10 de julho de 2026
Geral

O que ocorre com o canal tratado? Por Alberto Consolaro


| Tempo de leitura: 3 min

Temos 100 trilhões de bactérias em nossas superfícies internas e externas que entram no sangue ao pentear cabelos, escovar dentes, comer, coçar olhos, fazer unhas, usar aparelhos, beijar e praticar sexo. Uma pessoa com gengivite e periodontite põe muito mais bactérias no sangue ao comer! No tratamento de canal também se coloca bactérias no sangue!

Bactérias no sangue se chama ‘Bacteremia Transitória’ e se dão mal pois não conseguem sair pela paredes dos vasos normais cujos orifícios ou poros são muito pequenos. E mais, se têm uma quantidade incrível de células fagocitárias e substâncias como anticorpos e proteínas do complemento que, em minutos, eliminam-nas! Em média, temos 6h de bacteremia por mês!

Em pessoas com saúde debilitada as bactérias podem ficar mais tempo no sangue e dar origem a doenças que em pessoas normais não ocorreriam! Pessoas com saúde debilitada podem ser lindas, cativantes e sedutoras como as desnutridas que fazem regimes malucos ou comem mal, que bebem todos os dias e tem etilismo, estressadas, as anêmicas, diabéticas, com doenças autoimunes e as que fazem quimioterapia.

“Anacorese” é o termo que se usa para a fixação ou localização de bactérias do sangue em áreas previamente lesadas e inflamadas em que os vasos ficam mais dilatados, com paredes mais permeáveis para passar bactérias aos tecidos. Isto é frequente ao redor de próteses, silicones, válvulas, parafusos e pinos, fios de ouro, gel, marca-passos, pancadas, incluindo as cabeçadas e inclusive em canal dentário tratado inadequadamente!

Bacteremias transitórias e anacoreses são muito mais perigosas quando enfraquecemos a saúde e é quando ocorrem osteomielites, abscessos cerebrais e outras decorrentes de bactérias do sangue. Dá para saber ‘exatamente’ de onde vieram as bactérias de uma “Sepse” que é o nome que dá quando o organismo perde o controle sobre si mesmo por uma infecção muito grave?

Resposta: de forma absoluta a resposta é não! Pelo tipo de bactéria pode se suspeitar que seja da boca, pele, garganta, intestino, nariz, ouvido, dente e outros locais, mas com certeza absoluta, nunca! Pode ter vindo de um canal, mas pode ter sido no escovar os dentes, no comer, tomar banho ou beijar! Pode se suspeitar fortemente, mas fechar de forma absoluta não!

CASO DO CANAL

Quando se tem cárie, se não removê-la, bactérias e seus produtos atingem a polpa que fica dentro de uma cavidade no centro do dente com a forma de um a três canais. A inflamação da polpa pode levá-la à necrose e todo o canal fica cheio de milhões de bactérias e seus produtos. Este canal se abre na ponta ou ápice da raiz dentro do osso e, nesta situação, pode contaminar o resto do corpo.

Fazer o canal significa limpar, alargar e preenchê-lo com material que fica claro na radiografia o que permite avaliar se cumpriu o objetivo de tirar os espaços das bactérias para que não sobrevivam. Tratar bem o canal, só faz bem! Quando se deixa espaços não preenchidos, é por que o tratamento foi inadequado e elas proliferam, saem pelo ápice e podem ganhar o sangue e órgãos distantes.

Na mídia, um caso de abscesso cerebral e outras complicações infecciosas em uma modelo foram atribuídas ao tratamento de canal. Primeiramente precisa-se checar quando e como foi feito este tratamento de canal, além de se avaliar como estava esse tratamento endodôntico no momento do diagnóstico.

Tratamento de canal dentário bem feito não faz mal! O que faz mal é quando ele for mal feito, inadequado e ou inoportuno; quando bem feito só faz bem! Para dar acesso a estas informações sobre este assunto colocamos à disposição desenhos e esquemas das 4 possibilidades de evolução e consequências de um tratamento de canal ou endodôntico. Os conceitos de bacteremia transitória, anacorese, sepse e debilidade orgânica são fundamentais para a compreensão do esquemas!

Bom proveito!

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC.