10 de julho de 2026
Articulistas

Espelho de Cícero (Baleia Azul encalhada)

Renato Ghilardi
| Tempo de leitura: 2 min

Se há uma coisa que podemos aprender nesse mundo é que nada acontece, socialmente, de

forma leviana. Qualquer ato, posicionamento ou argumento que você utiliza em uma discussão

são decorrentes da sua carga genética e de sua moral adquirida, em grande parte, na sua família. E tais artefatos sociais são os marcos balizadores daquilo que você chama de “Eu”.

É simples notar isso; basta ver o histórico de páginas visitadas e utilizadas na internet. Elas são, indubitavelmente, seu reflexo. Todas elas mostram aquilo que você e, principalmente, aquilo que te falta. Nenhuma das páginas são aleatórias ou levianas de contexto; todas elas mostram seu reflexo e aquilo que você procura ser.

Faço esse preâmbulo para introduzir uma discussão sobre o fenômeno “Baleia Azul” que se instaurou no arquétipo de pensamento do brasileiro, muito pela dispersão alarmista da mídia. Como que em uma semana de “jogos”, esse fenômeno se dispersou por mais de 7 estados brasileiros levando dezenas de adolescentes à morte?

Será que na internet é tão fácil assim achar “tutores” desse jogo para comandar de forma tão irascível esses adolescentes? Será que ao digitar baleia-azul no facebook aparecem páginas de players? Algo está errado… Não, não está errado.

Muito pelo contrário, está dentro da normalidade de pensamento que assola nossa sociedade. Hoje onde, numa visão linguística, o significado do significante é alterado por conveniência, o significado real do significante “Baleia Azul” é perdido. O significado é visto como atos maus de homens ruins contra adolescentes sem defesa. Isto é falso. O real significado é a já existência de grupos de adolescentes melancólicos e com problemas pessoais mil que os levam a comportamentos suicidas.

Esses comportamentos não são invisíveis e muitas vezes as famílias escondem a visualização deles por comodismo. Ninguém psicologicamente estável se mata em duas semanas de um jogo.

Agora, adolescentes com tendências suicidas, não vistas pela família, conseguem enxergar nesse momento paranoico algo epifânico e libertador de suas angustias.

Vejam as páginas da internet visitadas por eles e saberão seu verdadeiro “Eu”. Não me estranhará o aparecimento de “tutores” sendo presos como culpados.

Eles aparecerão agora e só existirão pelas necessidades patológicas diferentes de outros indivíduos parecerem serem controladores ou aproveitadores de uma situação caótica. Mas o que mais não me estranhará será o veredito de inocência dessas famílias que, assim como baleias-azuis, encalharam na praia da responsabilidade social.

O autor é professor da Unesp Bauru.