O presidente Temer cutucou o 'rabo da jararaca' no ninho, quando inaugurou o trecho leste da transposição do Rio São Francisco. A intenção era mostrar aos nordestinos, conterrâneos e amigos do Lula, que o novo governo estava pensando neles e resolveu concluir o que o seu líder havia iniciado, para beneficiá-los. Poderia ter dado certo ou, pelo menos, não ter fustigado a rivalidade, se tivesse lembrado que o pai da obra não pode concluí-la, mas que o atual governo fez questão de não deixá-la parada. Bastaria colocar uma placa com os dizeres tradicionais: 'obra iniciada no governo de fulano e concluída no governo de sicrano' e pedir aos seus representantes na região que a colocassem, não precisando lá comparecer. Entretanto, desprezou a paternidade dizendo que era apenas a aplicação do dinheiro do próprio povo, recolhido como impostos. Resultado, os amigos da jararaca sacudiram o ninho com animada festa.
Apesar da frustração da iniciativa, a atitude do governo de dar prosseguimento aos grandes projetos inacabados ou abandonados, depois de consumirem bilhões de reais, é positiva. Em sua autobiografia, Roberto Campos, ao falar das discussões sobre planejamento com o presidente Castelo Branco, comenta: "Castelo Branco trazia um engajamento maior em relação à ideia de planejamento, refletindo sua experiência de oficial de Estado-Maior. Para ele, o planejamento era um instrumento de racionalização da ação governamental e do estabelecimento de um grau razoável de coerência administrativa e continuidade." Foi isso que fundamentou o esforço de Campos e seus parceiros - Octávio Gouveia de Bulhões, Luiz Simões Lopes, Hélio Beltrão e outros, para projetar a Reforma Administrativa, cujo objetivo, na mensagem de Castelo Branco era "obter que o setor público possa operar com a eficiência da empresa privada."
Hoje, o planejamento das ações governamentais está bem instrumentalizado com suas leis orçamentárias e de responsabilidade fiscal. O problema está nos planos que contemplam projetos de longo prazo. O Decreto nº 2.829/98, que disciplina os planos plurianuais, contudo, estabelece o comprometimento pelo período de 4 anos, deixando os projetos de investimento em infraestrutura, geralmente de prazos superiores a uma legislatura, na dependência do governo sucessor. Se o sucessor não tiver interesse pelo projeto não o incluirá no seu PPA ou não reservará recurso suficiente para a sua continuidade. Essa é a razão porque estamos vendo na TV filas de caminhões carregados de soja atolados na BR 163; a Ferrovia Norte-Sul, apelidada de ferrovia-fantasma, devido a centenas de quilômetros com trilhos devidamente assentados e nunca usados; grandes projetos de portos, refinarias de petróleo e usina nuclear parados depois de consumidos bilhões de reais. E as obras de transposição do São Francisco agora retomadas estão entre os grandes prejuízos da irresponsabilidade governamental.
Aqui em Bauru tivemos o caso do viaduto da avenida Nuno de Assis, de iniciativa do prefeito Antonio Tidei de Lima (1993/96). Se tivéssemos o comprometimento de continuidade hoje teríamos uma grande obra, com as duas pistas necessárias para o prosseguimento da avenida rio acima, acompanhando o leito da ferrovia Sorocabana, formando com a avenida Nações Unidas os grandes eixos viários da cidade. E não teria causado os prejuízos que causou. Nem sempre a descontinuidade se dá pelo opositor, mas por interesse do sucessor em marcar a sua gestão por um grande feito. Foi o caso da presidente Dilma, que também quis deixar uma grande obra e, mesmo não podendo completar o PAC 1, do Lula, começou o PAC 2. Resultado, estima-se em R$ 168 bilhões o que ainda ficou por ser feito, que somado ao que foi perdido dá ideia da enormidade do prejuízo.
Não é fácil a regulamentação de projetos de longo prazo, envolvendo várias legislaturas, não só pela dificuldade de previsão de ocorrências futuras que possam comprometê-los, como pela possibilidade de um governante megalomaníaco iniciar, em final de governo, projeto que inviabilize a gestão de seu sucessor ou não deixe espaço para projeto próprio. Mas projetos de longo prazo são necessários para atender o desenvolvimento, mesmo correndo risco. Daí a sabedoria de Castelo Branco em querer coerência administrativa e continuidade, que implicam responsabilidade pública e capacidade de julgamento, duas virtudes escassas nos dias de hoje.