04 de abril de 2026
Articulistas

Analfabetismo emocional

Vladmir Stancati
| Tempo de leitura: 2 min

A inteligência emocional, conceituada por Daniel Goleman em seu livro de mesmo nome, é a capacidade de reconhecer nossos próprios sentimentos e os das pessoas com as quais nos relacionamos, a fim de melhor gerenciar nossas próprias emoções e aquelas que envolvem as nossas relações. Já o analfabetismo emocional revela a completa incapacidade da pessoa de lidar com as próprias emoções e com as dos outros.

Esse tipo de deficiência, dentro das empresas, é capaz de provocar estragos muito grandes. Ainda outro dia, conversando com uma amiga consultora que faz trabalhos de coaching, a mesma comentou que orienta um de seus clientes a buscar uma aproximação pessoal maior com a sua equipe. Ela o desafiou a perguntar a respeito do estado de saúde de uma colaboradora chave da equipe, a qual estava grávida, ao que ele recrutou: "o que a gravidez dela tem a ver com o nosso negócio?".

Este profissional simplesmente não consegue exercitar a empatia, colocar-se no lugar do outro. Enxergar que quem de fato obtém os resultados, são as pessoas, e que elas precisam estar bem, física e psicologicamente, para poder desempenhar suas atividades com excelência. São incapazes de admitir que a pessoa seja uma só, e que não se consegue dissociar os impactos da vida pessoal na profissional, e vice-versa. As pessoas que não conseguem demonstrar interesse genuíno no outro são considerados analfabetos emocionais.

O clima interno gerado por eles é muito ruim, invariavelmente, e trabalhar sob seu comando pode assemelhar-se a carregar um verdadeiro fardo, gerando a síndrome do domingo à noite, quando a pessoa começa a sentir calafrios ao lembrar-se de que, no dia seguinte, começará seu martírio. Aliás, a própria palavra trabalho tem origem no vocábulo latino "tripaliu", o qual denominava um instrumento de tortura, e para esse tipo de gestor, essa origem ainda faz sentido.

A boa notícia é saber que, em pleno século XXI, não precisa e não deve ser assim. Os analfabetos emocionais precisam de muito feedback, coaching e, muitas vezes, de tratamento terapêutico. Suas equipes, gestores e pares precisam mostrar a eles que o impacto de sua realidade monocromática, que enxerga apenas o resultado final em curto prazo, mas não consegue vislumbrar a continuidade desses mesmos resultados, pelo simples fato de encararem as equipes como meros instrumentos.

O autor é engenheiro mecânico formado pela FEI, especializado em Gestão de Qualidade e Controle Estatístico de Processos pela Politécnica da USP, pós-graduado em Gestão de Pessoas pela FGV, onde é professor.