09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O cientista filho de escravos

Wellington Balbo
| Tempo de leitura: 3 min

Era negro, mais: negro cientista, algo estranho para o século XIX, principalmente em um país como os Estados Unidos, em que o preconceito vicejava abundante anunciando a superioridade dos brancos. E naquela época leis severas promoviam a segregação; negros não podiam sentar-se à mesa com brancos, negros não podiam estudar, negros não podiam ter atividade cultural. Havia hotéis proibindo a entrada de negros, como se fossem contaminar o ambiente apenas por terem o invólucro material mais escuro. Era mesmo lamentável a discriminação. Os negros estavam relegados aos trabalhos braçais, principalmente no cultivo do algodão. Interessante é que muitas vezes parece que eles - os negros - acreditavam serem mesmo inferiores, pois se comportavam de maneira um tanto conformada com a situação.

No entanto, Deus possui mecanismos perfeitos de mostrar às incoerências da humanidade e convoca ao renascimento, sempre que necessário, almas mais adiantadas moral e intelectualmente para desmistificar questões entranhadas na vida das pessoas, como, por exemplo, o lamentável preconceito de que alguém é maior, melhor ou superior apenas por ter pele mais clara. E foi em terras americanas que nasceu George Washington Carver, o filho de escravos que se notabilizou como um dos maiores cientistas do mundo no século XX. De sua mente brilhante brotavam descobertas das mais extraordinárias. Com o pequeno amendoim fez mágicas fabulosas e extraiu, inclusive, leite da pequena semente, que, diga-se de passagem, produzia também manteiga.

Importante destacar o desprendimento dessa criatura que veio ao mundo em meio à miséria e cercado de condições adversas. Por dezenas de vezes recebeu propostas milionárias para patentear as descobertas que fazia na pequena oficina de Deus - era assim que chamava seu laboratório - no entanto, não aceitou, em sua concepção as descobertas deveriam estar ao alcance de todos a fim de beneficiar a coletividade. Dotado de enorme senso de justiça fazia questão de receber pelo seu trabalho apenas aquilo que considerava justo, nem mais nem menos. Amante das artes e da natureza confabulava intimamente com o Criador sobre os mistérios que cercam os reinos mineral, vegetal e animal.

O Dr. Carver lutava incessantemente contra os desperdícios. Aliás, afirmava o eminente cientista que podemos aproveitar tudo de tudo, não há sobras nem desperdícios na natureza, tudo foi feito na medida exata, cabe-nos, portanto, dar asas a nossa capacidade inventiva e criar. Um dos muitos exemplos da capacidade criativa do Dr. Carver foi a utilização do caroço do algodão, incômoda sobra sumariamente incinerada ou atirada nos rios, constituindo-se em verdadeiro prejuízo ao meio ambiente. O grande pesquisador conseguiu, pois, dar múltiplas finalidades ao caroço do algodão, transformando-o em fonte de riquezas. Findou-se, então, o problema ambiental pertinente ao caroço de algodão de tal forma que algumas indústrias deixaram o interesse pela rama do algodão para focar atenção no caroço.

Enfim, impossível falar em simples texto de todas as descobertas e de todos os benefícios trazidos pela mente do mago da agricultura George Washington Carver, entretanto, faz enorme bem à alma lembrar desta figura humana, ainda mais em tempos como os que vivemos...

Obrigado, Dr. Carver...