11 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

(In)justiça social: O mito da inclusão do indivíduo surdo na sociedade

Cinthia Gabriele E. Meira, estudante de Letras e Surda oralizada
| Tempo de leitura: 4 min

A internet, mais notavelmente as redes sociais, deu voz a um segmento da sociedade que vêm sendo constantemente ignorado em seus direitos básicos de acessibilidade: os surdos. Muito já foi conquistado no universo que tange à surdez, inerente à educação, trabalho, escolas, universidades, convívio social, escolha de língua, etc. Leis e decreto foram criados de forma a normatizar e reconhecer a Língua Brasileira de Sinais e regulamentar a atuação do intérprete de Libras. Se por um lado temos o privilégio de olhar para trás de nos orgulhar das conquistas, paradoxalmente enfrentamos a triste realidade do descaso pelo cumprimento destas mesmas regulamentações, ou quando muito, são cumpridas de forma parcial.

Reflexo desse descaso com a questão da acessibilidade aos indivíduos surdos pode ser observado na ausência de legendas nos filmes estrangeiros em muitos cinemas, já em filmes brasileiros ou de animação, essa opção simplesmente não existe. DVDs de músicas nacionais majoritariamente não apresentam legenda, tanto quanto os programas de TV aberta, que quando aparece, apresentam erros grotescos de ortografia, coerência e coesão. Ter um intérprete de Libras ou oralista quando solicitado é um direito assegurado por lei a todo indivíduo surdo.

Garantia essa que é constantemente ignorada por empresas, escolas, universidades, órgãos públicos, muitas vezes sob a justificativa infundada de falta de pessoas qualificadas. Mesmo que houvesse alguma base verídica para tal alegação, a região não investe na oferta de cursos destinados á formação de intérpretes, professores e outros profissionais ligados ao universo da surdez. Não menos alarmante que essa falta de acessibilidade gritante é a ausência de conhecimento em relação a essa parcela da sociedade, o que acaba por contribuir para a disseminação deste cenário.

Quando se aborda a temática da acessibilidade como um todo, é recorrente a surdez ou ser ignorada ou relegada a segundo plano: entre discussões sobre rampas de acesso, banheiros adaptados, inscrições em braile, fontes textuais ampliadas para baixa visão, audiolivros, a acessibilidade para surdos resume-se a Libras, e mesmo assim, quase não há material ou recurso. Ignora-se que a surdez não é uma deficiência homogênea, mas heterogênea, carece, portanto, de necessidades diferentes. Pode ser invisível, mas assim como qualquer outra deficiência, subentende-se que existe uma limitação, existe um déficit na fisiologia do portador que nem mesmo prótese ou implante auditivo suprem de forma plena. Alegar que o surdo, por usar aparelhos auditivos ou implante coclear deixa de ser surdo equivale a dizer que um cadeirante deixou de ser deficiente por estar apto para circular sobre rodas. A tecnologia é um excelente apoio, mas não supre a existência da deficiência.

Respeitando a individualidade de cada caso, pode-se dizer que existem dois grandes grupos dentro do universo da surdez: dos sinalizados (que utilizam a língua de sinais) e oralizados (que fazem uso de uma língua oral). Há diversos fatores envolvidos na escolha da modalidade linguística, assim como há muitos indivíduos que utilizam ambas as modalidades (bilíngues). Para o primeiro, a Libras é o recurso acessível por excelência, seguido por legendas, audiodescrição, ilustração gráfica, sinais luminosos, enquanto para o segundo grupo, além de legendas, audiodescrição, e sinais luminosos, há recursos como o aro magnético, intérprete oralista ou repetidor, alertas sonoros, etc. Diante dessa pluralidade, ofertar Libras como único recurso de acessibilidade, por exemplo, a um surdo oralizado, é literalmente tocar alaúde para uma vaca, se ele não tem domínio, onde isso se preza a ser acessível?

A causa primária de toda a problemática relativa aos recursos de acessibilidade para surdos/deficientes auditivos reside, ironicamente, na falta de informação (em uma época onde esta se encontra mais acessível que nunca). Buscando reverter essa realidade, muitos surdos/deficientes auditivos, familiares e profissionais da área se valeram do alcance ilimitado da internet para informar, conscientizar, esclarecer e sobretudo inspirar pessoas com vistas a uma acessibilidade e inclusão justas.

As iniciativas vão desde lançamento de livros, blogs, artigos, eventos, sites, palestras, manifestos pessoais até comunidades em redes sociais: - Desculpe, não ouvi, Lak Lobato - blog e posteriormente livro de mesmo nome, com experiências pessoais da autora diante das descobertas sonoras propiciadas pelo Implante Coclear, entrevistas, matérias de cunho informativo, cada texto escrito com muita leveza e bom humor. - Crônicas da Surdez, Paula Pfeifer - blog e livros também com textos inspiradores sobre suas experiências sonoras, e um forte apelo pela valorização dos AASI's e IC's como objetos estéticos, com dicas de decoração, modelos, cores, tecnologias. - Surdez silêncio em voo de borboleta, Patrícia R. Witt - blog e livro sobre a vida da autora, surda oralizada e usuária de Libras. - As 1001 Nuccias, Nuccia de Cicco - blog e livro, o primeiro é voltado para diversos assuntos do universo da autora, que vai desde contos a séries televisivas.

O livro relata as experiências desta após o diagnóstico de surdez total. - Implante Coclear/ Usuários de Implante Coclear - grupos do Facebook voltado para usuários da tecnologia e familiares, para troca de experiências, relatos e vivências. - Whatsapp - existem inúmeros grupos no aplicativo, para conversas com surdos, familiares, e outros interessados, com temas diversos relativos a surdez, como Libras, oralização, Aparelhos Auditivos, Implante Coclear, suporte jurídico, inclusão na escola, etc.

O caminho é logo, mas muito já foi percorrido. A informação é a chave para que continuemos avançando nessa jornada. A qualidade de vida não é um privilégio para poucos, mas um direito de todos nós, então nos cabe também o dever de cobrar e zelar pela manutenção desta.