09 de julho de 2026
Geral

Um bauruense na 'linha de frente'

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 3 min

Fotos: Inês Ferreira/Sindcop                                                                       
Gilson Pimentel Barreto (nono da esq. para a dir.) à frente de manifestantes, em Brasília, nos atos ocorridos dia 24: “Chegamos e o povo não era bem-vindo num local chamado de casa do povo”

"Foi um cenário de guerra". É assim que Gilson Pimentel Barreto descreve as imagens que percorreram o Brasil e o mundo no último dia 24 - e que ele viu de perto. Presidente do Sindicato dos Servidores Públicos do Sistema Penitenciário Paulista (Sindcop), Barreto esteve na linha de frente do confronto resultante do protesto de que Brasília foi palco nesta semana.

Só a entidade levou cinco ônibus com cerca de 180 agentes penitenciários para a mobilização contra o presidente Michel Temer e as reformas da Previdência e trabalhista e pela convocação de eleições diretas. Entre eles, estavam muitos bauruenses. Ônibus de outras sindicais também saíram da cidade rumo à capital federal.

Foram cerca de oito horas de viagem. Barreto conta que os agentes chegaram à Brasília por volta das 3h. Quando a manifestação teve início, marcharam por cerca de quatro quilômetros em direção ao Congresso Nacional e o Palácio do Planalto.

Aceituno Jr
Gilson Barreto, nesse sábado (27), em entrevista no JC: “Fomos aplaudidos”

"Quando chegamos, havia uma barreira de homens armados e cercas de contenção. Estava tudo sitiado. O povo não era bem-vindo em um local que é chamado de casa do povo", pondera. Antes mesmo da transformação do ato pacífico em violento, líderes de centrais sindicais em carros de som pediram para que os agentes - eram cerca de 800 vindos de toda parte do País - assim como policiais civis, tomassem a frente da marcha.

Para Barreto, este pedido foi uma forma de reconhecimento. Ele teria ocorrido porque, no dia 3 de maio, os agentes do Sindcop haviam invadido a Câmara dos Deputados, durante sessão da Comissão da Reforma da Previdência, que acabou sendo encerrada às pressas. "Este chamado foi uma surpresa. Fomos aplaudidos por todos que estavam ali. Acredito que acabamos nos tornando uma referência, um símbolo de resistência, por ter tido a coragem de ocupar a Câmara naquele dia e protestar", avalia.

FERIDOS

Inês Ferreira/Sindcop
manifestantes, em Brasília, nos atos ocorridos dia 24

Com o início do confronto, agentes sofreram ferimentos leves ou escoriações. Barreto ainda carrega uma marca de bala de borracha no braço direito. Outro servidor torceu o pé, que precisou ser imobilizado.

Segundo o presidente do Sindcop, no gramado do Congresso Nacional e do Palácio do Planalto, era possível ver dezenas de pessoas passando mal devido à inalação de spray de pimenta. Como era uma área aberta, ele conta, os manifestantes tiveram dificuldades para se proteger e usaram as próprias camisetas ou bandeiras para minimizar os efeitos do gás e das bombas de gás lacrimogêneo. "A presidência usou Cavalaria, Força Nacional, Tropa de Choque, drones, helicópteros soltando bombas de gás, atiradores de elite no topo dos prédios. Ou seja, todo um aparato de guerra para lidar com uma manifestação popular", reclama.

Os manifestantes responderam jogando pedras e paus. Parte de um dos ministérios foi incendiada e outros tiveram as fachadas depredadas. Foram mais de duas horas de confronto. "Houve resistência, porque tentaram impedir que a marcha avançasse para um local que é público. O povo não vai aceitar perder direitos calado, de cabeça baixa. Diante de tanta opressão, acredito que estas mobilizações estão só começando", frisa. O Sindcop informa que irá denunciar os acontecimentos de 24 de maio à Organização das Nações Unidas (ONU) e avaliar as medidas judiciais cabíveis contra o governo federal.

Novo ato

Segundo Gilson Pimentel Barreto, as centrais sindicais já começam a planejar uma nova greve-geral, em que um novo protesto será realizado com a participação de entidades de todo o País. Enquanto a data não é divulgada, o Sindcop pretende convocar um ato unificado com outras entidades sindicais em Bauru no próximo sábado. A data, horário e local, contudo, ainda não foram confirmados.

Maior sindicato de servidores penitenciários do País, com cerca de 10 mil filiados, o Sindcop reivindica, para a categoria, a inclusão destes profissionais em uma categoria de aposentadoria especial. "Nossa atividade é de risco, periculosidade. Outras carreiras com o mesmo perfil foram contempladas pela Reforma da Previdência e nós, não", critica.