paralisação, com 621 alunos atingido.

Até o fechamento desta edição, porém, a Secretaria de Educação do Estado não havia apresentado um percentual de adesão das escolas estaduais, em Bauru. A pasta informou, em nota, que todo o conteúdo perdido será reposto. "Os docentes que não justificarem a falta terão o dia descontado".

SÉRIE DE ATOS

Samantha Ciuffa
Protesto pela manhã em Bauru foi encerrado em frente à Câmara; PM estima que mais de 300 pessoas participaram do ato

Denominados como "Dia Nacional de Paralisação e Mobilização Contra a Reforma da Previdência", os atos desta quarta aconteceram em diversas cidades brasileiras. Em Bauru, a concentração do primeiro grande ato se deu na Praça Rui Barbosa, às 9h. Com cartazes, faixas e carro de som, professores, alunos, militantes políticos e integrantes da OAB-Bauru declamaram palavras de ordem contra a medida proposta por Michel Temer.

"Não podemos aceitar o que está sendo imposto pelo governo. Vai influenciar na vida de todos. É impossível um trabalhador ter idade mínima de 70 anos para se aposentar. É injusto", critica a professora da Emef Claudete da Silva Vecchi, Iara Costa.

Professora de geografia na Escola Estadual Azarias Leite, Irene Paiva Valério observa o impacto da Reforma Previdenciária considerando as diferentes classes sociais e os vários postos de trabalho, incluindo trabalhadores braçais, por exemplo. O ato de ontem reuniu ainda diversos estudantes, a maioria do Ensino Médio. "A rotina do professor é exaustiva. Ele vai se aposentar sem voz, sem condições físicas de exercer a profissão. Isso se estende para outras áreas de trabalho também", avalia o estudante João Vitor Urias, 16 anos.

DÉFICIT

Coordenadora da Comissão de Assuntos Previdenciários da OAB-Bauru, Ana Paula Radighieri Moretti critica o discurso do governo de que há déficit na previdência. "Não foram apresentados estudos sobre isso. Quando se faz esse calculo, só se leva em conta a folha de pagamento, quando tem várias outras contribuições que integram o caixa da previdência", frisa. 

PANFLETAGEM

Em Bauru, muitos dos attos foram organizados pelo Comitê Popular de Luta. Durante a manhã, entidades de classe e movimentos sociais (CUT, PSOL, PT, Esquerda Marxista, Liberdade e Luta, sindicatos dos Trabalhadores da Construção Civil, dos Bancários e dos Ferroviários) fizeram ações na "Esquina da Resistência", quadra 5 do Calçadão.

No local, foi montada uma banca de distribuição de material contrário à reforma da previdência. "Estamos dialogando com a população para explicar os pontos da reforma, que já foi enviada ao Congresso. Será uma batalha muito dura", frisa o professor de história e militante do PSOL e Esquerda Marxista Silvio Durante.

Professores farão 'greve estratégica'

Em quarta-feira marcada por atos, docentes da rede estadual decidiram parar nos dias 28, 29 e 30 de março, com nova assembleia no dia 31

Divulgação
Na Capital, professores pediram reposição salarial, contratação de mais docentes e declararam repúdio à Reforma da Previdência

Em dia tomado por manifestações por todo o Brasil (leia mais ao lado e na página 17), professores da rede estadual de Ensino de São Paulo deliberaram ontem à tarde, em assembleia na Capital Paulista, por paralisação nos dias 28, 29 e 30 de março, datas em que o projeto de Reforma da Previdência deve ir à votação no plenário da Câmara Federal.

Caravanas vão seguir do Estado de São Paulo para Brasília e a expectativa da categoria é que boa parte das unidades de ensino suspendam as atividades nestes três dias. Os docentes também reivindicam reposição salarial e de outros benefícios, além da contratação de mais professores para a Rede Básica de Ensino.

Depois, no dia 31 de março, uma nova assembleia será realizada, quando a greve poderá ser prolongada ou encerrada. Ontem, uma paralisação dentro do Dia Nacional de Luta contra a Reforma Previdenciária já parou as atividades em diversas escolas. Em muitas, houve adesão de grande parte dos professores.

A Apeoesp (sindicato da categoria) contabiliza 40 mil professores reunidos ontem à tarde na Praça da República, em São Paulo. A regional de Bauru da Apeoesp enviou três ônibus para a Capital. "A categoria foi unânime, mas definiu a greve dentro deste calendário. Vamos parar nos dias 28, 29 e 30, que é quando deve haver a votação da Reforma Previdenciária na Câmara dos Deputados, e depois faremos nova assembleia dia 31", explica Idenilde Conceição, diretora da Apeoesp em Bauru, em entrevista por telefone após o ato em São Paulo.

MOBILIZAÇÃO

Idenilde salienta que, nos próximos dias, o funcionamento das escolas será normal. "Amanhã (esta quinta-16) já volta a ter as aulas normalmente, parando conforme definido em assembleia nos dias 28 a 30 deste mês. Neste período, vamos mobilizar mais professores".

"Nos dias 28, 29 e 30, vamos fazer caravanas para Brasília, por conta da votação da Reforma da Previdência. E, no dia 31, a assembleia será no vão livre do Masp, onde a categoria vai definir os rumos do movimento", menciona. Além do protesto contra a Reforma Previdenciária, a categoria pede reposição de 22% de perdas salariais, reajuste do auxílio-alimentação, contratação de mais professores, e melhores condições de trabalho.

Em nota publicada na edição dessa quarta-feira (15) do JC, a Secretaria de Estado da Educação afirma que mantém negociações permanentes com os sindicatos das categorias. "Cabe ressaltar, inclusive, que, na semana da passada, já foi pago o salário com acréscimo de 10%, esse aumento será incorporado no salário de mais de 18 mil professores de educação básica I. Com isso, nenhum professor do Estado de SP recebe menos que o piso nacional (R$ 2.298,80). O salário-base dos professores da rede estadual de ensino PEB II é R$ 2.415,89, ou seja, 5% superior ao piso nacional e acrescido de benefícios", declarou, na ocasião.

Servidores municipais também fazem protesto

Servidores da Prefeitura de Bauru também fizeram ato ontem à tarde na Praça Rui Barbosa. Eles se juntaram a manifestantes contrários à Reforma da Previdência, que realizaram passeata da Câmara Municipal até a praça. Pela manhã, alguns servidores, a maioria da Educação, também engrossaram o ato realizado no mesmo local, que contou com participação principalmente de professores da rede estadual de Ensino e estudantes.

O Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Bauru e Região (Sinserm) também rejeita a possibilidade de mudanças na previdência. "Somos contrários, pois vai prejudicar os trabalhadores de maneira geral, então aderimos ao movimento que já vinha ocorrendo com outras entidades", define Moisés Cristo, diretor do Sinserm.

Os servidores municipais recusaram a proposta do prefeito Clodoaldo Gazzetta (PSD) de reajuste de 2%, mais R$ 20,00 incorporados ao salário, em assembleia na semana passada. Amanhã, um novo ato está marcado, desta vez no Palácio das Cerejeiras, a partir das 17h, quando a rejeição será formalmente entregue ao chefe do Executivo.

"Os servidores recusaram a proposta, e seguimos em campanha salarial. Na sexta-feira vamos fazer mais um ato, desta vez em frente à prefeitura, e, na semana que vem, definir em assembleia os rumos do movimento, com possibilidade de deflagração de greve, dependendo da decisão da categoria", completa Moisés.

Manifestação na Saúde

Ricardo Santana/Divulgação
Funcionários da Saúde protestaram em frente ao Hospital Estadual, nessa quarta-feira (15) de manhã

O primeiro ato do dia de manifestações em Bauru começou bem cedinho. Funcionários da Saúde protestaram em frente ao Hospital Estadual contra a Reforma Previdenciária e contra a Famesp. O SindSaúde, sindicato da categoria, alega que os trabalhadores estão sem o reajuste salarial de 2016 e 2017.

Afirma ainda que os atendimentos aconteceram normalmente dentro do hospital porque os manifestantes se revezaram durante o ato. "A entrada dos funcionários foi fechada das 7h às 8h, liberando apenas UTIs móveis e ambulâncias", destaca.

Em nota, a Famesp diz que entende que o manifesto realizado no Estadual integra um protesto nacional que atende um chamamento da própria CUT, portanto "trata-se de um movimento democrático e legítimo".

Porém, a Fundação julga inadmissível o fato de trabalhadores serem impedidos de entrar na unidade para prestarem assistência aos pacientes. "Num balanço parcial, estavam ausentes, às 7h30, 80 funcionários (entre técnicos de enfermagem e enfermeiros) dos 139 escalados para estarem nas enfermarias do hospital naquele período", diz a nota. "Esta ausência durou cerca de uma hora e gerou atrasos em atendimentos, inclusive em cirurgias eletivas", complementa.

A entidade relata ainda que existe uma ação na Justiça do Trabalho de Bauru discutindo a questão da Convenção Coletiva de 2016/2017. "O posicionamento final da Famesp depende do julgamento dessa ação", finaliza.