09 de julho de 2026
Articulistas

Sociedade doente

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

Certamente não estamos perto do fim das turbulências provocadas pelos escândalos da operação lava jato. Ela revela os bastidores sórdidos da política, o despreparo dos legisladores que conduzem os destinos da nação e por consequência, o despreparo daqueles que os elegeram. Não se pode negar que existe uma relação direta entre os políticos, sabidamente desonestos, com a identidade de seus eleitores. Corruptos, corruptores, eleitores de mente endurecida e aqueles que vendem seus votos, são todos, farinha do mesmo saco e responsáveis pela situação em que nos encontramos, onde a ordem social se degenera em conflito e violência.

O que acontece no País hoje, me fez lembrar de uma lenda popular a respeito de uma coletividade que estava preparando uma comemoração de gala para o ano novo. Foi, então, solicitado a cada morador que contribuísse com uma garrafa de vinho, despejando-a em um gigantesco tonel colocado no centro da praça. Na noite da festa, o tonel estaria disponível para que todos bebessem e celebrassem. À meia noite, as torneiras foram abertas e o povo convidado a beber o vinho; porém, quando as pessoas ergueram os copos, viram que eles estavam cheios de água. Todo o mundo havia tido a mesma ideia: se meus vizinhos estão trazendo vinho, ninguém vai notar se eu colocar uma garrafa de água dentro do tonel. Em um parlamento onde todos pensam assim, a nação é prejudicada. Esperávamos pelo vinho, bebemos água e da salobra.

As pessoas boas, honestas, esperam que os outros ajam como elas, com responsabilidade, lisura e respeito, ao passo que, os desonestos almejam ser os únicos suficientemente espertos para conseguirem se safar com manobras protelatórias e chicanas. Talvez o comportamento das pessoas boas não dê origem a manchetes, mas se um número suficiente de pessoas agir desta maneira, teremos uma sociedade mais generosa e verdadeira e todos sairemos lucrando.

No início, um único indivíduo, o rei, determinava o curso da vida de seus súditos, mas, hoje, todas as pessoas decidem - precisam decidir - o que vai acontecer a todos. As pequenas decisões e escolhas que fazemos, centenas de vezes por dia, se agregam para determinar qual o tipo de País em que viverão nossos filhos. Quando essas escolhas são praticadas a partir de valores e sensibilidades do que é certo ou errado, abandonamos a dimensão animal e nos elevamos à qualidade humana e mudamos o Brasil para melhor. A existência humana é determinada justamente pela capacidade de perceber a causa de suas próprias ações. Como nos ensinou Cristo, a semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória. Ou seja, cada pessoa vai receber o que plantou. Nem morango para quem plantou pimenta, nem pimenta para quem semeou morango.

Certa vez participei de uma palestra e um dos ouvintes me perguntou: onde está Deus? Deus está em toda parte. Deus é encontrado nas igrejas, mesquitas e sinagogas. Deus está no interior das pessoas. Mas, também, quando as pessoas estão verdadeiramente em sintonia uma com a outra, quando colaboram entre si em prol da coletividade, Deus se aproxima e preenche o espaço entre elas, isso une o País e dá a ele as cores que merece: o verde e o amarelo.

A responsabilidade pelos nossos atos, a lisura, o amor e a busca pela verdade são uma maneira de trazer Deus para esse mundo: um vale sombrio de rixas, egoísmo e solidão.

O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru SP.