08 de julho de 2026
Geral

Centrinho passa a limitar atendimento

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 3 min

Malavolta Jr.
Maria Aparecida de Andrade Moreira Machado, superintendente do Centrinho
Éder Azevedo/JC Imagens
Ao menos durante um ano, Centrinho da USP receberá número reduzido de novos pacientes

Referência no atendimento de pacientes com fissura labiopalatina na América Latina, o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC) da USP, o Centrinho, regionalizou seu atendimento. Segundo a superintendência da unidade, a mudança obedece a regras específicas do Ministério da Saúde, instituídas depois que centros de referência neste tipo de tratamento passaram a funcionar em todo o País.

Em razão disso, pacientes que vinham sendo assistidos no hospital, oriundos de outros Estados em que haja o serviço, estão recebendo correspondências com a recomendação para que procurem atendimento em seus locais de origem.

“Até porque eles podem conseguir agilizar o tratamento. São 28 centros credenciados pelo SUS para atendimento de fissura e deficiência auditiva e o Centrinho não pode continuar aplicando recurso do SUS destinado ao Estado de São Paulo em pacientes de outros lugares”, argumenta a superintendente do hospital, Maria Aparecida de Andrade Moreira Machado.

De acordo com ela, a prioridade, agora, será dada às solicitações que vierem de um dos 68 municípios abrangidos pelo Departamento Regional de Saúde (DRS-6). Caso houver sobra de vagas, o atendimento será estendido para outras cidades do Estado. “Estamos encaminhando, inclusive, as tratativas para que a entrada de pacientes comece a ser regulada pelo DRS-6”, adianta.

Historicamente, 75% da demanda do Centrinho era de moradores de outras unidades da federação. A mudança começou a ser implementada em setembro do ano passado, justamente quando o Centrinho diminuiu de 17 para quatro o número de novos pacientes com fissurados atendidos a cada mês. E também parou de receber novos casos de pessoas com deficiência auditiva que demandam implante coclear, cuja fila atual por cirurgia é de nove meses.

CRISE

A decisão, motivada pela crise econômica que levou à redução dos repasses do governo do Estado à universidade, foi aprovada pelo Conselho Deliberativo da universidade e deverá perdurar por pelo menos um ano. “Seria uma irresponsabilidade continuar atendendo casos novos, sabendo que não teríamos condições de fazer as cirurgias. Seria injusto e desonesto com os pacientes”, frisa a superintendente.

Pesou na decisão a impossibilidade financeira de contratar médicos anestesistas. Hoje, apenas cinco atuam no hospital – no início do ano passado, eles somavam dez profissionais. A redução drástica, segundo Maria Aparecida, veio na esteira de ao menos um dos dois programas de demissão voluntária implementados pela USP.

“O impacto foi grande porque muitos servidores estavam preocupados com a possibilidade de serem enquadrados, em um futuro breve, nas novas regras propostas pela reforma da Previdência”, analisa.

PARCERIA E CONVÊNIO

Na tentativa de contornar a crise e retomar o volume anterior de novos pacientes atendidos, o Centinho está prestes a assinar um convênio via Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo (Fusp) com a ONG internacional Smile Train, que fomenta ações específicas para a reabilitação de pacientes com fissura labiopalatina.

“Nesta segunda-feira iremos até São Paulo para a assinatura. Então, passaremos a receber da ONG US$ 250,00 por cirurgia de fissura que realizarmos, o que deve representar US$ 25 mil por mês, recurso que nos permitirá contratar três anestesistas até julho”, projeta. A expectativa é normalizar a fila de pacientes aguardando cirurgia e, até meados de 2018, começar a ampliar as vagas para novos casos.

Déficit

O Centrinho reconhece que, em razão da queda no orçamento e da dificuldade em contratar médicos anestesistas, o volume de cirurgias na unidade foi reduzido em 40% no último ano. Diretora do Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp), Cláudia Carrer alega, contudo, que o déficit de profissionais no hospital não é um problema recente ou pontual.

“As vagas dos funcionários da Funcraf (Fundação para o Estudo e Tratamento das Deformações Crânio-Faciais) que atuavam no Centrinho e foram demitidos não foram integralmente repostas”, diz, referindo-se ao processo conduzido em 2013. “Há uma falta grande de profissionais, déficit até de oftalmologistas e infectologistas que saíram do hospital sem que houvesse novas contratações. Aquele Centrinho lotado de pacientes e profissionais não existe mais”, completa.