10 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Palavra ocu(l)pada, de Renato Bueno

José Carlos Brandão - professor, poeta, secretário geral da ABLetras
| Tempo de leitura: 2 min

Renato Bueno, ou RapNobre, um dos organizadores do Sarau do Viaduto, em breve vai lançar um livro de poesia, Palavra OcuLpada. Ele me mostrou o pdf do livro, já diagramado, perguntando se essa poesia me interessa ou ao menos incomoda. Aqui, algumas palavras - apesar de apressadas - que lhe dediquei:

"Li e vou reler.

Me interessa e incomoda - incomoda porque a vida incomoda, a política incomoda, o amor incomoda e, enfim, a poesia incomoda.

Me lembrei primeiro de Oswald de Andrade: "Aprendi com meu filho de dez anos Que a poesia é a descoberta

Das coisas que eu nunca vi"

Não sei se antes estava me lembrando da poesia que se faz hoje pelos jovens. Certas técnicas, certos macetes, certos trejeitos, certa aparente falta de técnica, macetes e trejeitos.

Então me lembrei de Paulo Leminski - o tom brincalhão, a reflexão séria e debochada ao mesmo tempo, até certo tom zen (eu que não gosto desse negócio de zen - então vamos chamar aqui de estalo poético). "O céu ficou nu de sol / depois ficou nublado / vestiu-se de chuva / e ao meio-dia / caiu aos meus pés". É isto - e muito mais - que eu chamo de Paulo Leminski. O cara que disse: "Esta noite vai ter sol".

Por fim mas nem tanto me lembrei de um tal de Renato Bueno - é bem a sua cara essa poesia. Poesia maiúscula, diria, mas a poesia não gosta de ser chamada assim. Você é o cara que diz Não sei - e isso é coisa de poeta. Poeta consciente. Wislawa Szymborska no discurso agradecendo o Prêmio Nobel disse que poeta é quem diz Não sei. Então ele pode descobrir.

Olha o que eu disse no começo, do Oswald de Andrade e a lição do filho: poesia é a descoberta das coisas que nunca vi. Quem sabe tudo não pode descobrir.

Mas cadê a Revolta? Gosto daquele poema. Talvez melhor para ser falado que escrito, mas era preciso dar um jeito. Rê, volta!

Parabéns, poeta! Aquele abraço.