09 de julho de 2026
Articulistas

A verdadeira adoção

Valderez de Mello
| Tempo de leitura: 2 min

Adotar significa acolher com amor. A adoção é o abraço que ficou sem acontecer, o carinho não recebido, o amparo nunca experimentado. A verdadeira adoção tem início quando aceitamos o outro com seus defeitos e mazelas, suas qualidades e agruras. Adotar é curar as feridas da alma, é cerzir com fios de esperanças os rasgos e roturas do coração, é suturar abandonos e tristezas da alma.

Quando a adoção acontece faz renascer o ser em estado de solidão, carente de cuidados físicos, emocionais e morais, enfim, ressuscita a esperança e a fé no coração em estado de agonia. A adoção não carece apenas de leis e sentenças judiciais, mas, e principalmente, urge ser reconhecida como ato de solidariedade e amor ao próximo, pois enquanto o adotante não oferecer a certeza da responsabilidade a ser assumida perante o adotado, de nada valerá a norma cogente.

O ato da adoção deve nascer primeiro no coração, envolvido no amor, sem cobranças e sem grandes expectativas. Tampouco a adoção deve vir camuflada ou travestida de ato de caridade a ser exibido à sociedade, a fim de angariar fundos para o ego do adotante. Adotar deve ser ato personalíssimo, responsável, revestido de altruísmo e tolerância, principalmente quando se tratar de crianças em estado de abandono. Adotar é reconhecer como seu o que estava perdido, é resgatar um coração à deriva. A verdadeira adoção é o abraço fraterno oferecido carinhosamente a quem, sem esperanças, em nada mais crê.

Portanto, o ato de reconhecer como parte da vida um coração peregrino, desconhecido, triste e na maioria das vezes revoltado com a ingratidão é tarefa deveras difícil e exige do adotante a passividade dos emocionalmente equilibrados, muito amor e desmedida pertinácia. A adoção é fácil para poucos, difícil para muitos e impossível para a maioria. O verdadeiro adotante há que deixar transparecer devotamento e perseverança, tal qual o agricultor ao semear no solo árido uma nova semente: se não cuidar não vai germinar e se abrolhar carece de continuidade para que floresça e frutifique.

A diferença é que na adoção recebe-se a planta germinada, sem saber que fruto irá produzir, cabendo ao adotante cuidar, zelar e aguardar o resultado, que muitas vezes pode não vir a ser o almejado. A verdadeira adoção deve brotar do amor e caminhar pelas alamedas do coração e ao adotante cabe alfabetizar a alma do adotado num processo carinhoso, paciencioso e continuado. À lei restará garantir a consistência dos alicerces da burocracia, que proferimos como indispensáveis!

A autora é escritora, poetisa, advogada, pedagoga e psicopedagoga.