| Samantha Ciuffa |
| A doação confortou, minimamente, o sofrimento de Marcela e Ana Marli; agora, elas se dedicam ao pequeno Cauã |
João Thiago de Paula Victório viveu intensamente. Tanto que demonstrou a intenção de doar seus órgãos para que outros pudessem fazer o mesmo. Dito e feito. O jovem, de 24 anos, morreu após um acidente de trabalho, em Bauru, no último dia 10. Sem titubear, a família realizou o seu desejo. Recentemente, o coração do rapaz foi transportado do Hospital de Base de Bauru (HBB) até o Aeroclube e o trajeto contou com a escolta da Polícia Militar (PM). O gesto da família desperta a atenção sobre uma realidade em que a exceção ainda está longe de virar "regra" (leia mais abaixo e na página ao lado).
Desde a infância, João Thiago não tinha vergonha de demonstrar amor. "Ele nos beijava, abraçava e se declarava com uma frequência admirável", revela a mãe do jovem, a dona de casa Ana Marli de Paula Sá, de 48 anos, moradora do Bauru 2.000, que o criou junto aos outros quatro irmãos - sendo que três eram filhos do relacionamento anterior de seu segundo marido.
O rapaz não era muito chegado aos estudos, mas pegava no batente desde os 12 anos. Porém, foi na escola que conheceu a esposa, a vendedora Marcela Thaís da Silva Galan, de 23, com quem conviveu por 11 anos. Da união, nasceu o pequeno Cauã Leonardo de Paula Galan, de 7 meses. Inclusive, o coração de João Thiago se transbordou de alegria após a chegada do bebê, uma vez que ser pai era o seu maior sonho.
Cheio de vida, o casal, morador do Beija-Flor, também conversava sobre a morte. O desejo de doar os órgãos se fez presente quando o jovem soube do falecimento da ex-primeira dama Marisa Letícia Lula da Silva, no último dia 3 de fevereiro, depois de ficar internada por dez dias, em decorrência de um AVC. A família optou pelo ato de caridade e deu o exemplo à João Thiago.
Na época, ele declarou, abertamente, a intenção de fazer o mesmo. "Se eu morrer, mande doar o que for possível", disse à esposa. Mal sabia ela que esta decisão estava perto de ser tomada. No mês seguinte, o casal foi separado por um trágico acidente de trabalho.
QUEDA DO TELHADO
Era 9 de maio. O dia nem havia amanhecido e João Thiago, que estava desempregado até então, saiu para o seu primeiro dia de trabalho. Graças a um colega, o rapaz arranjou um "bico" de serviços gerais em um barracão. Na hora do almoço, ligou para esposa, elogiando a comida. "Com o dinheiro, ele compraria leite e fraldas para o bebê", acrescenta Marcela.
Pouco tempo depois, João Thiago caiu do telhado, a oito metros do chão, e bateu a cabeça em uma máquina. De imediato, uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) o encaminhou ao Pronto-Socorro Central (PSC). De lá, o rapaz foi transferido para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Base.
Embora em estado a grave, a família acreditava em sua recuperação. Porém, no dia seguinte, após vários testes, veio a revelação: morte cerebral. Mesmo diante da dor, mãe e esposa se lembraram do seu desejo recém-revelado de doar os órgãos. E assim foi feito. "Só gostaria de saber quem recebeu aquele coração corintiano", diz Ana Marli.
O órgão foi levado ao Instituto do Coração (Incor), em São Paulo. As córneas e um dos rins, para Botucatu. O pâncreas, o fígado e o outro rim foi para Ribeirão Preto. Uma perda que gerou esperança, fato que confortou, minimamente, o sofrimento da família.
O TRANSPORTE DA ESPERANÇA
Conforme o JC noticiou na edição do último dia 12, o coração de João Thiago foi transportado do Hospital de Base até o Aeroclube. O trajeto contou com a escolta da PM e o órgão seria encaminhado ao Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, onde haveria o transplante.
Conforme informações da polícia, a ambulância saiu da unidade de saúde e passou pela rua Monsenhor Claro, avenida Comendador José da Silva Martha, avenida Getúlio Vargas, rua Ignácio Alexandre Nasralla, rua Antônio Alves e avenida Doutor Octávio Pinheiro Brisolla, em um percurso de aproximadamente cinco minutos.
Responsáveis pela escolta, a cabo Débora e o soldado Pavanello seguiam à frente, em duas motocicletas. O objetivo era dar agilidade e segurança ao transporte do coração, que possui tempo de vida útil fora do corpo. Os veículos que transitavam no mesmo sentido da ambulância abriram caminho e aqueles que estavam nos cruzamentos esperaram que o comboio passasse. Tudo transcorreu dentro da normalidade.
MAIS UM EXEMPLO
Enquanto a aceitação da doação de órgãos ainda está longe de ser uma realidade ideal no Brasil, os bons exemplos merecem destaque. No dia 13 de maio de 2016, a família do bombeiro civil Diego Rafael Guimarães, de 29 anos, que morreu após um acidente de motocicleta, em Agudos (13 quilômetros de Bauru), transformou a tragédia em esperança de vida para, pelo menos, outras seis pessoas, ao autorizar a doação de todos os órgãos do rapaz.
A atitude permitiu ao pessoal do Hospital de Base captar o coração, os pulmões, os rins, o fígado, as córneas e até os ossos da vítima. O procedimento cirúrgico, que durou mais de oito horas, mobilizou equipes especializadas em transplantes de quatro cidades do Estado.
Além disso, o Instituto do Coração (Incor), em São Paulo, veio de avião para agilizar o transporte e garantir a sobrevida do órgão doado.
A tragédia sensibilizou a todos em Agudos, onde Diego vivia com a esposa e o filho de 9 anos.
EM BAURU, ÍNDICE DE INTERESSADOS EM DOAR É DE 12%
Casos como o da família de João Thiago de Paula Victório são raros em Bauru. Para se ter uma ideia, no ano passado inteiro, o índice de interessados em fazer a doação múltipla de órgãos foi de 12% só no Hospital de Base. É o que revela a médica Roberta Tavares Finocchio, complementado que, na Espanha, esse número sobe para 90%.
Ela, que também coordena a Central Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos de Transplante (CIHDOTT), explica que a doação múltipla de órgãos só ocorre quando há morte cerebral e o Hospital de Base é referência para tanto, porque atende casos de politraumas, que podem levar ao diagnóstico.
Em 2016 inteiro, a unidade de saúde registrou 33 óbitos do tipo. Do total, apenas quatro resultaram em doação múltipla de órgãos, ou seja, o índice de aceitação foi de 12% (veja ilustração).
Roberta acredita que o principal motivo da rejeição seja a própria família. Com a dor da perda, ninguém pensa em tomar uma atitude como esta, a não ser que a pessoa tenha falado, abertamente, em vida sobre sua intenção de doar. "Há casos, ainda, em que um parente concorda e outro, não. Para evitar briga, vem a negativa", argumenta.
Embora a equipe do Base seja preparada para abordar as famílias em um momento tão difícil, a médica afirma que a solução esteja dentro de casa, na conversa sobre o assunto. Outro fator que pode influenciar na decisão é o tempo para a captação dos órgãos, que ocorre em até 24 horas após a morte. "Os entes queridos têm de esperar mais um dia para velar e sepultar o corpo", justifica.
FILA DE ESPERA
Roberta informa, ainda, que a fila de espera é estadual, ou seja, um órgão retirado em Bauru pode ser destinado a qualquer outra cidade de São Paulo, não necessariamente ao seu local de origem. Caso não haja um receptor compatível dentro do Estado, a doação é feita em outras localidades ao redor do País.
Além disso, nem o Hospital de Base, nem o Estadual são autorizados a realizar o transplante. Há um ano e meio, o Base busca retomar o credenciamento para a cirurgia dos rins, mas ainda não o obteve. Até o momento, o Hospital das Clínicas da Unesp de Botucatu é a referência regional para tanto.
QUASE METADE DAS FAMÍLIAS NÃO AUTORIZA DOAÇÃO NO PAÍS
"Eu não tenho nada a ver com os filhos das outras mães." A recusa veemente de uma mulher em doar os órgãos da filha foi um dos momentos que mais marcaram os 21 anos de carreira de Edvaldo Leal de Moraes, vice-coordenador da Organização de Procura de Órgãos (OPO) do Hospital de Clínicas de São Paulo. Mesmo em um País em que a fila de espera por um órgão chega a cinco anos, o relato não é um caso isolado. Quase metade das famílias ainda rejeita a doação de órgãos no Brasil.
Entre as 34.543 pessoas que esperavam um transplante, no País, em dezembro, 21.264 precisavam de rim, 10.293 de córnea, 1.331 de fígado, 539 de pâncreas e rim, 282 de coração, 172 de pulmão e 31 de pâncreas. Em 2016, 2.013 pessoas que estavam na fila por um órgão morreram. Dessas, 82 eram crianças. No ano passado, as centrais estaduais de transplantes identificaram 10.158 pessoas que tiveram morte encefálica e poderiam ser doadoras. De 5.939 famílias consultadas, 2.571 - ou 43% - não deram a autorização necessária.
Os dados foram compilados pela Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), com base nas informações das centrais estaduais de transplantes, e divulgados no último dia 9, pelo Ministério da Saúde. "O índice de recusa é bem alto. A Espanha é líder em transplante e, lá, a recusa das famílias é de menos de 20%", afirma Roberto Manfro, presidente da ABTO. Houve pequeno aumento do número de doadores em relação a 2015 - de 2.854 para 2.981.
Nos Estados do Norte, estão os maiores índices de rejeição à doação. No Acre, chega a 81%. Rondônia registrou 76% e Tocantins, 75%. "O grande empecilho é a falta de conhecimento de saber que a morte encefálica é uma situação de irreversibilidade absoluta", afirma Manfro.
Para atestar a morte encefálica, são necessários avaliação de especialista (neurologista ou neurocirurgião) e exame complementar que comprove que o cérebro não tem atividade elétrica (eletroencefalograma) ou que não há mais circulação de sangue no cérebro (angiotomografia, angiografia, angiorressonância e cintilografia do cérebro).
PARCERIA
A médica Roberta Tavares Finocchio, do Hospital de Base, revela que a unidade possui uma parceria com a Polícia Militar (PM) e a Polícia Rodoviária para o transporte dos órgãos captados dentro do hospital. Quando o percurso é da unidade até o Aeroclube, por exemplo, a PM realiza a escolta da ambulância. Casos em que o translado tem de ser feito até Botucatu, que é a referência regional para o transplante de órgãos, a Polícia Rodoviária os encaminha até o Hospital das Clínicas da Unesp. O objetivo é ganhar tempo e garantir a segurança do transporte.
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| A médica Roberta Tavares Finocchio explica que a doação múltipla de órgãos só ocorre quando há morte cerebral |