Quase 60 anos separam Jéthero Faria Cardoso e Clara de Souza Pardo Tambara Marques, mas eles têm em comum a uma generosidade que se traduz em doação do que você tem de mais importante: seu próprio corpo, um pedaço real e palpável de si mesmo.
Todo mundo sabe que a doação de órgãos pode salvar muitas vidas, mas pouca gente se conscientiza disso a ponto de se engajar em uma campanha. Quem o faz, tem uma motivação tão grande a ponto de emocionar. Conheça um pouco de quem fala de boca cheia "eu me doo" e não se arrepende.
| Samantha Ciuffa |
| Clara de Souza Pardo Tâmbara Marques mostra no celular da mãe a foto do dia em que seus cabelos foram doados para crianças com câncer |
| Douglas Reis |
| Tamiris Cristina Silva Lucena amamenta a filhinha Lorena e ainda sobra leite para a doação |
Sangue nunca é de menos
| Assessoria Famesp/Divulgação |
| Robson Cassiano de Souza é doador de sangue |
Na última quinta-feira, três homens de Bauru estiveram cedinho no Hemonúcleo para doar sangue. O Hemonúcleo integra o Hospital de Base de Bauru e atende hospitais e santas casas de oito municípios da região de Bauru, disponibilizando hemocomponentes (que são as partes do sangue separadas em plasma, plaquetas e hemácias, por exemplo). Para quem é leigo, para entender melhor basta lembrar que hemácias são os famosos glóbulos vermelhos, que fazem falta aos portadores de anemia, especialmente anemia severa, que exige até transfusão. Robson Cassiano de Souza e Valdeci de Souza são doadores de sangue e Edilson Rodrigues da Silva vai um pouco além: é também doador de medula óssea.
A presença deles é sempre bem-vinda. Isso porque no caso de sangue, a doação nunca é de menos. Não são raras as campanhas emergenciais via jornais e rádios pedindo que as pessoas doem. O que tem funcionado bastante também é o acionamento da chamada "rede social de solidariedade", quando um paciente é beneficiado com o estoque, faz o chamamento, através das redes sociais, para que amigos reponham o estoque utilizado.
SERVIÇO
Para doar sangue, para agendamentos ou tira-dúvidas ligue (14) 3234-4412 e 3104-3518. Endereço: Rua Monsenhor Claro, 8-88 Centro, em Bauru.
| Assessoria Famesp/Divulgação |
| Valdeci de Souza doa sangue sempre que pode |
Amamentar (e doar) é tudo de bom
A analista de TI (tecnologia da informação) Tamiris Cristina Silva Lucena, aos 28 anos, é mãe de primeira viagem, da filhinha Lorena, que tem apenas três meses de vida. E já sabe direitinho o que precisa fazer para ser uma boa doadora de leite materno, além de defender a amamentação da filha. "Eu sempre gostei dessa possibilidade, acho muito importante e, quando vi que conseguia amamentar minha filha, ela fica satisfeita e tinha mais leite ainda, não vacilei: entrei em contato com o banco de leite e hoje chego a doar mais de dois litros por semana. Quero amamentar a Lorena até quando der e continuar doando até quando eu tiver leite. Peguei o embalo da coisa", conta.
Ela segue à risca as condições de higiene, guarda na geladeira os potes e a equipe do Banco de Leite Materno de Bauru faz a retirada toda semana. O estoque vai para filhinhos de outras mães que não conseguem amamentar e precisam do leite materno.
A nutricionista Maria Nereira Panichi, coordenadora do Banco de Leite Humano de Bauru, não se cansa de ir aos quatro cantos da cidade para falar com as pessoas sobre a importância do aleitamento materno para o recém-nascido
"Muita gente acha que é preciso complementar, que a criança chora porque não está bem alimentada, que o leite é fraco, mas isso é um mito", disse ela a um grupo de estudantes dos cursos técnicos de massoterapia e auxilar de enfermagem do Senac-Bauru, no último dia 19, Dia Nacional de Doação de Leite Humano, quando os alunos ficaram sabendo que o programa instituído no Brasil, a partir de pesquisas da Fundação Fiocruz e implantado pelo Ministério da Saúde é referência internacional.
Isso porque a coleta obedece a normas técnicas de higiene e o leite passa por um processo de pasteurização e análise para detectar se há alguma contaminação. Com isso, várias doenças são evitadas. As mães recebem toda a orientação para fazerem a coleta correta. Para doar basta estar com a saúde em dia, não ter vícios e não tomar nenhum tipo de medicação.
Serviço
O Banco de Leite Humano fica na Praça das Cerejeiras, 1-40. O atendimento é das 7h às 19h, de segunda à sexta-feira. O telefone de contato é o 3226-3227.
Motivações diferentes, atitudes iguais
| Fotos: Malavolta Jr |
| Jéthero Cardoso: doação expressa para hospitais públicos |
| Karina Zanini: a perda de um amor a motivou |
Se a rede de solidariedade na transfusão de sangue e no aleitamento materno funciona bem e, mesmo assim, ainda é insuficiente, o que dizer da doação de órgãos como coração e córneas, cujo transplante depende da morte do doador e da autorização familiar? Ainda há muitos mitos e tabus e muita gente se recusa a autorizar a doação. Segundo a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos, em 2016 houve leve redução na recusa familiar no País, porém o índice ainda é alto.
Hoje, 43% das famílias brasileiras entrevistadas não autorizam a doação dos órgãos. Índice em 2015: 44%. Choca quando se sabe que 70% dos pacientes morrerão na fila do transplante. E dos 30% nem todos serão bem-sucedidos.
Para Karina Zanini, veterinária, a perda do amor de sua vida, ocorrida há cinco anos, que tinha hepatite e precisava de um fígado foi muito traumática. “Éramos amigos, tínhamos uma amizade colorida, a doença dele acabou nos unindo mais e ficamos junto até o fim. Um amor igual a esse não vai existir tão fácil. Pulamos, fizemos festa quando ligaram que o órgão compatível chegou. Ele acreditava demais na vida, era focado, se cuidava, fazia tudo certinho do jeito que os médicos prescreviam e, mesmo assim, não deu certo, não resistiu, na verdade chegou tarde demais”. Por isso, hoje ela própria é doadora de órgãos, avisa todo mundo, é defensora da postura.
Quem também é a favor é o jornalista Jéthero Faria Cardoso. E o faz por pura generosidade, não tem nenhuma história para contar. Aos 66 anos, faz questão de andar com uma carteirinha que ele próprio confeccionou no bolso, onde informa sua pretensão de que seus órgãos sejam aproveitados após a morte. “E fiz isso há 20 anos”. Jéthero faz uma única ressalva: só autoriza a doação de seus órgãos para entidades públicas. “Lá estão as pessoas que realmente precisam e não podem pagar um atendimento médico”.
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'Os cabelos crescem'
Cláudia de Souza Pardo Tâmbara Marques rememora, emocionada, o dia em que a filha Clara resolveu cortar seu cabelo e doar para confecção de perucas para crianças em tratamento de câncer. "Foi assim, do nada, não havia campanha na escola, nada disso. Um dia ela acordou e disse que queria cortar o cabelo. Esperei para ter certeza, Clara queria mesmo, e veio com um argumento imbatível: os cabelos crescem sempre".
O corte foi feito no próprio salão que elas frequentavam que, por sorte, já estava engajado na campanha feita pela Entidade de Assistência Social Anna Marcelina de Carvalho, vinculada ao Hospital Amaral Carvalho (HAC), de Jaú. A entidade coleta doação de cabelos para confecção de perucas para pacientes com calvície, provocada pela quimioterapia.
As mechas devem ter, no mínimo, 15 centímetros de comprimento e podem conter química. Prestes a completar nove anos no próximo dia 03, Clarinha não se arrependeu do que fez. E tanto o cabelo cresce que já cortou mais uma vez e está superfeliz com a atitude. Aliás, ela é o espelho para a irmã mais nova Luiza de quatro anos e, vive doando brinquedos, roupas para quem precisa. A generosidade está no sangue.
SERVIÇO
Entidade de Assistência Social Anna Marcelina de Carvalho, rua Paulino Maciel, 285 - Jaú, SP. CEP: 17.210-090. Fone (14) 3621-3064.
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