08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Sarjetas da vida

Cinthya Nunes
| Tempo de leitura: 4 min

Há algumas semanas saímos com um casal de amigos para comermos algo e também para prestigiarmos uma amiga que se apresentava cantando no mesmo local. Depois de comermos petiscos, bebericarmos um pouco, rirmos bastante e ouvirmos um suave som de barzinho entoado por uma voz delicada, saímos para pegar um táxi e voltarmos para casa. Na calçada, sentando, havia um senhor que, ao nos ver passar, pediu uma ajuda para ir até o ponto de ônibus pois não estava se sentindo bem.

Indagamos o que ele sentia e ele nos contou que estava sentindo tonturas e um mal-estar que não sabia identificar. De início achei que ele estava bêbado, mas depois não tive mais tanta certeza, exceto a de que ele não era um mendigo, embora uma pessoa simples. Tirando do bolso um maço de papéis amassados, ele nos mostrou seus documentos e constatei que tinha o mesmo nome do meu pai. Foi inevitável sentir um aperto no coração, ainda mais depois que ele nos disse que morava sozinho, que não tinha quem olhasse por ele e que tomava vários remédios diariamente,

Não dava para ouvir tudo isso e irmos embora, indiferentes. Ligamos para o Samu e fizemos um pedido para que fosse até ele e prestasse socorro, mas depois de vinte minutos começamos a crer que talvez não aparecesse. Ligamos para a Polícia Militar e, depois de alguns minutos, passou por nós uma viatura. Sinalizamos para que parassem e, após explicarmos os fatos, os policiais nos informaram que o levariam para ser atendido em um dos hospitais públicos da região.

Enquanto a polícia fazia a checagem padrão dos documentos dele, senti um leve cheiro de bebida no ar e pensei que era mesmo bem provável que ele tivesse bebido algo e, se de fato tomava remédios, a mistura deveria ser uma das responsáveis pelo estado de saúde em que se encontrava. Em poucos minutos os policiais o convenceram a acompanhá-los para receber cuidados. Tão logo a viatura se afastou, rumo ao hospital, vimos que o Samu se aproximava, lamentavelmente cerca de quase uma hora depois de ter sido acionado.

Entendo que, em uma cidade como São Paulo, não devam faltar ocorrências a serem atendidas, inclusive muito mais sérias do que socorrer alguém que possa ter buscado na bebida a companhia para um fim de vida solitário, mas isso não muda a sensação de desalento que tivemos diante de um idoso pedindo por socorro, sentado na calçada, com ar de desamparo, tarde da noite em um fim de semana. Pensando agora, creio que talvez nos tenha faltado o entendimento de que ele buscava por outro tipo de socorro.

Fico imaginando em todas as pessoas que estão pelas sarjetas da vida, perdidas, seja em seus pensamentos, seja nas ondas das drogas, as lícitas e as ilícitas. Embora seja razoável que se tenha receio diante de pessoas que pedem ajuda pelas ruas, até porque as estatísticas da violência legitimam tal sentimento, também é fato que são seres humanos, repletos eles também de toda gama de sentimentos e fragilidades que marcam a travessia humana por esse plano.

Não sei o que se passou com o idoso depois que ele foi para o hospital. Não sei se de fato estava doente de corpo ou de alma, ou quiçá de ambos. Tudo o que sei é que naquele momento ele estava frágil e perdido, como, aliás, qualquer um de nós poderia estar. Sei ainda que, se fosse algo mais sério, pela demora do atendimento, ele poderia ter morrido à míngua, assim como também poderia ter ocorrido com qualquer outra pessoa que tivesse um mal súbito pelas ruas de São Paulo.

Triste constatar que nesse país pagamos por tudo e para tudo, que aqueles homens e mulheres nos quais confiávamos (ou nos quais alguém confiou) se apropriaram do dinheiro público de forma deslavada, pornográfica e que ainda enchem a boca e estufam o peito para se dizerem inocentes ou para darem justificativas de suas vilanias. Difícil viver sem se dar conta da desigualdade que espanca os brasileiros, que nos torna, a todos, de algum modo, vitimas de um sistema cruel e vicioso que parece não ter solução.

Ao menos a Polícia Militar, tão criticada por muitos, naquele dia apareceu e tratou o pobre senhor de forma digna, respeitosa, sem fazer diferença alguma. Talvez fosse disso que ele precisasse no fim das contas, mas, de toda forma, se o Estado padrasto não nos socorre adequadamente, ainda temos esperança, derradeira, de que algumas pessoas possam fazer diferença entre tanta indiferença.