Na Idade Média eram comuns as Rodas do Abandono, cilindros giratórios construídos em muros de igrejas, casas de caridade, onde recém-nascidos eram colocados na calada da noite e através de um simples girar da roda validava-se o abandono.
Portanto, o crime de abandono infantil é fato histórico que demonstra a irresponsabilidade do ser humano, talvez o único animal que delega a obrigação de criar o filhote a terceiros, além do chupim, pássaro conhecido pelo habito de colocar seus ovos no ninho de outras aves, para que possam chocá-los, criá-los e alimentá-los.
A Roda do Abandono ainda existe e com força total, pois a entrega dos bebês continua através dos portais das instituições públicas e privadas, retratando a maior falha educacional de todos os tempos: a privação de mãe. Ao oferecer a criança mal saída do útero materno, carente de cuidados especiais, para os cuidados de uma instituição privando-a dos laços de afetividade e elos de amor eterno, declarada está a negação do direito de estar com a mãe. Ao ser bloqueado o acesso ao colo, carinho e coração maternos, quebra-se o vínculo de segurança e tranquilidade que embala o desenvolvimento emocional. Logo, inexistindo os laços de ternura, os grandes nutrientes da alma, certamente um craquilar silencioso e contínuo abaterá o coração ainda em formação.
Ao ser regularizado o sistema de vagas em instituições para crianças a partir de quatro meses de vida, explícita está a falha quanto à formação da alma do homem. Em pleno século vinte e um, podemos afirmar que a Roda do Abandono ainda existe e certamente é por ela que a semente da violência se aninha no coração da infância.
O sistema educacional baseado em ideologias políticas, privilegia o adulto e sacrifica a infância quando passa a ignorar a importância dos primeiros mil dias de amor. Mil dias de calor humano, convivência, doação e afetividade, enfim, mil dias de educação de berço! A diferença entre a Roda do Abandono da idade média e o descarte diário de bebês em inúmeros portais hoje, é que pernoitam em casa, por enquanto. Urge repensar e avaliar as consequências: crianças deprimidas, desequilibradas emocionalmente, inseguras, alienadas, depressivas, violentas e na mais completa solidão entre muitos. Urge conscientizar todas as mulheres quanto ao importantíssimo papel da maternidade na formação do homem.
A privação de mãe não pode ser fato moldado em modernismos pífios e modismos efêmeros. Ponto de honra para o resgate da educação é rever a questão sobre a nefasta terceirização da educação familiar e salientar a importância do lar como base de sustentação na formação do ser humano. Não basta gerar, imperativo é cuidar, amar, embalar, ou seja, preservar principalmente os primeiros mil dias de amor!