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| Pessoas que transformaram sua casa em cozinha de negócios, Aliane Lara , é confeiteira artesanal |
Quem é que não sonha em ter seu negócio, para fazer seu horário e também ser seu próprio chefe? Mas, atualmente, não se trata apenas do sonho e, sim, da realidade de muitos. Para driblar o desemprego e instigadas pela necessidade de angariar uma renda extra, centenas, talvez milhares, de famílias em Bauru têm transformado a própria casa, na maioria das vezes a cozinha, em um pequeno negócio informal, alternativo.
São informais, em sua maioria, porque não estão sob o guarda-chuva de uma pessoa jurídica. E, muitas vezes, nem visíveis são, ou seja, não há placas nas fachadas das casas e nem mesmo outra forma de identificação da "empresa". Contudo, trata-se de uma faceta que a economia não pode deixar de lado (confira, na página ao lado, dicas para quem quer empreender em casa).
PAIXÃO
Aliane Lara, 36 anos, é um exemplo dessa realidade. Formada em fisioterapia, mas apaixonada por confeitaria desde a infância, ela resolveu dar um novo rumo à sua vida.
A ideia era ganhar mais proximidade com os dois filhos adotivos. Das visitas a domicílio com sessões de fisioterapia, ela partiu para a cozinha da própria casa, produzindo bolos e doces diversos para festas. As encomendas ocorrerem por telefone e pelas redes sociais.
Mas, engana-se quem pensa que o trabalho diminuiu. Pelo contrário. Ela tem produzido, de segunda a segunda, uma média de dez bolos, e ainda se reveza nas atividades do lar. "Não tem hora! Cozinho manhã, tarde e noite, mas faço o que gosto", comenta. "Quando eles (filhos) crescerem, penso em me formalizar e até fazer uma faculdade de gastronomia. Sempre é tempo de apreender", ressalta.
Tanta vontade em crescer não é sem motivo. Ela conta que tem obtido uma renda média de R$ 5 mil com a atividade. "Ganho muito mais do que quanto atuava de fisioterapeuta", reforça.
NECESSIDADE
Assim como ela, Margarida Gomes, 40 anos, formada em jornalismo e direito, driblou o desemprego e largou a busca por vagas nas áreas de formação para investir na culinária caseira. O pontapé para a transformação surgiu há pouco mais de um ano, após a descoberta do diabetes e da necessidade em se alimentar melhor. "O mercado está complicado para essas duas profissões. Em contrapartida, o ramo da alimentação saudável só cresce. Como eu tive que aprender a cozinhar massas integrais pra mim, acabei me aprimorando, e daí pensei: 'por que não começar a vender?'", lembra.
Hoje, ela faz entregas de marmitas "fit" e saladas e ainda aceita encomendas, por telefone e online, para tortas e panquecas de massa integral. Com uma renda média de R$ 1,2 mil, Margarida já pensa em se formalizar na área para poder investir em sua cozinha e aumentar a produção.
Com história parecida, a jornalista freelancer Ana Maria Ferreira, de 54 anos, também resolveu apostar em suas habilidades como cozinheira para obter renda extra. Há um ano, ela passou a aceitar encomendas de pães, bolachas e bolos caseiros. "Eu cozinhava apenas para minha família, mas, um dia, minhas vizinhas pediram. Depois, passei a vender para os amigos e a coisa foi crescendo".
De Microempreendedor Individual (MEI) na área de jornalismo, Ana já pensa em se formalizar no ramo de alimentos. "Com isso, eu conseguiria acesso a uma linha de crédito para comprar um forno industrial e aumentar a produção", projeta.
EM FAMÍLIA
Bolachinhas de canela, da vovó, sequilhos e beliscão. Várias são as receitas que Marinete Oliveira Abreu, de 62 anos, aprendeu com sua mãe, já falecida. Com a aposentadoria do marido, o engenheiro civil Vicente Abreu, de 63 anos, a família de Piratininga, que já recebia encomendas, aumentou ainda mais a produção.
Hoje, ela e a irmã, Maria Helena, cuidam da cozinha, enquanto Vicente lida com as encomendas e vendas. "Temos muita freguesia em Bauru. Também vendemos em feirinhas", comenta Vicente.
Com produção de terça a sábado, o trio consegue angariar renda de mais de R$ 1,2 mil por mês. "Até gostaríamos de nos formalizar, mas isso envolveria uma série de custos e acho que atrapalharia o negócio", opina Vicente.
FORMALIZOU
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| Aptidão antiga virou negócio: Camila se reveza entre os cuidados do lar e a produção caseira de bolos e pão de mel; na foto, ela com a filha Luísa Santinoni |
Diferentemente dos demais entrevistados, Camila Borges Santinoni, de 41 anos, resolveu dar um passo além: transformou o que era mero improviso em sua cozinha em uma atividade formal. Hoje, microempresária individual, ela possui uma média de lucro de R$ 1,5 mil ao mês, desfrutando de direitos como aposentadoria e também respaldo em casos de acidente de trabalho e doença.
Tradutora formada, Camila conta que trabalhou por muitos anos como professora de inglês. Mas, após engravidar do primeiro filho, aos 35 anos, resolveu resgatar uma aptidão antiga e aprendida ainda na infância com a mãe: cozinhar, preferencialmente doces.
Com o passar dos anos, Camila se especializou em produzir pães de mel e, após vários elogios, resolveu empreender. Atualmente, ela se reveza entre as atividades rotineiras do lar e as entregas. "Enquanto os bolos assam, tiro uma roupa a máquina, faço algo pra filha. Não tenho horário certo para trabalhar, porque não costumo falar 'não' para os pedidos. Se precisar, trabalho de domingo", comenta Camila.
Somada à renda do marido, que é funcionário público, ela ajuda a manter a casa e os do
Sebes ratifica: alimentação lidera o mercado informal
A Secretaria do Bem-Estar Social de Bauru (Sebes), por meio de parceria com a Sedecon, realiza, anualmente, cursos de inclusão produtiva voltados à formação de pessoas de baixa renda que pretendem empreender.
As qualificações, que ocorrem por meio dos Centros de Referência da Assistência Social nos bairros (Cras), englobam manicure, cabeleireiro, informática, cuidador de idosos e produção de massas caseiras para bolos e salgados. 1.100 vagas são ofertadas anualmente. "Deste total, 70% dos formados permanecem no mercado informal, a maioria no ramo de alimentação. Em segundo, aparece artesanato e costura e, depois, beleza e estética. Os formados em cursos de serviços gerais, como limpeza e eletricista, são os que mais se formalizam", observa Ana Sales, diretora do Departamento de Proteção Social Básica da Sebes.
FISCALIZAÇÃO
Não há fiscalização no município que recaia sobre a atividade de venda informal de produtos ou serviços realizados no interior dos lares. "Não podemos chegar na casa da pessoa para fiscalizar algo. A não ser que a venda seja realizada em locais públicos como ruas e praças", comenta Aline Fogolin, secretária do Desenvolvimento.
Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde, responsável pela Vigilância Sanitária, informou que a atividade de comércio de alimentos está contemplada nas legislações sanitárias vigentes. "Em caso de denúncia que relate risco à população, a Vigilância Sanitária poderá ser acionada e, dependendo do laudo da vistoria, várias medidas poderão ser tomadas. Essas medidas vão desde uma notificação até multa ou interdição da atividade em questão", informa a pasta.