| Aurélio Alonso |
| Escritor Chico Vilella é o autor de "Ave, Cachaça! Nascimento, Vida, Reza & Glória" |
O costume é milenar. Quem já não presenciou ou ouviu a expressão "dar um gole pro santo"? Imagina fazer uma reza antes de enfiar goela abaixo uma cachaça. A prática já em desuso faz parte da cultura rural brasileira. O editor e designer de livro Chico Vilella, de 73 anos, atualmente residindo em Botucatu, relançou o "Ave, Cachaça! Nascimento, Vida, Reza & Glória" com ilustrações de Francisco Vilella. Degustador amador de pinga, não poderia ser diferente, Chico conseguiu catalogar 40 rezas por esse Brasil afora resgatado da tradição oral desde 1965. Sem pretensões é um resgate da miscigenação da cultura brasileira.
Esse "profano inusitado" mostra muito de um Brasil que aos poucos está desaparecendo. Como o próprio Chico Vilella ressalta a reza da cachaça é o que se pode considerar em desuso - como o uso do chapéu, galocha, bengala, suspensório, orações antes das refeições, se comparado a tempos mais generosos, mas que, ao mesmo tempo, ainda vive: afinal falar e beber é humano, universal e eterno, frisa.
Vilella também conta no livro que o autêntico produto feito com cana-de-açúcar desde quando os primeiros portuguese aportaram em Pindorama sempre teve aura demoníaca anarquista, potencialmente desagregadora - até mesmo nas rezas contemporâneas permanece viva a figura da cachaça como mal, o que mata, o diabo feito bebida.
Para o autor, a permanência desse tipo de maldição talvez explique pela paralela permanência, sempre mais perversa, da divisão social do Brasil: elites reduzidas e todo-poderosas, e maiorias desprovidas e sujeitas aos seus desígnios. Ele até brinca que a "cachaçagem" é desvio de pobre e rico não é cachaceiro, é apreciador, colecionador, expert em álcoóis virtuosos; no máximo alcoólatra.
Outra detalhe interessante é que o "costume" de dar um gole pro santo é herança ancestral. Vilella explica que a destinação da bebida a seres intangíveis, viva num Brasil repleto de entidades, santos, deuses e orixás, sintetizada, em expressões ouvidas em botecos, casas e festas, como dar "gole pro santo", enraíza-se nas tradições milenares da libação, a libatio romana, presentes em documentos desde as origens da escrita. Vilella cita, por exemplo, Homero que registra a libação na Ilíada.
O autor resgata também no folclorista Câmara Cascudo, em "Derramar bebida no chão", em cultos africanos e na Bahia, essa prática que vem de catimbós, onde a obrigação deve ser feita antes e depois de beber. "É o único livro no Brasil com rezas de cachaça, porque ninguém sabe mais o que é isso", declarou Chico Viella.
Tradição é herança de africanos
Professora e linguista da Unesp Janaina Leite Azevedo explica ritual de dar gole para o santo que tem influência também de cultos trazidos da África
| Aurélio Alonso |
| Professora Janaina Azevedo explica que tradição vem da herança de africanos e da pajelança indígena |
A professora Janaina Leite Azevedo é bem eclética. Ao ser procurada pela reportagem para comentar sobre o livro de Chico Vilella, ela já avisou rindo: "sou apreciadora de uma boa cachaça". Linguista formada pela USP de São Paulo, mestranda em Mídia e Tecnologia na Unesp de Bauru, a especialista faz questão de frisar que é umbandista e cigana para dar seu depoimento sobre o "Ave, cachaça!" No contato por telefone, antes de ser entrevistada, ela já recitou uma reza que aprendeu. Com fluência em seis idiomas, Janaina explica que o costume de dar um gole para o santo vem de religiões de matriz africana e da pajelança indígena. "Muitas bebidas feitas a partir da fermentação da mandioca, da jurema e de inúmeras ervas brasileiras são oferecidas em primeiro lugar aos ancestrais", ressalta.
O tema aparentemente inusitado tem muito da cultura brasileira e nomes como Mário de Andrade e Câmara Cascudo já pesquisaram sobre o tema e vem da rica cultura miscigenada brasileira. E a tal da cachaça sofreu muito preconceito, embora esteja virando um produto exportação, imagina então o costume de loa à bebida. A seguir os principais trechos da entrevista:
JC - A cachaça é uma bebida com tradição portuguesa ou não?
Janaina Azevedo - Tem muito da herança Ibérica na cachaça pela maneira de se beber. Se bebe em pequenas doses. Não é como a cerveja que você toma em copos maiores. Vem daí esse hábito do copo de xote. Ela vem da herança galega por causa da bagaceira, que nada mais é do que uma cachaça feita de vinho. O processo de destilação é praticamente o mesmo da cachaça de cana, só que é feita do subproduto do vinho. A uva que já deu o vinho de boa qualidade é posta para fermentar mais uma vez e desse subestrato surge a bagaceira. Em Portugal e Espanha é vista como aperitivo. Você toma antes da refeição para abrir o apetite.
JC - Por que existe essa tradição de dar um gole para o santo?
Janaina - Essa questão de dar um gole para o santo vem de religiões de matriz africana e da pajelança indígena. Muitas das bebidas feitas a partir da fermentação da mandioca, da jurema e de inúmeras ervas brasileiras são oferecidas em primeiro lugar aos ancestrais. Os mais velhos sempre bebem antes, não importa se estão vivos ou não. Entre os índios é muito comum que a primeira leva de bebida, não que ela seja tornada ao chão, é disposta, tal qual no budismo, se oferece saquê e arroz aos ancestrais que já se foram. Essa prática existe numa variedade de culturas, mas no caso da cachaça tem a ver com isso e com as tradições da África, tanto as tradições iorubanas e bantos. De forma geral você tem culto aos deuses que fazem o intercâmbio entre o céu e a terra. A prática de virar (uma pequena dose) para o santo é oferecer a bebida antes que você beba. Primeiro, os ancestrais e depois você. Isso vale também para as bebidas.
JC - Isso não é libação?
Janaina - A libação é um pouco diferente e é de origem grega. Não é só oferecer nos casos dos gregos. Também tem a ver com o consagrar. Nesse ponto tem que ofertar aos deuses no sentido mais solene. Agora nas religiões de matriz africana principalmente os deuses estão a sua volta. Os deuses convivem com você nesse plano. Os espíritos andam entre nós. Então, eles são iguais aquele seu amigo que vai ao bar beber. Quando você vai tomar uma cerveja no bar você não vai sozinho. Então é o 'bota um copo para o santo'. Tem gente que derruba no chão. Isso depende da tradição e tem gente que pede um copo e deixa no canto e depois o dono do bar despeja na rua.
JC - A reza da cachaça está em desuso. O que levou a perder a tradição?
Janaina - Creio que em parte a tradição se perdeu. Muitas rezas de cachaça são bastante profanas.
JC - O mais curioso que em muitas delas se discute virilidade e mulher?
Janaina - A cachaça tem aquela coisa de invocar a vida material das nossas vidas. Quando você bebe demais, o que você acaba fazendo? Bobagem com mulher ou com homem. É a coragem de cachaça, o famoso amor de cachaça e uma série de expressões, justamente porque ela invoca tudo aquilo que tem de material. Ela tira os freios sociais que a sociedade nos coloca. Não é muito diferente de que a cachaça é tão mal interpretada quanto a entidade Exu.
JC - Qual é a razão dessa visão negativa da cachaça?
Janaina - Há uma visão que tudo que é material, profano, é contra Deus. Isso é uma visão que se arraigou com muita ênfase na sociedade brasileira, principalmente pela formação católica. Então, se a cachaça é uma bebida que induz a fazer "coisas erradas", porque a bebida é forte e faz efeito mais rápido, por isso não é uma coisa de Deus. É diferente por exemplo com o vinho, a cerveja, o uísque e vodca. Quando uma pessoa está bêbada não está "uiscada" está encachaçado. Também tem a ver com valor sócio econômico. A cachaça foi produzida por muito tempo por escravos e posteriormente por pessoas que não tinham tanto poder aquisitivo. Só de uns anos pra cá passou a ter seu valor histórico, social, cultural e gastronômico reconhecido.
JC - É influência da religiosidade católica o fato de se chamar reza da cachaça?
Janaina - No Brasil tem o catolicismo da igreja e o catolicismo do povo. Então, tem um catolicismo que apesar de ir à missa, conversar com o padre, tomar a sua comunhão e seguir a maior parte dos ritos, convive com o catolicismo das novenas, das rezas de interior, das ladainhas. Muitas rezas tradicionais da Igreja Católica Apostólica Romana foram adaptadas nesse catolicismo popular e foram feitas muitas "paródias" para coisas que eram apreciadas e faziam parte de uma determinada cultura e não necessariamente bem vista pela igreja.
Cultura da reza está sumindo
Como já não se reza tanto nos tempos atuais, o costume da reza de cachaça também está desaparecendo do dia a dia dos degustadores de pinga
A reza da cachaça está sumindo, só restando ainda o costume de despejar um gole para o santo. O escritor Chico Vilella conta que decidiu reunir essas loas para registrar uma tradição da cultura popular, principalmente mais rural porque está desaparecendo.
O levantamento vem desde 1965. E tudo na base das anotações após ouvir as versões orais das rezas em vários cantos do Brasil. "As rezas não têm nome, eu batizei porque era necessário quando decidi publicá-las", conta.
E a primeira reza foi colhida quando o escritor estudou em Itajubá (MG), quando ouviu uma pessoa recitar a Reza da Enganação. Chico teve que apanhar um papel de embrulho e pedir para o interlocutor repetir a loa e assim deixar registrado. A partir daí ele colecionou as consagradas, mistas ou compostas. Em 2007 constatou em torno de 40 delas guardadas em todo tipo de papel. "Chegou um momento que pensei, o que faço na vida é livros. Então por que não vou fazer um livro sobre rezas de cachaça? Em Brasília, fiz um teste com amigos e perguntei para eles se conheciam reza de cachaça. Todos da minha idade não conheciam. Foi quando constatei que tinha um trunfo na mão e publiquei o livro", conta.
Há um ano residindo em Botucatu, ele é editor autônomo e designer de livros-textos e conta que a maioria das contribuições clássicas foi ouvida na capital federal, o que talvez reflita a força da presença de migrantes nordestinos, oriundos de região em que a tradição da reza ou loa, fincam mais fundas as raízes.
O escritor destaca que Mário de Andrade, em "Ensaio sobre a música brasileira", registrou extensa loa em sua viagem à região do rio Madeira, em 1927. O interessante é que Chico Vilella destaca que muitas falas tradicionais de cachaça ligam-se a rituais de festas, como as que se registram em congadas e folias de reis. Como o hábito de mais religiosidade de rezar está desaparecendo, a reza de cachaça embora um pouco mais "profana" vem perdendo adeptos.
Em trecho de "Ave, cachaça!", o escritor destaca que documentos de estudiosos do folclore e da cultura popular registram grande variedade de "rezas" (loas, lodaças, ditos, puias, relaxos, glosas, etc) que abarcam verdadeiras orações, espelhadas nas tradições religiosas, até textos francamente obscenos, característicos da tradição contemporânea da reza de cachaça. Chico contou também com o trabalho do sobrinho, Fernando Vilella, que é ilustrador e fez os desenhos de cada uma das rezas, além do projeto gráfico de Milena Hernández Bendicho.
Causo
Em noite de feroz inspiração, sai o poeta, olhos arregalados, cabelos revoltos, pelo campo. E encontra um caipira que caminha na direção contrária. Interpõe-se entre o caipira e a lua cheia e pergunta:
"Acaso já vistes o róseo-dourados de luz sobre o poente, ou a ebúrnea lua, ensandecida e bela, vagando errante pelo céu soturno?"
O caipira coça a barba, assunta a assombração e responde:
"Ó, dotô; urtimamente, não! Já vai pra mais de dois ano que eu num boto pinga na boca!"
(Trecho do livro Ave, Cachaça! Nascimento, Vida, Reza & Glória)