08 de julho de 2026
Cultura

Uma celebração chamada Roberto

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 5 min

João Pedro Feza
Roberto Carlos: turnê agora segue do Interior Paulista para Portugal

Um show de Roberto Carlos ocorre dentro e fora do palco. Fora, a atração já começa na chegada. Há todo um suspense respeitoso ritmado pelos passos lentos, mas convictos, de um público maduro e tranquilo: sabe bem o que vai encontrar. Só não sabe ao certo como vai reagir.

Uma casa mantém portão eletrônico escancarado para espiar toda a movimentação ao lado do ginásio Neusa Galetti, em Marília, onde a celebração rolou solta e sem acelerações na noite de quarta-feira, 29/3. Celebração: talvez seja mesmo a mais completa tradução, como diria Caetano.

Lá dentro, o jogo de luzes bailando no teto e a arrumação discreta dos músicos nos cantos do palco só faz aumentar a vontade de ver o cara. E, após tantos anos com aquela imagem icônica em azul e branco na cabeça (distante e familiar ao mesmo tempo), é um choque quando o Roberto real surge logo ali. Vivia além do horizonte e, por algumas horas, não fará outra coisa além de espantar a distância.

Após pot-pourri instrumental de sua banda/orquestra, Roberto se posiciona ao microfone e abre os trabalhos com a óbvia "Emoções" e a convidativa "Como Vai Você".

É possível facilmente espiar mãos trêmulas de colegas da imprensa (este aqui, inclusive) que, até instantes, pareciam pouco envolvidos com a expectativa reinante no ginásio lotado. Até o rei soltar a voz.

Senhoras sentadas nas primeiras filas pareciam se divertir em pensamento: "Tá vendo? Vocês, mais jovens aí em pé, com suas câmeras e bloquinhos, acharam que não iam se emocionar, hein?"...

Roberto conduz uma espécie de missa com malícia. Apenas separa as coisas. "Nunca fui inocente na minha vida, nem quando nasci. Faltava falar de sexo", diz ao público antes de "Proposta" ("Eu te proponho/ Te dar meu corpo..."). "Proposta", aliás, estrategicamente posicionada bem depois de "Nossa Senhora" ("... me dê a mão / Cuida do meu coração...).

Roberto pensa alto, fala baixo, canta concentrado. Meio sussurro, meio declamação, como na clássica das clássicas, "Detalhes". E é mesmo um amante à moda antiga, do tipo que ainda manda flores, como se verá no fim. 

Praticamente todas as fases são representadas: de "O Calhambeque" (Jovem Guarda) à carreira internacional com a bonitinha "Chegaste", composta pela porto-riquenha Kany García, que ele lançou em dezembro 2016 ao lado de Jennifer Lopez: uma novidade no show e que caiu bem ao ser mostrada na base de dueto virtual (ele cantando ao vivo e também no telão com J.Lo). E ainda que a fraca "Mulher Pequena" tenha espaço e "Amigo" e "As Curvas da Estrada de Santos" fiquem de fora, não chega a ser uma frustração. É uma celebração, afinal. 

Às vésperas de completar 76 anos, em 19 de abril, Roberto tem lá o direito de fazer suas escolhas. E, se também faltou "O Portão", o portão daquela casa ao lado ginásio continuaria aberto depois do show com moradores a festejar quem passava com rosas na mão.

As rosas coroam a catarse. É quando toda a beira do palco fica cheia de gente diante de um Roberto muito perto, meio mito, meio velho conhecido, ao som de "Jesus Cristo". Ele não se livra das rosas. Uma ou outra é atirada a pedidos, mas prefere mesmo, após tocá-las no queixo, entregá-las.

Espia, conversa, posiciona quem está fora de seu alcance, indica o caminho. Dá até dá bronca em quem parece "pululante" demais, mas não se sabe se o puxão de orelhas é para valer ou encenação.

Ele se curva de novo, vai de um extremo a outro, parece reservar quatro rosas para si, agradece outra vez, e outra vez, e some no fundo do palco ladeado por músicos e assistentes que o "aplaudem" com sorrisos. Quem ganha sua rosa sai com semblante de criança que interceptou balas caídas do bexigão.

Conclusão: o artista também estava ali, até agora, tentando ser novamente garoto. Ou adolescente em festa de arromba. Ou adulto em noite de amor. Fotografando cada rosto em sua mente.

Esperto o Roberto: sabe muito bem que, quando celebrados assim, esses detalhes não vão sumir na longa estrada.

João Pedro Feza
Irmãs Adriana e Camila Moraes: com rosas em mãos

Irmãs festejam juntas

Adriana e Camila Moraes ajudaram a formar a "multidão de mãos" no fim do show quando "chovem" rosas brancas e vermelhas perto do palco. As irmãs conseguiram o que queriam - e na mesma cor. "Foi meu terceiro show do Roberto, somando os anteriores em São Paulo, e minha primeira rosa conquistada. Essa apresentação não deixou nada a desejar", comenta a professora de inglês Adriana. "Foi o primeiro show do Roberto aqui neste ginásio e muito melhor do que o anterior dele, há dez anos, em outro local. Repertório também foi mais mesclado", acrescenta a farmacêutica Camila. "Ele é uma perfeição".

Outra vez

O novo show de Roberto, que acaba de passar por Marília (quarta), Presidente Prudente (quinta) e Fernandópolis (sábado, ), segue agora para Portugal. As músicas em Marília, na sequência, foram essas: "Emoções" / "Como Vai Você" / "Além do Horizonte" / "Ilegal, Imoral ou Engorda" / "Detalhes" / "Desabafo" / "Outra Vez" / "Lady Laura" / "Nossa Senhora" / "O Calhambeque" / "Olha" / "Sua Estupidez" / "Mulher Pequena" / "Chegaste" / "Proposta" / "Quero que Vá Tudo Pro Inferno"/ "Esse Cara Sou Eu" / "Como é Grande Meu Amor por Você" / "Jesus Cristo" /

O que ele tanto fala entre uma música e outra

As três melhores coisas da vida são: primeiro, sexo com amor; segundo; sexo; e terceiro, sor-ve-te. Depois do sexo, perfeito..."

"Nunca fui inocente na minha vida, nem quando nasci!"

"Vou cantar para vocês uma música... Para mim a alegria é zero, mas o amor é maior" - (Antes de interpretar "Lady Laura", lançada em 1978 em homenagem à mãe, falecida em 2010)

"Com uma banda dessa que eu tenho, uma das três melhores do mundo, nem precisava de cantor"

"Tem dia que olho para a plateia e tenho vontade de cantar para alguém em especial..." - (Antes de interpretar "Olha", de 1975)

"Por cavalheirismo, por ética e por elegância, que prezo tanto, nunca vou revelar para quem fiz essa música" - (Antes de "Sua Estupidez", composta em 1969)

"Isso foi o Erasmo quem te ensinou" - (Ao apresentar músico que, em agradecimento, fez gesto do pulsar de coração com a mão por dentro da camisa)

"Fiquei muitos anos sem cantar essa música, mas a terapia ajudou" - (Antes de "Quero Que Vá Tudo Pro Inferno", lançada em 1965, regravada em 1975 e banida por anos por ele próprio por causa da palavra "inferno").