09 de julho de 2026
Articulistas

Da turma dos intensos

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Gostava de receber amigos para uma sinuca na intimidade de sua fazenda no Colorado. Chapéu na cabeça, calça quadriculada, barba por fazer e os poucos cabelos desgrenhados. Lá também curtia andar pelas áreas montanhosas e cultivar uma ou outra pequena plantação. Contato com a terra, mas sem perder o céu. Um de seus encantamentos era olhar para o dia claro. Vislumbrava a imensidão azul e dizia à esposa de três décadas: "Como isso é bonito!".

A voz pausada, quase arrastada, e os hábitos simples no campo poderiam indicar que aquele ali era um homem calmo. Calma. Estou falando de Joe Cocker. O próprio. Que, mais perto do fim da vida, alternava essa rotina boa e pacata com turnês explosivas.

A vida desse cantor absoluto é contada no documentário "Joe Cocker: Mad Dog with Soul", disponível no Netflix. Definitivamente, Joe fazia parte da turma dos intensos. Desses que mergulham no que fazem sem se importar se vai dar pé. Mas mergulham tanto para elevar almas terceiras que, fora de seus ofícios, só querem mesmo é descansar. E, no caso de Joe, beber. E fumar. E outras coisas e tais.

Vícios que, na verdade, também o acompanhavam nos shows e que deixaram uma conta alta. A mulher dele, Pam, conta que, quando teve diagnóstico de câncer do pulmão, não esboçou uma reação inconformada do tipo "mas por que comigo?". Segundo ela, foi mais para "bem, depois de tudo o que fiz, é apenas o esperado".

Um outro entrevistado lembra que, só pelo que fez em Woodstock, em 1969, com uma das mais vigorosas performances da história da música em "With a Little Help From My Friends", Joe já mereceria estar em qualquer calçada da fama. O artista complexo e o homem sereno conviviam no mesmo espírito, na mesma carcaça.

O corpo e a presença se foram em 2014, quando ele tinha 70 anos, mas a verdade desse inimitável intérprete segue intacta a cortar o tempo. A arrombar o silêncio como fazia com seu vozeirão afiado. Os intensos são assim: intermináveis.

O autor é editor executivo do JC.