08 de julho de 2026
Geral

No Dia da Mentira, impera a era da 'pós-verdade'

Marcus Liborio
| Tempo de leitura: 4 min

Vitor Oshiro
Rui: pós-verdade se aplica à ideia de que a opinião pública tem sido mais influenciada pelo teor emocional e ideológico de determinado assunto do que pelo fato em si

"Você está demitido. Calma, é primeiro de abril!". No Dia da Mentira, celebrado neste sábado (1), é comum "pregar uma peça" em familiares, amigos ou até mesmo em desconhecidos. Já que o assunto é mentira, contudo, vale destacar que o termo vem ganhando outra "roupagem" desde o ano passado. Trata-se da pós-verdade.

Eleita a palavra do ano pelo dicionário britânico "Oxford", em 2016, a pós-verdade definiu um conceito influenciado, principalmente, pelas redes sociais: os fatos passam a perder força frente ao que as pessoas escolhem acreditar. Isto é: são tempos em que a verdade está sendo substituída pela opinião.

Professor de neurociência do comportamento e psicologia aplicada da USC, Rui Mateus Joaquim pontua que a palavra se aplica à ideia de que a opinião pública tem sido muito mais influenciada pelo teor emocional e ideológico de determinado assunto do que pelo fato em si.

"Nas redes sociais, há uma grande exposição de informações, que as pessoas tomam como verdade e criam uma análise crítica daquilo, bem próximo de suas crenças", frisa. Ele cita, como exemplo, quando a judoca Rafaela Silva conquistou a primeira medalha de ouro para o Brasil nas Olimpíadas 2016. O especialista lembra que, à época, surgiram dois tipos de publicações em redes sociais: uma de ideologia mais à esquerda e outra, mais à direita.

"A primeira dizia que a atleta era militar e sua conquista se deu com esforço e meritocracia, independente de ela ser negra e pobre. Outros diziam que Rafaela utilizou benefícios do governo federal, para enfatizar que os programas assistenciais tinham efetividade", detalha.

Rui observa que as duas situações são corretas e que as pessoas dividiram a informação com objetivo de confirmar suas convicções e ideais. "Isso é um exemplo que caracteriza muito a pós-verdade. Primeiro, eu apresento as minhas preferências e crenças ideológicas, e só depois há uma verificação dos fatos", aponta.

'UNIVERSO PARALELO'

Para o antropólogo Cláudio Bertolli Filho, professor do Departamento de Ciências Humanas da Faac, da Unesp-Bauru, pós-verdade está inserida em um mundo pós-moderno em que as pessoas não conseguem conviver com a verdade. "Em última instância, elas criam um universo paralelo e passam a acreditar nele. É a incapacidade individual e coletiva de conviver com os fatos do cotidiano".

Ele diz que pós-verdade é um "novo rótulo para a velha mentira". "Aparece muito na política, através de um conceito chamado estratégia da ilusão. Vem de longa data", diz, citando como exemplo a "Intentona Comunista de 1935", quando o partido comunista brasileiro enviou uma mensagem para Moscou dizendo que São Paulo inteira estava a favor do movimento.

"Quando ocorreu a revolução, apenas uma pessoa na cidade tomou partido. Eles enganaram Moscou com objetivo de conseguir dinheiro para financiar a revolução. A discussão que se faz é que o partido comunista acreditou na própria mentira. A pós-verdade pode ser pensada nesta perspectiva: é uma ilusão que um indivíduo cria e passa a acreditar nela", finaliza.

No meio político

Inclusive, o termo pós-verdade surgiu em meio à política, no ano passado. Segundo a Oxford Dictionairies, a palavra vinha sendo usada em análises sobre dois acontecimentos políticos do país: a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos e o referendo que decidiu pela saída da Grã-Bretanha da União Europeia, apelidada de "Brexit".

Ambas as campanhas fizeram uso indiscriminado de mentiras, como a de que a permanência na União Europeia custava à Grã Bretanha US$ 470 milhões por semana no caso do Brexit, ou de que Barack Obama era fundador do Estado Islâmico no caso da eleição de Trump.

A mentira tá na cara...

Segundo Rui Mateus Joaquim, as microexpressões da face podem denunciar uma mentira. Ele explica que as emoções são expressas no rosto ora de maneira voluntária, ora involuntária. "Existem critérios específicos para discriminar essas duas situações", pontua.

Ele ressalta que é possível analisar se aquilo que o indivíduo está dizendo condiz com a emoção do seu discurso, apenas observando as expressões faciais e suas manifestações. "É bem suspeito quando há incompatibilidade entre a expressão facial e as palavras".

Um exemplo dessa "leitura" é quando alguém não gosta de um presente que acabara de ganhar. "Porém, eu tenho que sorrir por questão de educação, só que o sorriso não é autentico. Os músculos perto dos olhos geralmente se contraem num sorriso verdadeiro", compara.

Você Sabia?

O termo "pós-verdade" com a definição atual foi usado pela primeira vez em 1992 pelo dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich, segundo a Oxford Dictionaries. A palavra vinha sendo empregada com certa frequência há cerca 10 anos, mas houve um crescimento de 2.000% do uso da expressão no ano passado.