Finalizando as comemorações do mês de março, pelo Dia Internacional da Mulher, Bauru foi palco, neste sábado, de dois momentos muito especiais quando o assunto é a mulher vítima de violência doméstica e seu papel nos espaços de poder. Estive em um deles, realizado pelo Projeto Formiguinha, numa parceria com a Escola Estadual Henrique Rocha de Andrade; uma iniciativa brilhante, a qual agradeço por ter tido a honra de participar.
Chamado de 1º Encontro do Movimento - "Mulheres com voz", havia ali um grande número de mulheres, as quais, em roda, responderam à pergunta: o que é ser mulher? Com muita "coragem", expuseram suas tristes histórias de vida, angústias, experiências diversas, opiniões, conquistas e superações. Uma delas conta: "Meu marido bebia e me espancou por muito tempo; sofri horrores em suas mãos. Não dependia dele financeiramente, sempre trabalhei para ajudar na casa. Mas suportei aquilo tudo por não achar que poderia me libertar. Certa noite acordei assustada, ouvi um barulho estranho, levantei e fui ver o que era. Fiquei apavorada ao chegar à porta do quarto de minhas duas filhas, de 11 e 8 anos, e vi meu marido tentando estuprar a mais velha.
Tomei coragem e o deixei, fugi com minhas filhas. Com o passar do tempo, já longe dali, pensei ter encontrado a paz, junto a outro homem, mas ele era mais um traste em minha vida. Novamente tive que tomar coragem e mais uma vez fui embora. Vim para Bauru há 5 anos, refiz minha vida. Minhas filhas hoje já são adultas, superei as dificuldades, as provações são outras, mas com fé, sigo em frente".
"Quando me casei, achava que estava no céu, foram os melhores anos da minha vida. Mas de repente ele tornou-se um monstro. Me espancou, me violentou e estuprou por vários anos. Tenho um lado do rosto todo recomposto por cirurgias, pois ele quebrou ao arremessar uma banqueta. Um dia disse pra mim mesma, não posso continuar nesta vida. Procurei ajuda em muitos lugares, em alguns fui rejeitada, humilhada e desacreditada. Cobravam de mim coisas fúteis, apenas por morar em uma casa de boa aparência. Eu dizia, fui eu quem construiu tudo isso, não ele. Segui em frente com minha decisão; criei coragem e com muita dificuldade refiz minha vida. Hoje posso dizer que sou feliz, mesmo que tenha de seguir em frente com as lutas do dia a dia. Eu posso, eu consigo", diz uma senhora, a qual chamarei de Dinar.
Os relatos foram os mais tristes possíveis, mas vi ali mulheres fortes, guerreiras, destemidas. Mulheres que enfrentaram os piores momentos de suas vidas, sem no entanto deixar de acreditar no poder da superação. Claro que havia no grupo, mulheres com histórias alegres, de conquistas diversas, mas o coração batia mais forte ao ouvir tais relatos. A violência contra nossas mulheres, aumenta a cada dia, dentro de suas próprias casas, por aqueles que supostamente seriam seus "protetores", porém, não respeitam a lei, não respeitam a mulher, não respeitam suas filhas. Amores são ceifados assim, fácil, fácil. São usados requintes de crueldade para tirar-lhes a tão sofrida vida...que vida!
Dar voz às nossas mulheres é o mínimo que devemos fazer. É preciso ouvir o "Canto das Sereias", reverberar seu grito de socorro, visar a igualdade de gêneros, valorizar o empoderamento; ocupar todos os espaços de poder, conforme preconiza a ONU Mulheres e o Pacto Global, que criaram os Princípios de Empoderamento das Mulheres; embalar seus sonhos e cuidar de cada uma delas. Mulher, faça do seu mundo um lugar melhor para se viver, para mim e para você. Nenhuma mulher a menos - "...quero ver você não chorar..." Cure-se! Diga não à violência, denuncie - Disque 180, funciona 24 horas por dia.