09 de julho de 2026
Economia & Negócios

30% dos inadimplentes emprestaram o nome

Marcus Liborio
| Tempo de leitura: 3 min

Nem sempre quem pede o nome de um amigo ou familiar para fazer compras consegue honrar suas dívidas. Neste caso, a consequência é evidente: aquele que liberou seus dados pessoais se complica. Somente em março deste ano, o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) de Bauru registrou 1.026 consumidores negativados. Deste total, 30% "emprestaram" o nome para terceiros, aponta estimativa da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL).

Os idosos e jovens recém-empregados lideram a lista. Embora tenha sido registrada uma queda de 30% no número geral de endividados - sendo 5% no percentual de fiadores (leia mais abaixo) - na comparação do primeiro trimestre de 2016 com o deste ano, o alerta segue sobre os cuidados ao emprestar os dados pessoais para aquisição de bens, ressalta o consultor jurídico da CDL, Elion Pontechelle Júnior.

"Nem sempre a pessoa age de má fé. Ela acaba se endividando e não consegue mais quitar as parcelas do empréstimo ou do crediário. Entretanto, é quem emprestou o nome que perde o crédito 'na praça'", frisa Elion, complementando que os idosos lideram o ranking. "Na maioria dos casos, são eles que cedem os dados cadastrais para os filhos ou netos. Estes, às vezes, não conseguem quitar as contas", reitera.

Os consumidores que estão ingressando no mercado de trabalho aparecem logo atrás na estatística. Elion explica que, no início da carreira, geralmente, os jovens têm o nome limpo e muitas vezes servem de fiadores para familiares e amigos.

"É comum emprestarem o nome para os pais ou irmãos. Alguns não têm conhecimento das consequências e procuram as lojas questionando a cobrança, dizendo que não compraram nada no estabelecimento", acrescenta o consultor jurídico.

'CHEGO A CHORAR'

A doméstica Valéria (nome é fictício para evitar constrangimentos à família) vive o drama daqueles que ficaram endividados após emprestar o nome a terceiros. No caso dela, para os três filhos. "A gente faz porque é mãe. Não consigo ficar brava com eles, mas chego a chorar à noite", revela.

E não é para menos. As dívidas, que ela vem renegociando desde 2016, hoje representam 80% de seu salário - um acúmulo de financiamentos e contas. Um dos filhos, por exemplo, usou os dados pessoais da mãe para comprar um carro.

"Ele não conseguiu pagar e vendeu o veículo, mas quem comprou também atrasa os pagamentos, sendo que o carro continua no meu nome", conta Valéria, complementando que outro filho conseguiu abrir crediário em uma loja de departamentos de Bauru, sem a presença dela no local.

"Uma das contas tive de renegociar por três vezes. Faltam três parcelas", detalha a doméstica, que vem pedindo ajuda dos filhos para tentar acertar a situação. "Às vezes, não funciona porque eles também têm as dívidas deles", lamenta.

Valéria tem se esforçado para honrar os compromissos financeiros - que, na verdade, nem são dela - e, apesar das dificuldades, ainda enxerga uma luz no fim do túnel. "Aos poucos, estou conseguindo pagar tudo", finaliza.

Queda de devedores

A quantidade de devedores na cidade caiu 30% na comparação do primeiro trimestre de 2016 com o deste ano, segundo estatística apresentada pela CDL. De janeiro a março de 2017, foram 2.428 inscritos no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) contra 3.488, no mesmo período do ano anterior.

A queda é resultado dos recentes e ainda tímidos sinais de recuperação econômica no País somados à diminuição de consumo de boa parte da população, em razão da crise. É o que aponta o consultor jurídico da CDL, Elion Pontechelle Júnior.

"Além desses dois fatores, percebemos também que os consumidores estão aproveitando a liberação das contas inativas do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para quitar dívidas", complementa.

Já o número de endividados que emprestaram o nome a terceiros apresentou queda de 5%, também no mesmo período. "A mídia tem divulgado mais. Acredito que as pessoas estão adquirindo mais conhecimento dos riscos", justifica Elion.