Depois da exposição fotográfica carregada de emoção e simbologia, havia uma discussão sobre cada obra dos painéis no recinto com todos os participantes. Cada um interpretava a emoção e razão do que o outro expôs. Apontei para um dos mais maduros dos professores em treinamento e lhe disse: - o que me diz sobre esta orquídea? Ele respondeu: - é uma flor! E lhe perguntei: - o que ela te faz sentir ou pensar? Que é uma flor, apenas isto.
Assim acontece com as paineiras, quase ninguém passa para apreciar ou, sequer, percebe a beleza da flor e da árvore que em copas exuberantes floreiam a cidade por estes dias. Na pracinha da Padaria Copacabana na alameda Otávio Pinheiro Brisolla está assim, mas a correria e a forma de viver da maioria, focada nos vídeos e mensagens, impede qualquer observação fora das telinhas dos celulares, computadores ou televisão.
São árvores com mais de 20 metros, de tronco largo, as vezes dilatados, cheios de espinhos afiados e numerosos a espantar os insetos dos canteiros e solos que as suportam. Suas flores grandes de cinco pétalas, rosadas com pintas vermelhas e bordas brancas, lembram as orquídeas e as dos flamboyants, ainda que seja apenas para os menos detalhistas.
Aos neuróticos perfeccionistas, suas flores incendeiam a imaginação; abertas parecem a sorrir para o observador a lhe dizer: venhas comigo, tenho alegria e me exibo a colorir nosso mundo! Ainda que caídas no chão, ela continua a dizer: tapizo o solo com tons e matizes a recobrir por onde andas! As pétalas caem em tapete indescritível de lindo! Pode ser que alguém venha me dizer: isso é sujeira, incomoda todo ano, pegues pra você e leve para sua casa!
Já tentei, mas não consigo ser o homem maduro implacável, como o amigo professor foi com a orquídea a denegrir o amor e romantismo no interpretar a sensibilidade de um artista! Eu não consigo ser o pragmático e frio vizinho de uma copa florida com a vassoura na mão. Ao varrer as pétalas, parece que é o apagar de suas tristezas e lágrimas de uma vida sofrida, dolorida e mal vivida em espinhos de horror!
O carro parou, desci humildemente para ver a paineira. Em sua sombra, com os pés no tapete florido, olhando para o tronco espinhoso, respeitosamente recitei, baixinho, o poema de Vinícius: "Por céus e mares eu andei, vi um poeta e vi um rei, na esperança de saber o que é o amor. Ninguém sabia me dizer e eu já queria até morrer, quando um velhinho com uma flor assim falou: - amor é o carinho, é o espinho que não se vê em cada flor, é a vida quando chega sangrando, aberta em pétalas de amor!" Alguém tocou no ombro e disse: agora sei porque, quando alguém pergunta como está sua vida, respondes: - sofrida, dolorida, mas bem vivida e em pétalas de amor!
Depois das flores e sem as folhas que se foram cadentes, aparecem em semanas os frutos como cápsulas que parecem abacates ou cacaus que, ao secar, deixam cair chumaços de uma paina delicada em forma de algodão. Com o sol a rachar, os passarinhos abrem os frutos e ao vento, os flocos flutuam carregando mais de 6 mil sementes por quilo, disseminando a espécie com sua queda amortecida pela paina sedosa.
Da paina não se dá para fazer tecidos, mas pra preencher bichinhos de pelúcia, travesseiros e colchões. Há tempos se faz isto, muito antes das espumas e material da Nasa! A paina serve ainda para preencher coletes de salva vidas, pois de tão leve e por não absorver a água, flutua! De sua madeira se faz canoas, calçados e até se extrai a celulose. A paineira é parente do cacau e das 700 espécies, 400 são exclusivas do Brasil.
Como cresce rápido e logo fica frondosa, é muito usada em decoração de parques, jardins e recuperação de áreas degradadas. Aos 20 anos, a paineira deixa de florir e frutificar, mas continua tendo papel importante. Tal como os humanos, envelhecidas perdem os poderosos espinhos e, tal como um convite logo aceito, passam a acomodar ninhos de numerosos pássaros, o que não acontecia na plenitude da beleza e fertilidade!
Ah! paineira de copa grande e frondosa! Todos os dias que passo na praça reconheço o que me fez aprender e refletir. Talvez, no mês de florada, em sua homenagem, se poderia mudar o nome para Padaria Copa Bacana!
Aprendamos!