Ele nasceu em um dia qualquer de um mês qualquer do século 20. Pais lavradores e, por ser assim, desde pequeno era alimentado com leite de vaca, tirado às seis horas da manhã e ordenhado diretamente em um copo sem adição de açúcar. Se a vaca estava fraquinha, uma cabrita fazia a substituição com louvor. Os derivados do leite, queijo branco, requeijão e manteiga eram aproveitados no café da manhã. Fogão abastecido com lenha e gravetos, em alternâncias, recebia em panelas de ferro o cozimento do feijão, arroz, mandioca, abóboras, carnes de frango, de vaca, preá, marreco, carneiro e eventualmente uma codorninha. Leitoa magrinha somente no Natal. Peixes eram encontrados e pescados com anzol ou peneira no córrego próximo.
Verduras, sempre variadas eram colhidas no quintal da casa simples. O pomar, nas estações próprias fazia o suprimento de laranjas, mexericas, tangerinas, melancias, abacates, jabuticaba e para beber, água, muita água retirada de um poço com boa profundidade, sempre fresquinha uma vez que no sítio não havia geladeira. Presunto, salames, mortadela e azeitonas dificilmente ou quase nunca apareciam sobre a mesa. Adultos e crianças já estavam acostumados com o trivial sem os estranhos aditivos. Barulho no sítio só era ouvido ao cantar do galo no raiar do dia, cacarejar das galinhas, o mugir do gado, relinchar dos muares, trinado dos pássaros e a sonora batida na bigorna da esquiva araponga fêmea.
Barulho de veículos, apenas o ranger do carroção - o chamado carro de bois, das carroças e das charretes, o trotar dos cavalos na generosa terra roxa. Na época do inverno, o menino gostava de tomar chá de erva-cidreira, comer milho pipoca e com um garfo rasgar a palha para enchimento dos colchões. Cobertores... só corta-febre ou chora-nenê. Era o que bastava. Nas noites quentes, janelas abertas para receber o ar puro da natureza sob o clarão de qualquer lua. Nos dias ou noites de chuva quando o trabalho na roça ficava difícil a família, sob a luz de um Petromax, lampião a querosene reunia-se para a leitura de Salmos, jornais, revistas velhas ou catecismos com os dogmas e preceitos da religião obtidos nas missas domingueiras. Nessa época, todos trabalhavam em ambiente de paz e muito amor... essa era a sua vida, a vida de seus irmãos e de seus pais. Os pais, senhores das experiências... os irmãos, de algumas e ele..., bem, ele estava se aproximando da idade adulta com os rudimentos adquiridos nas lides do sítio.
Para que os rapazotes e mocinhas frequentassem escolas de ensino primário e de madureza havia necessidade de mudança para uma cidade. Metamorfose incrível foi vivida pela família campeira. Na cidade tudo era diferente! No bairro em que foram morar pagando aluguel, o abastecimento alimentar só era conseguido nos grandes mercados, tudo empacotado e com datas de validade. Produtos perecíveis, consumo imediato sob pena de ser jogado no lixo. Uma lástima! Ao contrário do sítio a cidade exibia, além da poluição sonora, uma parafernália de tabuletas luminosas ou não sugerindo frequência às academias. Inicialmente os assustados citadinos pensavam tratar-se das academias escolares para o início das primeiras letras. Não! - não era nada disso...
As academias de que falavam os anúncios mostravam o novo conceito de saúde urbana, do combate ao estresse, da obesidade infantil, juvenil e adulta; exercícios em esteiras, malhação, musculação, yoga, balé, dança, judô, contemplação, hidroginástica, caminhadas curtas e longas, montanhismo e outros esportes radicais em nome do corpo são e da mente sã, invariavelmente regados com bebidinhas reanimadoras. Para os novos moradores da cidade, viver passou a ser um susto diário. Veículos velozes e furiosos, monóxido de carbono associado aos problemas de saneamento. Bactérias mil... mas em compensação, visitas aos serviços de saúde pública e particular, receitas para remédios genéricos e de marcas para controle da pressão arterial, diabetes, artroses, lumbago e outras dores de livre escolha. Como lazer, filas...! filas nas farmácias, nos Bancos, nos supermercados, nas padarias, uma festa só! até mesmo o nome próprio fora substituído por um tal de CPF e na frente aos caixas, era chamado de "próximo".
Para eles, tudo isso era muito estranho...Com tantos atropelos pela cidade perguntava-se: - o que fazer? - Segundo a sabedoria popular, o que não tem remédio remediado está! A cidade era um agito só! Para atender necessidades sociais/econômicas, o pai abasteceu cada um dos filhos com um aparelhinho celular, advertindo-os dos perigos existentes numa tal de "internet". Dinheiro em moeda ou papel era pouco utilizado! Qualquer compra, desde o saco de pipoca até produtos mais caros recomendou a utilização de um cartão, conhecido como dinheiro de plástico. Em uma tarde, na hora do café o pai reuniu a família e sentenciou... Quem tiver estudo, emprego e juízo, querendo ficar na cidade pode ficar... - Eu e sua mãe, amanhã pela manhã, iremos retornar ao sítio! O estresse aqui é muito intenso e lá longe... longe da cidade o ar puro da manhã, a alimentação sadia, o cantar dos pássaros livres das gaiolas, tudo isso é bom, é muito bom para a saúde! Deus seja louvado e os abençoe! Até mais ver...!