08 de julho de 2026
Articulistas

Cracolândia

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Sob as marquises, misturados aos escombros de prédios carcomidos, perambulando por entre barracas coloridas, moços, moças, algumas grávidas, outros mais velhos, até crianças, todos ali permanecem, dia-e-noite-noite-e-dia, sem banho e sem esperança. Seres humanos desumanizados. Sem nenhum destino, empurram o tempo baforando a pedra da zoeira. Conversam, transam, espalham lixo, mijam e defecam em qualquer lugar, publicamente. Estão sempre fugindo. Do policial que desce a borracha sem dó; do traficante da dívida atrasada; do repórter que quer a cara no jornal ; do teimoso da família com a ladainha de abandonar aquele lixão de gente. Sob o teto das barraquinhas coloridas, o barato da droga é livremente comercializado: dinheiro, cheque, cartão de débito, garrafa de vinho, relógio, uma rapidinha, celular ou qualquer coisa roubada minutos atrás.

De repente, a tropa de choque chega derrubando tudo, expulsando todos. Bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo, balas de borracha, cavalaria e pancadaria... Reação imediata: pedras, barras de ferro, pedaços de pau, disparo de armas de fogo, barricadas de pneus queimando, garrafas incendiárias... Gritos, correria, pânico, portas comerciais fechando-se, mercadorias saqueadas. Muita gente que não tinha nada com isso, passa a ter, entra na confusão, jeito esperto de lucrar algum.

Para a coordenadora do Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos do governo estadual, Daniela Skromov de Albuquergue, a operação foi um desastre. Não se varrem pessoas, medida covarde, higienista. A poucos metros dali, a Praça Princesa Isabel recebia novos inquilinos e ali se formava nova cracolândia. O piadista José Simão mandou aviso pro "riquinho" Dória. cracolandia é como espinha, "você aperta uma na bochecha e ela aparece na testa". Dou razão à Daniela, também a José Simão. Invasão policial nada resolve é trocar seis por meia dúzia.

Não é o que pensa, contudo, o Dr. Luiz Alberto C. de Oliveira, coordenador de políticas de drogas da Secretaria Estadual de Justiça e Cidadania. Para ele, não houve "higienismo". Seria impossível qualquer política social num lugar onde os agentes de saúde estavam sendo ameaçados por traficantes. Pensando bem, dou razão ao Dr. Chaves. Afinal se a polícia não entra, o tráfico continua e não se pode exigir dos agentes que corram risco de vida.

Dória cuidou logo de se mostrar preocupado com o lado humano da questão. Usuário de drogas é gente, precisa de acolhimento. Então anunciou, num lugar próximo, a instalação de contêineres com estrutura para chuveiros, sanitários, refeitórios e dormitórios. Dou razão ao prefeito. É preciso garantir um mínimo de dignidade a gente tão sofrida. Só que os moradores e comerciantes vizinhos não gostaram da ideia. Seria o inferno. "Os dependentes andam com faca, são capazes de qualquer coisa. A gente não mais poderia pôr o pé na calçada". Como não dar razão aos moradores? A prefeitura não tem o direito de complicar a vida dessa gente que, em tese, nada tem com isso. O secretário de justiça da prefeitura, Anderson Pomini, defendeu a internação compulsória dos craqueiros: "Incapazes de controlar a vontade, a cada tragada vidas são desperdiçadas". Tem razão o secretário. Sem medida radical, acabarão morrendo.

Só que o psicanalista Contardo Calligaris, que gosta de pensar mais fundo, colocou pimenta ardida no debate. Reconheceu que os dependentes não têm controle sobre suas vidas, mas indagou: "E nós (não craqueiros) temos? Controlamos a nossa vontade? Quando a gente questiona a autonomia do outro é sempre bom aproveitar para interrogar a nossa". Depois arremata: os craqueiros só nos causam tanto impacto porque são "o símbolo, fascinante e repugnante, da possibilidade de se fugir de todas as obrigações que constrangem a nossa vida. Nosso horror diante deles talvez seja o efeito de uma pergunta que eles nos colocam: o que é ser livre?" Calligaris vai fundo e eu, muito raso, não tenho como dele discordar.

Que bela coisa fiz... Acabei concordando com todos os debatedores, tanto os do sim, como os do não. Por isso, chego à conclusão de que o único que não tem razão nessa discussão toda sou eu.