| Renan Casal |
| Educador físico Marcel Gregolin nem pensa em mudar, mas admite: salário não é dos melhores |
Se você não trabalhasse em sua área profissional atual, o que pretenderia ser ou fazer? Para este Dia do Trabalho, 1 de maio de 2017, o JC foi às ruas para "espiar" o nível de satisfação de profissionais na faixa etária dos 30 anos.
A realidade local, apesar da pequena amostragem, confirma um estudo divulgado recentemente que apontou que 52% dos jovens brasileiros com 30 anos estão frustrados com a carreira, trabalham para sobreviver e não fazem o que gostam.
O chamado "Projeto 30", realizado pela Giacometti Comunicação, ouviu 1.200 pessoas dessa faixa etária residentes no Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Porto Alegre.
A baixa criticidade de pensamento na fase escolar, somada a escolhas vocacionais equivocadas, é um dos fatores que teriam influenciado o resultado (leia mais abaixo).
SEMPRE É TEMPO
Prestes a cursar seu terceiro curso superior, na área de tecnologia da informação, o contador e consultor de negócios Alex Figueiredo, de 37 anos, se diz pronto, inclusive, para uma quarta faculdade: a de engenharia civil.
"Estou satisfeito com minha área, mas penso em largar tudo para realizar este sonho. Não tenho medo de começar de novo aos 40, o que vale, hoje, é o conhecimento do profissional e eu não pretendo parar cedo", afirma Alex.
'JÁ TRABALHEI NA ROÇA'
Ele não é o único. Há 16 anos atuando na mesma área, o mecânico Marcelo Fernando Alves Cabral , de 34 anos, também pensa em mudar de ramo, mas motivado por desvalorização de sua mão-de-obra.
"Um mecânico em Bauru ganha menos de R$ 1,5 mil, hoje. Meu sonho na infância era ser policial militar, mas depois que um amigo PM morreu em São Paulo, perdi toda vontade", comenta Marcelo, que possui curso técnico e não pensa nem mesmo em ser autônomo.
"Não tenho medo de mudar, já trabalhei até na roça. O que quero, na verdade, é ganhar um pouco mais para viver melhor", comenta o rapaz, que era do Mato Grosso e começou a trabalhar como mecânico em Bauru por necessidade, para não ter que voltar para sua terra natal.
NEGÓCIO PRÓPRIO
É aos 34 anos que a paixão de infância por bichos começou a falar "mais alto" na vida da chefe de produção de uma fábrica de Bauru Ariadne dos Rios. Depois de trancar duas faculdades, trabalhar no comércio e como secretária, ela resolveu partir para um curso de auxiliar de veterinário.
"Quero ter meu próprio negócio de banho e tosa e, mais para frente, se a parte financeira ajudar, cursar veterinária, que é o que eu sonho desde a infância", pontua Ariadne.
"Comecei as faculdades, mas no decorrer dos cursos, percebi que não estava realizando um sonho meu, mas sim de familiares", completa a entrevistada.
SONHO DE INFÂNCIA
O sonho de infância de um dia ser advogada também se sobressai diante da frustração com outros tipos de profissão na vida de Vanessa Forti, de 34 anos, atualmente desempregada.
Formada há dois anos em Recursos Humanos, ela conta que nunca atuou na área, nem mesmo em estágios.
"É muito difícil e concorrido arranjar emprego nesta área aqui em Bauru. Eu sempre trabalhei como auxiliar administrativo, mas meu sonho era ser advogada. Cheguei a prestar vestibular, mas desisti por causa do tempo de curso", explica Vanessa, que se diz arrependida e prestes a tentar ingressar na faculdade novamente. "A idade realmente não importa, ainda tenho muitos anos para viver", fecha questão sem pessimismo.
EX-MOTORISTA
Já o educador físico Marcel Gregolin, de 36 anos, se mostrou plenamente satisfeito com os rumos de sua carreira no momento.
Além de ministrar aulas de educação física na rede pública de ensino para os níveis infantil e fundamental, ele, que é formado há 7 anos, também atua como técnico do vôlei feminino da vizinha cidade de Bariri (56 quilômetros de Bauru).
"Estou satisfeito, sempre sonhei em trabalhar com o que faço hoje. O salário pode não ser dos melhores, mas faço o que gosto e tenho prazer nisso. Não dá para deixar de viver por dinheiro", ressalta o professor, que antes de ser educador e técnico trabalhava como motorista.
Projeto 30
Ainda de acordo com o levantamento feito pelo "Projeto 30", apenas 16% dos trintões das classes A e B e 15% da classe C estão realizados com o trabalho, enquanto 9% dos entrevistados de alta renda e 10% da classe C aceitariam ganhar menos para ter mais qualidade de vida.
Uma das causas do estudo considera que o indivíduo não teve ferramentas para desenvolver inteligência emocional e refletir sobre si antes dos trinta. O universo familiar também é responsabilizado por não criar condições para despertar autoconhecimento. Em terceiro, o Estado, que não proporciona políticas educacionais que priorizam a reflexão e criticidade.
Alex Garcia: da colheita às quadras
Ala do Gocil/Bauru basquete, Alex Garcia, 37 anos, conta que, ainda na infância, influenciado por seu irmão, sonhava em ser jogador de basquete, mas caso não desse certo, pensava em cursar veterinária ou ainda seguir carreira militar, o que poderia lhe dar certa estabilidade. Sua relação com o esporte começou aos 13 anos, em Orlândia (SP), sua cidade natal. Mas seguir carreira no esporte, mesmo sendo bom, não seria tão fácil assim.
"Trabalhei com minha mãe na roça colhendo café, laranja e descascando milho. Também ganhava dinheiro lavando quintais em casa de família. Fui empacotador de supermercado e entregador de compras. Fiz até bicos de chapa pra caminhoneiro", conta o Alex.
Hoje, ele fala que não pensa em mudar de área, mas sim crescer dentro do próprio esporte e repassar o que aprendeu para novas gerações.
Pais da década de 60 evitavam a todo custo a frustração dos filhos
Marilene Krom, psicoterapeuta e doutora em psicologia clínica, explica que na educação dos pais dos anos 60, o eixo central era de que os pais os pais queriam filhos felizes e evitavam a todo custo que fossem frustrados.
Fato que teria gerado certa dificuldade desta geração em lidar com frustrações naturais da vida.
"E o sistema de formação profissional prega que uma pessoa ainda muito jovem, às vezes com pouca informação e maturidade, escolha uma profissão para toda a sua vida", acrescenta Krom.
Para ela, o momento atual, considerando o contexto social e politico, que gera ainda mais insegurança e poucas perspectivas, exige calma. "Tudo é passageiro. Imaginar que as mudanças que virão poderão ser benéficas torna mais fácil sair de situações paralisantes e seguir em frente", finaliza.