09 de julho de 2026
Regional

Cenas de cinema 'inspiram' Via-Sacra

Aurélio Alonso
| Tempo de leitura: 9 min

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Momento da ressurreição de Cristo em apresentação em Ibitinga, que conta com efeitos especiais e a encenação conta com cerca de 300 atores e figurantes

As dramatizações teatrais da Paixão de Cristo na região são projetos planejados com ensaios que demoram meses e "inspirados" em cenas de filmes famosos de Hollywood para recriar os momentos bíblicos e apresentadas ao vivo. Os figurinos também são copiados de muitas produções cinematográficas. As cidades de Ibitinga, Macatuba e São Manuel são as mais "tradicionais" e transformaram o evento religioso numa atração turística.

Os grupos teatrais são formados por mais de 150 atores. Os eventos contam com cenários e tecnologia de ponta.

O enredo é um só: a vida, o martírio e a ressurreição de Jesus, mas cada ano sempre é acrescentada novas cenas. É um teatro em "evolução", conta os coordenadores. Quem está à frente dos projetos acumula muita experiência. Em Ibitinga, o ator que interpreta Jesus, Robinson Pinheiro com sua vistosa barba, é o "garoto" propaganda do projeto. Ele coordena tudo e também é o relações públicas.

Ibitinga conseguiu incluir no calendário turístico do Estado a encenação religiosa da Semana Santa. Neste ano, o Grupo de Teatro Bom Jesus inicia as apresentações neste domingo, às 20h, em Itapuí, e depois tem duas apresentações em Ibitinga, na quarta e na Sexta-Feira Santa no Pavilhão de Eventos da Feira de Bordado. São 36 anos de apresentações. "Vamos estrear novos figurinos. Os centuriões romanos vão ganhar novos capacetes", conta Robinson Pinheiro.

Em Macatuba, dona Doralice Maria Artioli, 75 anos, completa este ano 47 anos de envolvimento com a organização da Paixão de Cristo. Ela já interpretou o papel de Maria, mãe de Jesus de 1970 a 1978, mas hoje é a presidente da comissão que coordena todo o projeto teatral.

Ela confecciona, conserta as roupas do figurino e praticamente "comanda" o espetáculo que movimenta mais de 150 atores em frente da igreja Matriz.

Dona Dora, como é conhecida, conta que tem um acervo de filmes sobre a Paixão de Cristo, até mesmo o controverso "A Última Tentação de Cristo", filme norte-americano de 1988, dirigido por Martin Scorsese e com roteiro de Paul Schrader. É baseado no romance homônimo de Níkos Kazantzákis, publicado em 1951, e que gerou polêmica com a Igreja Católica por focar um romance de Jesus com Maria Madalena. Mas em Macatuba uma das cenas na Paixão de Cristo de Macatuba tem inspiração no filme de Ben-Hur. Leia mais nas pág. 18 e 19. 

Falha teve que ser resolvida ao vivo

O espetáculo da Paixão de Cristo de Ibitinga é suntuoso. Movimenta muitas pessoas, aparelhos de iluminação e de som. Antes da apresentação ao público são muitos ensaios com dezenas de atores que antecedem meses até o dia, geralmente são dois espetáculos em Ibitinga e um em outro município previamente escolhido. O texto teatral com base na Bíblia não tem como incluir improvisações. Por ser espetáculo de teatro ao vivo as eventuais falhas ocorrem e mesmo assim não ofuscam as apresentações. O ator Robinson Pinheiro, do Grupo de Teatro São Bom Jesus de Ibitinga, relembra uma dessas situações que ficou marcada quando uma das cruzes não se encaixava no suporte.

O espetáculo de Ibitinga é um dos mais conhecidos no Estado de São Paulo. Neste ano completa 36 anos. É cada vez mais sofisticado nos efeitos especiais, principalmente na parte final, após a morte de Jesus, quando ocorre a ressurreição. Robinson fica suspenso numa plataforma de 14 metros de altura sob uma "nuvem" espessa de gelo seco.

O cenário do Palácio de Pôncio Pilatos e os figurinos são recriações de época.  

O episódio que ficou registrado como inusitado foi há sete anos. Pinheiro relembra que é utilizado um suporte para prender a cruz. Existe diferença de espessura da cruz carregada pelo Cristo e a dos dois ladrões.

O suporte que fica fixado no palco, onde é colocada a cruz, é travado para ela ficar de pé, porém naquele dia do espetáculo foi trocado possivelmente por distração numa apresentação em Ibitinga. "É evidente que quando foi colocada a cruz dos ladrões no suporte, ela ficou mais folgada. Diante disso quando foi colocada a cruz do Cristo o espaço era menor. E pior: aconteceu tudo ao vivo. Quando ergui a cruz foi uma tensão danada", conta o ator que interpreta Jesus.

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Cena da crucificação de Cristo

A cruz não entrava no suporte. "O pessoal figurante teve um papel fundamental na cena. Eles ficaram roucos de gritar crucifica por mais de 7 minutos, enquanto os centuriões munidos de uma marreta abriam o buraco para a cruz ser encaixada no suporte. Aqueles que estavam segurando a cruz tiveram que continuar com aquele peso de 90 quilos. Se somar mais meu peso, eles tiveram que segurar mais de 150 quilos na mão. Até que conseguiram abrir um espaço mínimo. Eu tive a sensibilidade de não fazer nenhum movimento brusco para a cruz não cair. A plateia não percebeu, mas a tensão foi muito grande", conta o ator.  

Há outras dificuldades como a cena final da ressurreição que é utilizada uma empilhadeira que possibilita que Jesus fique em cima de uma plataforma que sobe até 14 metros de altura. Neste ano está previsto chegar a 16 metros. Como há uso de gelo seco dá a impressão que Cristo está subindo aos céus na cena final.

De acordo com Robinson, é utilizado uma haste que fica amarrada na cintura como cabo de segurança. Neste ano são duas apresentações em Ibitinga: nos dias 12 e 14 no Pavilhão de Exposições Licínio Hilmar de Oliveira Arantes às 20h. Antes tem a apresentação da Banda Suave Veneno. Neste domingo, o grupo faz apresentação às 20h em Itapuí.

Encenação usa campo de futebol em São Manuel

Os moradores da comunidade Nossa Senhora de Fátima vão fazer a encenação da Paixão Morte de Jesus na Sexta Santa em frente à Igreja Nossa Senhora de Fátima (Cohab I e II), a partir de  17h, e, no sábado, a Ressurreição no campo de Futebol, a partir das 22h, com participação do Grupo Teatral "Nos Braços do Pai".

Neste ano, segundo Roberto Lima, a encenação vai completar 31 anos com participação de cerca de 250 pessoas entre figurantes e pessoal de bastidores.

A novidade será uso de três cavalos. É a primeira vez que o grupo utiliza animais em cena. "Neste ano, a gente decidiu incluir uma cena com Simão Cirineu durante a caminhada de Jesus", conta.

Simão Cirineu foi, de acordo com os Evangelhos, um homem que foi obrigado pelos soldados romanos a carregar a cruz de Jesus Cristo até ao Gólgota, onde Jesus foi crucificado.

O grupo teatral, igual fez no ano passado, baseia as cenas no filme "A Paixão de Cristo", de 2004, dirigido por Mel Gibson. Essa película abrange principalmente as 12 horas finais da vida de Jesus. A cena do martírio tem um Jesus mais ensaguentado. "A gente prefere manter essa flagelação, porque acreditamos que chega a mensagem melhor dessa forma às pessoas. Será o terceiro ano dessa maneira e ao vivo. Até então tudo era dublado", relatou.  

Dona Dora, 47 anos de Via-Sacra

Na frente da Matriz da Paróquia Santo Antônio o cenário estava sendo montado na última semana para mais uma dramatização da vida e morte de Jesus Cristo. Ao lado da igreja, nos fundos, Dona Doralice Maria Artioli Munhoz, dona Dora, 75 anos, verifica os adornos e os panos que vão precisar passar pela máquina de costura. No imenso salão, capacetes dos centuriões repousam sobre várias cadeiras com o nome do ator escrito em cartolina e, no meio de tudo, vários cabides sustentam os figurinos já lavados e limpos dos diversos personagens.

Dona Dora participa há 47 anos em Macatuba da organização da dramatização da Paixão e Morte de Jesus Cristo. Ela tem dificuldades auditivas. Quando não consegue entender a pergunta do repórter, pede para repeti-la e abre um sorriso. Já interpretou o papel de Maria, mãe de Jesus, de 1970 a 1978, depois ficou na coordenação e abriu mão da "carreira de atriz" para chefiar o Grupo de Teatro e Evangelização Padre José Corsini. "Tudo começou com a chegada à paróquia do padre Corsini, que tinha experiência na Itália com teatro. Ele propôs que fizéssemos a dramatização por achar que a cidade tinha condições geográficas e cenário. Inicialmente começamos com o Presépio Vivo e depois a Paixão de Cristo ainda simples e pequena".

Bem humorada, ela conta que por influência do padre Corsini (já falecido), a dramatização da Paixão de Cristo tornou Macatuba conhecida no Estado. Nestes mais de 40 anos, o espetáculo vem se aperfeiçoando. No começo, a qualidade de som deixava a desejar, mas nos tempos atuais os equipamentos são mais sofisticados e possibilita menos falha como antigamente.

Aurélio Alonso
Doralice Maria Artioli Munhoz coordena a dramatização da Paixão de Cristo em Macatuba

Dona Dora conta que fazer a adaptação do texto bíblico tem suas dificuldades. "É muito complexo, não se sabe o que falou na época. Não vou dizer que a gente segue à risca. A Bíblia faz uma narração, então, temos que recriar os diálogos, além da elaboração das cenas. Nos primeiros anos era só narração. Quando assumi, após a morte do padre Corsini, mudamos o que eu não entendia no roteiro e passamos a colocar mais cenas. O cinema ajudou muito a adaptar os trechos bíblicos", relata a presidente da comissão.

Daí em diante, a coordenadora revela que já assistiu a maior parte dos filmes que aborda a Paixão de Cristo. Muitos deles têm em seu pequeno acervo de DVDs. 

A cena em que uma mulher oferece água ao Cristo quando ele carrega a cruz é extraída do filme Ben-Hur. "É linda essa cena", emenda.

A Paixão de Cristo dirigida por Mel Gibson também serve de inspiração, mas o flagelo de Jesus do filme não é readaptado. "Aquela parte do flagelo é feita em estúdio. Aqui não dá, é ao vivo, não tem como fazer, mas aos poucos vamos incorporando algumas ideias. O martírio de Cristo será totalmente diferente do ano anterior", conta.

O filme dirigido por Mel Gibson abrange principalmente as 12 horas finais da vida de Jesus, começando com a agonia no jardim de Getsêmani, a insônia e agravo da Virgem Maria, mas terminando com uma breve descrição de sua ressurreição. O filme foi muito controverso e recebeu críticas de que a violência extrema do roteiro "obscurece a sua mensagem".

Até o polêmico "A Última Tentação de Cristo", dirigido por Martin Scorsese, é citado por Dona Dora, embora não tenha utilizado cenas desta película cinematográfica, mas ela considera muito humano o filme. "Assisti depois da polêmica. Tem um trecho com o profeta Paulo que é demais", relata. Para dona Dora, a dramatização é uma evangelização autêntica e real. "Falar de Deus entre quatro paredes é uma coisa, mas quando sai à rua e fala ao público atinge muito mais pessoas. Quando se vê a cena, não se esquece mais aquela mensagem", finaliza.

Início é neste Domingo de Ramos

A programação da Semana Santa é bem extensa em Macatuba. A primeira dramatização já ocorre neste domingo, às 7h, com a entrada de Jesus em Jerusalém no Domingo de Ramos e depois na terça-feira (11) tem a Procissão do Encontro, por volta das 18h.

Há na quinta-feira a última ceia na missa do lava pés, às 19h30, na Paróquia Santo Antônio. A dramatização da Paixão de Cristo ocorre na Sexta-feira Santa, às 16h. O cenário é montado em frente da igreja.  No sábado ocorre, às 20h, a Ressurreição. Antes tem uma missa.