08 de julho de 2026
Articulistas

A carne que comemos

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 2 min

O consumo mundial de carne aumentou mais de cinco vezes nos últimos cinquenta anos. Um número cada vez maior de pessoas exige carne, embora a carne que consumimos não seja mais a carne segura que nossos avós compravam ou abatiam em 1950, por incrível que isso possa parecer.

Além de degradar a água, o ar e o solo, alguns dos nossos grandes frigoríficos degradam a carne. Sabemos agora que consumimos carne estragada e embutidos com papelão. A carne brasileira passou a categoria de insalubre, além de imoral.

Insalubre graças à ação dos cegos pela ganância e pelo poder. Insalubre porque ela pode conter progesterona, testosterona, avoparcina e clembuterol - substâncias químicas que os fazendeiros injetam no gado para engordá-lo e mantê-lo saudável. Esteroides anabólicos, hormônios do crescimento e beta-agonistas transformam a gordura em músculo; antibióticos estimulam o crescimento e protegem os animais mais sedentários contra doenças. Insalubre porque esses frigoríficos desonestos injetam agentes cancerígenos para disfarçar o estado de podridão da carne que colocam à venda.

Imoral porque a carne vermelha vem do gado e o gado precisa ser alimentado. Os grãos que o alimentam são subtraídos dos que estariam disponíveis para o consumo humano. Se as vacas restituíssem uma nutrição equivalente sob a forma de carne, sua ração não seria desperdiçada. Mas, a energia calórica fornecida pelo bife equivale a somente um sétimo da energia da ração. Isso significa que, no processo de converter o grão em bife, as vacas "desperdiçam" seis sétimos do valor nutricional da sua ração.

A escolha que enfrentamos hoje, aqui no Brasil, é entre a degeneração rumo à crise e ao colapso ou a evolução rumo a um novo País. Se de um lado temos a Justiça e as Forças Policiais, do outro temos empresas, políticos e agentes públicos corruptos e o esfacelamento dos valores morais. Entraremos em um ou no outro caminho. Essa insustentabilidade é decorrência das tensões sociais que se aproximam de um ponto crítico e, também, consequência do aumento populacional sem o correspondente crescimento da infraestrutura necessária para sustentá-lo.

Insustentável porque a curva ascendente da demanda está cruzando a curva descendente dos suprimentos. O motor do "consuma e descarte" degrada o planeta. Esse crescimento irrestrito, puramente quantitativo da produção não é possível em um planeta finito.

Esse estilo de vida é dinamizado por um sistema que alimenta desejos insaciáveis por riqueza e poder. Incentiva a alienação pela futilidade, torna-nos insensíveis e enfraquece nosso senso de responsabilidade. Esse estilo de vida dissolve virtudes e incita comportamentos doentios, cultua a violência, a vingança e obstrui o amor ao próximo.