| Aurélio Alonso |
| Portão de entrada do Estádio Dr. Acrísio Paes Cruz, da Associação Ferroviária |
O futebol profissional na região sempre enfrentou dificuldades financeiras, mas teve período que chegou a ter até dois times da mesma cidade disputando a terceira e quarta divisões. No auge da força da ferrovia, Botucatu teve a rivalidade da Associação Atlética Ferroviária o "Gigante da Baixada" contra a Associação Botucatuense a "Veterana da Avenida", cujo distintivo era o mesmo do Botafogo carioca e também teve o apelido de "Estrela Solitária". "Era uma rivalidade ferrenha. Na semana que acontecia o dérbi no campo da Ferroviária ou da Botucatuense era o assunto da cidade com apostas e um grande acontecimento no domingo", lembra Luiz Roberto Coelho Gomes, o Zulo.
Ele conta que teve parentes jogando na Ferroviária de Plinio Paganini, famoso político botucatuense que foi dirigente na equipe fundada por ferroviários. Depois de um período, as duas equipes não conseguiram manter mais o time de futebol profissional e optaram por investir em suas sedes sociais para os associados.
O estádio Antonio Delmanto da Botucatuense não existe mais. No local está a sede social do clube na área central da cidade. Já o estádio Dr. Acrísio Paes Cruz está bem conservado. O JC visitou as instalações na última semana. Ainda mantém parte das arquibancadas de madeira sustentadas por trilhos da antiga Estrada de Ferro Sorocaba (EFS). Os dois clubes não têm mais interesse pelo futebol profissional.
Outra rivalidade que houve foi em Cafelândia quando o Glória F.C. chegou a cruzar com o Cafelândia Futebol Clube até os dois se fundirem e criarem a Associação Cafelandense que disputou 17 campeonatos do futebol profissional até pedir licença da Federação Paulista em 1984.
O patrimônio do Glória chegou a ficar abandonado até há poucas semanas por longo período. O empresário Miguel Pereira Santos Junior assumiu a presidência na tentativa de reativar o clube com 91 anos de existência de altos e baixos.
E na esteira de como o futebol profissional esteve presente também em pequenas cidades, o JC traz a história de Toninho Lozano, o goleiro "voador", que defendeu as cores do Duartina F.C. que esteve presente no final da década de 50 em campeonatos da terceira divisão. Ele recusou um convite para jogar no Santos de Pelé.
O fim da força interiorana começou nos anos 90 quando passou-se a priorizar o Campeonato Nacional e também a Lei Pelé, que acabou o passe do jogador vinculado somente ao clube, explica o professor doutor José Carlos Marques, o Zeca, da Unesp de Bauru. Mas o futebol profissional sempre foi de altos e baixos para o futebol do Interior, sem ter recursos financeiros sempre se resvalou em um amadorismo improvisado. Leia mais nas págs. 18 e 19.
Duartina teve o 'goleiro voador'
A fama foi adquirida pela sua elasticidade ao defender as bolas deferidas dos atacantes contra a sua meta. Daí o apelido inusitado: o "goleiro voador". Mesmo franzino não impediu de Toninho Lozano ser um dos destaques do Duartina Futebol Clube. O Leão da Alta Paulista como ficou conhecido o time duartinense que disputou por seis anos aos divisões profissionais no final da década de 50 e um retorno relâmpago em 1977. A melhor campanha, a de 1956, o tricolor enfrentou a Santacruzense em um jogo que valia vaga para disputar a final contra o Ituano, mas o Leão foi derrotado por 2 a 0 em partida realizada no Pacaembu, com o gramado em péssimas condições. Nesse jogo, Toninho foi convidado para ir para o Santos que já tinha contratado um grande craque: Pelé do Bauru Atlético Clube (BAC).
| Samantha Ciuffa |
| O "goleiro voador" de Duartina Toninho Lozano mostra foto dele na época do Duartina F.C. |
Aos 86 anos, Toninho Lozano jura que não se arrepende de não ter aceitado o convite. Moradores de Duartina garantem que se ele tivesse seguido carreira no Peixe seria um grande goleiro. No jogo de 29 de maio de 1956, Lozano foi o melhor jogador em campo. "Foi uma partida difícil. Choveu muito e o gramado estava ruim. A bola de capotão ficava pesada demais. Naquele tempo, a gente jogava sem luvas", conta Lozano, com 86 anos, ao relembrar o jogo "antológico" para o Leão da Alta Paulista.
À época, o deputado Atiê Jorge Cury, presidente do Santos, ficou espantado ao ver a atuação de Lozano. "Ele ficou bobo de ver eu jogar com aquele tamanhinho. Ele perguntou para o jogador Afrolfrites: esse goleiro joga desse jeito sempre? Eu não tinha luva e nem treinador de goleiro. E nunca me senti pequeno no gol, mas não quis seguir carreira. Vou falar a verdade nem dei bola para o convite, já estava no final da carreira aos 28 anos", ressaltou.
Num recorte do jornal "A Gazeta Esportiva" é citado que "o espetáculo deixou a desejar, porque as duas equipes não puderam locomover-se com facilidade, aliás o jogo deveria ter sido suspenso, porque as chuvas tornaram quase impraticável o campo da municipalidade". Os gols foram aos 43 minutos de cada período, o primeiro de Boquinha e o segundo de Moreira, de pênalti.
A partida marcou a decisão de vaga para a final da Terceira Divisão. O Duartina tinha empatado 2 a 2 com a Santacruzense no jogo em casa, mas a equipe adversária perdeu o jogo seguinte para o Pirajuí, que foi derrotado pelo Leão da Paulista por 3 a 2. Assim os dois times ficaram empatados e teve a decisão em campo neutro, no Estádio do Pacaembu, em São Paulo.
O próprio Lozano admite a superioridade do adversário que reforçou a equipe com Lelé, famoso jogador do Vasco que atuou na Seleção Brasileira e estava em final de carreira no tricolor de Santa Cruz do Rio Pardo. Nos jornais da época relatam Lelé como "grande armador", mas "estava um pouco gordo". O Duartina F.C. derrotado naquela ocasião jogou com Toninho Lozano; Hélio, Xandu, Fernando, Paulo Roberto e Zulu; Dedé Mirtola e Afrolfrites, Julinho e Valdemar. A Santacruzense: Elcio; Vilas-Boas, Tatinho, Pessinato, Moreira e Osmar; Meia Lua, Mendonça, Boquinha, Lelé e Jerônimo.
Lozano revela que o time não tinha estrutura para disputar o futebol profissional. "Tinha que trabalhar numa mercearia e no final da tarde ir a pé até o campo treinar. A gente nem tinha bola suficiente para treinar". Ele se aposentou como servidor público estadual na Escola Benedito Gebara de Bauru.
Dérbi na divisão de acesso agitou Botucatu
Quem passa em frente das sedes sociais da Associação Atlética Botucatuense e da Associação Atlética Ferroviária nem mais imagina que os dois clubes já foram uma espécie de Corinthians x Palmeiras na segunda e terceira divisão. A "Veterana da Avenida" e o "Gigante da Baixada" se enfrentaram de 1954 a 1960 até desistirem do futebol profissional e priorizarem suas sedes sociais.
| Aurélio Alonso |
| Estádio da Associação Atlética Ferroviária de Botucatu está ainda bem preservado |
O tricolor foi fundado por influência da Estrada de Ferro Sorocabana (EFS). Manoel da Silva e Lúcio de Oliveira, funcionários da seção de almoxarifado do depósito de locomotivas da EFS, decidiram formar uma equipe da companhia com os melhores jogadores.
A Ferroviária não tem nenhum título de expressão na divisão de acesso, mas revelou o jogador Zé Maria, famoso beque central do Corinthians.
Já a "Veterana" se dedica a manter várias modalidades de esporte, mas o estádio Antonio Delmanto não existe mais e é o clube mais velho da cidade, fundado em 21 de abril de 1918. Hoje as instalações integram a sede social no Centro de Botucatu.
Luiz Roberto Coelho Gomes, o Zulo, e o jornalista Carlos Pessoa são autores de uma pesquisa da Associação Atlética Ferroviária. As duas equipes disputaram a mesma divisão durante seis anos. Em 1954, 1955 e 1960 cruzaram na terceira divisão e depois na segunda divisão nos anos de 1957, 1958 e 1959. Na despedida da segundona os dois não fizeram uma boa campanha na primeira fase da Série "Paulo Machado de Carvalho" liderada pelo Corinthians de Presidente Prudente com 25 pontos e vice o São Bento de Marília com 23. De 10 times do grupo, a Botucatuense terminou em 8º com 15 pontos e a rival, Ferroviária em 9º com 12. O alvinegro prudentino conseguiu nesta época o acesso à primeira divisão em 1960.
A equipe do "Gigante da Baixada" chegou a disputar a Taça São Paulo contra o Palmeiras, na época dois jogos de ida e volta entre um time do Interior e da capital. O verdão ganhou os dois jogos por 2 a 1 e 2 a 0. "Era uma rivalidade ferrenha. Na semana que acontecia o dérbi no campo da Ferroviária ou da Botucatuense era o assunto da cidade com apostas e um grande acontecimento no domingo", lembra Zulo.
Depois de um período, as duas equipes não conseguiram manter mais o time de futebol profissional e optaram por investir em suas sedes sociais para os associados. "Os dois clubes são excelentes com boa estrutura atualmente", conta.
Entre os jogadores que se destacaram estão Ganchuba que jogou no Palmeiras e no XV de Jaú, Tição que jogou na Ferroviária de Assis e depois em Botucatu, lateral esquerdo Junior que atuou na Prudentina e na Ferroviária e ponta direita Vicente Quirinéia, o Pulga, que fez dois gols olímpicos em um jogo contra o Jaboticabal. "É muito difícil as duas equipes voltarem ao futebol profissionalmente. Hoje os times conseguem o acesso e já no ano seguinte caem de divisão. É muito difícil manter o elenco, departamento técnico, porque gira muito dinheiro e interesse", ressalta Zulo.
Desprestígio de estadual atrapalha
O futebol do interior já foi forte com grandes times como a Ferroviária de Araraquara, Noroeste de Bauru, XV de Jaú, XV de Piracicaba, Guarani de Campinas entre outros. Os campeonatos das divisões intermediárias já tiveram representantes como Duartina F.C., Ferroviária de Botucatu, Botucatuense, Glória, Cafelandense, mas hoje essas equipes nem existem mais. O fim da força interiorana começou nos anos 90 quando passou-se a priorizar o Campeonato Nacional e também a Lei Pelé, que acabou o passe do jogador vinculado somente ao clube, explica o professor doutor José Carlos Marques, Zeca, da Unesp de Bauru.
Zeca conhece bem a área, participante do Observatório do Esporte, programa radiofônico na rádio Unesp FM, com doutorado em comunicação, ele foi por 10 anos árbitro de futebol em Garça e já apitou nas quatro linhas partidas das divisões de acesso e viu de perto as atuações de Marília, Lençoense e Garça. Só não atuou em jogo do Noroeste: ficou no banco como árbitro reserva de um jogo da maquininha vermelha contra a Catanduvense, em 1995. "A figura do empresário com a criação da Lei Pelé empobreceu os clubes", opina Zeca. A seguir os principais trechos da entrevista:
JC - Por que o futebol do Interior perdeu força e prestígio?
Zeca - O campeonato estadual não tem mais a mesma força como havia até o começo dos anos 90. Isso tem a ver com a mudança do calendário brasileiro em 2002, quando o Nacional passa a ter um peso maior no calendário do ano. Os estaduais têm que ser enxugados. Isso tem um reflexo muito grande, porque as equipes que vão disputar as Séries A2 e A3 só vão ter no calendário os períodos de janeiro até abril e depois não vai ter competição de fôlego. Sobra a tal Copa Paulista que a Federação criou, mas não tem participação dos grandes clubes da capital. Para as equipes do Interior era fundamental os times grandes visitando as cidades ou os pequenos irem até a capital enfrentarem os grandes. Com a mudança na legislação, com o surgimento da Lei Pelé, nos anos 90, os clubes passaram a ficar reféns das negociatas de empresários. Muito clube permite a entrada de empresários de jogadores até porque muitos dirigentes também são empresários. Só que isso acaba enriquecendo as empresas desses agentes e enfraquecendo o clube. O clube não é mais dono do passe do jogador. O atleta tem o passe fatiado em até 20 empresários, por exemplo. Isso é fundamental para explicar porque algumas cidades tiveram o fechamento de clubes e outras cidades com clubes centenários, como o Noroeste, têm dificuldade porque não tem investimento. E surgem clubes em cidades que não tinha nenhuma tradição no futebol e passam de repente a despontarem com força, exemplo o Red Bull, que é uma marca e aluga o estádio Moisés Lucarelli. Isso acontece em diversas cidades do Interior. Um grupo de empresário monta uma estrutura para ganhar dinheiro com negociação de jogador, isso vai durar um pequeno período de tempo. Depois a fonte seca e eles vão para outro lugar para outra cidade ou muda de negócio.
JC - Essa é a explicação para desaparecimento e enfraquecimento de clubes tradicionais?
Zeca - Isso explica essa crise no futebol do interior. Veja clubes tradicionais que revelavam jogadores e hoje entram em campeonatos e não sabem o que fazer. É exemplo de Noroeste, Marília, XV de Jaú que estão em divisão bem inferior.
JC - A falta de recursos é outro motivo?
Zeca - Se não tiver um grupo que dê sustentáculo a uma estrutura mínima para pagar salário de jogadores e comissão técnica, não há tradição do clube e nem a grandeza da cidade para dar meios de o time sobreviver. Com isso vão surgindo vários clubes que têm financiamento forte. Veja na série A2, um dos líderes do campeonato é o Água Santa, que é um clube de empresário e tenta voltar à primeira divisão de novo. O Audax de Osasco tem financiamento forte e consegue ficar na primeira divisão.
JC - A Lei Pelé foi importante para o futebol?
Zeca - A lei Pelé mirou numa questão importante, o jogador não podia mais ser escravo do clube, por isso a ideia de acabar com o passe. Apesar de a lei ter uma boa intenção, ela acabou permitindo o surgimento de um outro administrador dos atletas que não é mais o clube, mas o empresário. Isso fez com que o clube ficasse pobre e os empresários ricos.
Empresário assume presidência do Glória de Cafelândia
A cidade de Cafelândia já teve dois times profissionais em divisões de acesso da terceira e quarta divisão. O Glória Futebol Clube fundado em 1926 travou duelos inesquecíveis com o Cafelândia Futebol Clube até os dois se fundirem na Associação Cafelandense de Esportes. Na última semana surgiu a divulgação de que o Glória está sendo ativado com reforma nas instalações do estádio Santa Izabel.
O Glória teve três fases, a "Era do Colégio", devido a localização de seu primeiro campo, ao lado do Colégio Sagrado Coração de Jesus, marcada pela fundação da equipe, segundo o Almanaque do Futebol Paulista de José Jorge Farah e Rodolfo Kussarev Jr.
Segundo registro deles, a segunda fase começa com a transferência de sua sedepara a Vila Operária. "Nessa época, nos anos 40, a equipe era uma das mais fortes da Região Noroeste, e Cafelândia, o 3.º maior centro cafeeiro do mundo. Logo depois, nova mudança, e o clube construía o Estádio Santa Izabel onde se encontra até hoje", consta no livro.
O empresário Miguel Pereira dos Santos Junior assumiu como presidente há poucas semanas e confirmou ao JC que, dentro de 40 dias, deve fechar uma parceria com o Linense, time que disputa a Série A1 do Paulistão.
O Estádio Santa Izabel está passando por uma faxina completa. "O campo deve virar Centro de Treinamento, mas ainda estamos em conversação", contou.
Santos Junior admitiu que existe planos de o Glória voltar ao futebol profissional. "Não temos dívidas na Federação Paulista de Futebol (FPF). As pendências existentes é da Associação Cafelandense considerada impagável".
Até um site em breve vai ficar disponível na Internet para contar toda a história do Glória. "Foi o primeiro time do Interior a jogar no Pacaembu", conta Santos Jr. Ele diz que o patrimônio do clube estava todo deteriorado. Neste ano, o Glória completa 91 anos, mas no profissional esteve quatro vezes: 1956, 1957, 1958 e 1966. A Associação Cafelandense de Esportes disputou de 1968 e a 1984.