No Brasil qualquer mequetrefe com mandato pensa que pode tudo. É o mal irremediável dessa republica de desmandos. O pior é quando a corriola confraterniza e aí a coisa entorta. O ex presidente Lula alardeava que, "o importante é ter amigos", e tanto cultivou as "amizades" que a Construtora Odebrecht o distinguia como o "Amigo" na lista dos agrados que distribuía a troco das muitas facilidades, como descobriu a Operação Lavajato.
É o país da dificuldade a preço módico: é só pagar que a facilidade vem; todos ficam muito felizes, e "amigos para sempre é o que nós iremos ser", igual na música do Roberto Carlos. Essa promiscuidade está acabando com o Brasil. O pior estrago é o que deforma as mentalidades, pois, se o exemplo de cima é esse, seria surpreendente a base reproduzir diferente. Mas, o que leva o fulano que se apresenta na vitrine eleitoral com o usual discurso populista do "nóis é pela saúde, inducação e pelo trabalhador", pensar que um mandato lhe dá o direito a chafurdar nas falcatruas?
Algo está muito errado em tudo isso. João Mendes Jr.. na época em que foi ministro do Supremo Tribunal Federal, dizia que "o mal não está nos homens, mas nas instituições". É de se pensar. Será que esse modelo presidencialista de coalizão, sem ideologia e sem vergonha na cara, que despreza as instituições, não é o responsável pela multiplicação desses protagonistas da colegagem e da lambança?
Me fez lembrar um episódio histórico. Nos idos de 1825, durante a guerra da independência contra Portugal, o Imperador Pedro I havia alinhado um exército de mercenários no combate, como nos conta Eduard T. Bösche, em Quadros Alternados. Acantonados na cidade do Rio de Janeiro, alguns se meteram em insubordinações. Os líderes foram presos e submetidos ao Tribunal Militar. Dentre os que incorreram nos crimes de desobediência estava o soldado Augusto Steinhausen. Esse rapaz, que contava então com 16 anos, era ninguém menos que um filho bastardo de D. Pedro I, que os teve alguns, como registra a história.
O Imperador de tudo sabia; poderia ter interferido no julgamento, entretanto, nada fez. O desditoso rapaz foi condenado a enfrentar o pelotão de fuzilamento. Era mesmo um Bragança esse filho de Pedro I: destemido, por último desejo pede para si o comando da ordem de fogo. Consta que D. Pedro se dirigiu à prisão para o abraço extremo; a cena entre pai e filho deve ter sido de cortar o coração. Após a execução, D. Pedro I, arrasado, convoca o presidente da Corte Marcial. Esse aparece em palácio. O imperador o encara e diz: "Você sabia que era meu filho". O oficial titubeia. D. Pedro vergasta-lhe o rosto com um chicote: "Me portei como Imperador durante o julgamento; agora ajo como pai".
Que exemplo é esse! Demonstrou ali que ninguém, absolutamente ninguém, estava acima das instituições, nem o Imperador do Brasil. Hoje, infelizmente, Lula nenhum agiria assim se fosse o caso de condenar um Lulinha da vida ou qualquer dos "amigos" por qualquer motivo que fosse. Tristes tempos esses em que a honra é o dinheiro.