Sempre leio a "Entrevista da Semana" pelo prazer de ver as histórias de vida, de pessoas, suas lutas, conquistas, alegrias e dissabores. É emocionante a dinâmica da vida, as histórias que ela constrói, as ligações com o passado.
Particularmente, a entrevista com dona Thereza Maria Oliveira Martins me encantou e despertou lembranças, quando ela se referiu à cidade em que nasceu: Promissão. Na minha infância, lembro das viagens de trem para visitar a família de meu pai, Jefferson Pereira Ramos. Éramos despertados pela manhã. O céu ainda escuro. Em silêncio, rumávamos para a estação de trem. Eu já sabia... íamos para Promissão. Que alegria!
A viagem era longa. Nas estações, o povo esperava o trem em clima de festa, na plataforma os adeus das partidas, os abraços das chegadas. Era um rebuliço geral. Com gritos, os ambulantes anunciando seus produtos e, em alguns minutos, o apito do trem que partia e silenciava tudo.
Chegávamos na hora do almoço. Os parentes lá estavam, na estação, para nos receber. Festa...
Um almoço esperava por nós. Era o momento de encontro com os primos... A família numerosa espalhava-se pela casa do meu avô. Quando havia muita gente, os adultos ficavam na sala de jantar e as crianças em outra mesa, na cozinha. Território livre. Fofocávamos sobre os adultos, o que estavam fazendo, decidindo e preparando para nós, crianças.
O mundo era dos adultos. Eles mandavam e a gente obedecia, sonhando com o momento de ser adulto também. Mais tarde, Promissão foi o refúgio das férias escolares. Mal terminavam as aulas do semestre e eu corria para ver se pegava a grande festa junina de São Pedro, no casarão da família Andrade, com seu imenso quintal. Boa parte da cidade comparecia.
Matinê com os primos no cinema local, o primeiro baile, o primeiro namorado... Tudo acontecia em Promissão. As histórias, os "causos" que me contavam na infância me levaram a imaginar a aventura da família indo para aquelas bandas.
Contavam que meu avô, Olívio Pereira Ramos, comerciante de origem portuguesa, casado com dona Ávila Falleiros Ramos, saiu da cidade de Franca numa comitiva de carros de boi acompanhado pela parentela toda: agregados, afilhados e suas mães viúvas, em direção ao Oeste... Passaram por Bauru no início do século 20 e se embrenharam pelo sertão. Promissão!
Lá, ele se estabeleceu no povoado com um pequeno comércio e possuía a fazenda dos Patos, onde a atividade principal era fornecer lenha para as caldeiras do trem que abria caminho para o Mato Grosso. A ligação com o mundo dava-se através do jornal "O Estado de São Paulo", que chegava no trem da Noroeste. Meu avô era leitor assíduo e, dizem, o jornal auxiliou até na alfabetização das crianças.
A minha imaginação fervilha quando lembra dos filminhos da matinê: "Conquista do Oeste" foi perfeito... . Sonhei pesquisar e escrever um dia sobre esta aventura. Ficou só na intenção...
Talvez tenham faltado os ingredientes essenciais: tempo, determinação e competência.
Hoje, as lembranças afloraram.
Promissão... tudo de bom...
Promissão... quanta saudade!