08 de julho de 2026
Geral

Ter menos e ser mais: um ideal de vida

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 3 min

Samantha Ciuffa
Hugo Carlos Sebode diz que se pudesse, faria tudo diferente

O que é ser feliz para você? A sociedade contemporânea nos estimula a consumir cada vez mais, reforçando a ideia de que, por meio da aquisição de dinheiro e bens, nos sentiremos mais realizados e felizes. Será?

Aposentado de uma grande empresa nacional e aos 62 anos, Hugo Carlos Sebode diz que se pudesse voltar no tempo, faria tudo de outra forma.

"Corri atrás de muita coisa na vida, e vejo que hoje não preciso de tanto para ser feliz. Muitas vezes, eu não tinha hora para sair do trabalho e passava mais de uma semana fora de casa. Perdi muita convivência com meus filhos", comenta o aposentado. "Quando a gente é jovem, se preocupa muito com o futuro e o presente vai ficando para trás. Gostaria de ter viajado mais também", acrescenta.

MAIS SIMPLES

Um estudo realizado em Harvard reforça a reflexão de Hugo e sugere que a coisa que mais nos deixa felizes e saudáveis não pode ser comprada: as nossas relações interpessoais.

Segundo o arquiteto e designer canadense Graham Hill, os norte-americanos possuem, hoje, três vezes mais espaço do que possuíam 50 anos atrás. E o resultado do acúmulo tem levado a mais dívidas no cartão de crédito e mais estresse. Ele, então, propõe uma nova maneira de fazer com que o menos se torne mais por meio do desapego.

Uma espécie de estilo de vida mais minimalista, em que se busca ter apenas o essencial, diminuindo gastos fixos, vivendo em residências menores e com menos consumo. Assim, reservando mais tempo e dinheiro para experiências, como viagens simples ao lado de amigos e familiares.

TRÊS PERGUNTAS

Antropólogo da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC) e professor Emérito da Universidade de Notre Dame, Roberto Augusto DaMatta lembra que a epidemia de ofertas tem resultado em um consumo extravagante e que as pessoas têm comprado coisas sem querer, colaborando com o capitalismo industrial e com a destruição do planeta.

Ele propõe quatro reflexões essenciais ao ser humano que auxiliariam na busca pelo equilíbrio. "O que precisamos para viver? Quando você é jovem, precisa de menos coisas. Mas a prioridade muda, depois que você casa ou envelhece, você quer casa, carro...", observa o antropólogo. "Também devemos nos perguntar como conceituamos a felicidade? O que eu posso ter e o que eu quero? O que eu sou e gostaria de ser?", recomenda.

AJUDE-SE E AJUDE

Investir em si próprio e no autoconhecimento, além de dedicar um tempo a projetos que possam ajudar outras pessoas, também é um passo que, segundo o antropólogo, levam ao caminho da felicidade.

Samantha Ciuffa
Benedita Filipino vende balões para reforçar pensão

"Aos acumuladores de bens, desejo boa sorte, até porque no cemitério não tem conta bancária. Todo o sentido da vida está no amor e nos investimentos que se faz na família e nos amigos. Afinal, estamos sujeitos às doenças e morte súbita", pontua ele, alertando ainda para a premissa: tudo o que se planta, se colhe. "Se você for consumista e plantar bugigangas, vai se decepcionar uma hora", finaliza DaMatta.

'Sem dinheiro não dá para ser feliz'

Para Benedita Filipino, 75 anos, ter dinheiro e bens é sinônimo de felicidade. Após a morte do marido, há seis anos, ela, que era do lar, se viu obrigada a trabalhar para complementar a pensão de R$ 400,00 que recebe para poder sobreviver. Para piorar situação, ela ainda ajuda um familiar muito próximo e que possui dependência em drogas.

Atualmente, a idosa "ganha a vida" vendendo balões no Centro da cidade. "Sem dinheiro não dá para ser feliz. Dinheiro é tudo. Hoje, eu saí de casa e não terei nada para comer quando voltar. Só com dinheiro é possível comprar o que se quer comer e só com dinheiro é possível viver e ser um pouco feliz", lamenta a idosa.