08 de julho de 2026
Regional

'Carioca', amado na mesa da região

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 10 min

O prato do dia da maioria dos brasileiros mudou de forma definitiva depois que o engenheiro do então Instituto Agronômico, Luiz D'Artagnan de Almeida, consolidou que o experimento do grão com pintas escuras realizado no Interior de São Paulo tinha, em si, características de resistência às doenças e, o que é melhor, qualidades culinárias.

De agosto de 1968 para cá, quando foi apresentado de forma oficial, cultivar o carioca não só não deixou a mesa do brasileiro como se fez imprescindível em nossa dieta.

E não há, em qualquer canto, quem não aprecie uma das múltiplas maneiras de preparar o carioquinha.

Do virado - que no Sudeste paulista se faz com alho, farinha de milho, cebolinha, cebola e feijão - ao feijão gordo, o cereal recebe a mistura da influência regionalista da culinária nacional, mas não sai da mesa.

Na região a preferência também dita o cardápio. Além de ser ingrediente natural na mesa diária do trabalhador, o carioquinha ganha espaço cativo no roteiro do turismo rural. Do fogão a lenha à panela de pressão, o sabor do carioquinha está intimamente ligado ao cardápio de restaurantes e hotéis bucólicos. Afinal, tradição e paladar alimentam qualquer etiqueta.

De outro lado, a área plantada do carioquinha diminui. De 159 mil hectares apenas no Estado de São Paulo, em 10 anos, o feijão mais amado do paulista - e dos brasileiros - recebe atualmente suas sementes em covas que utilizam não mais do que 100 mil hectares paulista.

A ponderação é que, se a pressão por cultivares de cana e soja tomaram espaço na acirrada disputa pela terra bandeirante, a produtividade tem garantido a oferta do grão. De 28 sacas por hectare em 2007, o feijão produz 36 sacas/hec atualmente. Basicamente, a produção nacional é para o consumo interno.

Outra boa indicação de como o investimento paulista em pesquisa fez diferença, sobretudo em manejo e modificações genéticas do carioquinha, é que há tempos a safra não depende mais apenas da estação das águas, cujo plantio se concentra entre outubro e novembro de cada ano. O feijão responde com boa produtividade em outras duas safras anuais, na seca e até no inverno.

O mais amado dos paulistas na mesa, o carioquinha chega a sua 13ª geração com mais de 42 cultivares lançados, ganhou em coloração, formato mais homogêneo no grão, hoje contém mais proteína do que o "tipo" pesquisado por seu pai, o pesquisador DArtgnan, e resiste mais até à incidência de luz na prateleira (oxida menos e, por isso não 'preteja').

Renda-se do virado ao feijão gordo

Malavolta Jr.
Restaurante Campinho em Itapuí, Feijão Gordo, na foto a cozinheira Natália Flores Ferrarezi

A população brasileira mais que dobrou nos últimos quarenta anos, mas a produção de feijão teve oscilação diferente no período. A área plantada do grão caiu, mas o aumento da produtividade garantiu a oferta ao consumidor. O que não mudou, nesse tempo, é a presença, em definitivo, do feijão no cardápio diário do brasileiro, em especial de paulistas, mineiros e paranaenses.

Do tradicional virado de feijão, ao tempero usual com alho, cebola e sal, o feijão ganhou a influência regional em seu preparo. Feijão com couro de porco, de um lado, com costelinha de outro, misturado a mostarda e calabresa em outro canto...

O fato é que a variedade contemplou não só a culinária regional. Em qualquer canto, em cada uma das cidades, vilarejos ou sítios, o grão sempre se manteve à mesa. O turismo rural, de outro lado, trouxe junto a seu crescimento, a presença, marcante, do feijão não só como cardápio necessário.

Em hotéis fazenda, restaurantes temáticos, o carioca não sai do fogão. Assim também o é em todos os estabelecimentos 'caipiras' da região. Em qualquer amostragem, o resultado é próximo do que acontece no Restaurante do Campinho, na Chácara São João, na estrada que liga a rodovia Bauru-Jaú a Itapuí.

O restaurante atende de terça a sábado, sempre no jantar. No sábado e domingo tem almoço no cardápio caipira. A cozinheira Natália Flores Ferrarezi há 20 anos repete o ritual na cozinha caipira do estabelecimento. "O carioquinha é disparado o mais pedido aqui. Fazemos o feijão com couro de porco na sexta-feira. Faço picadinho. Fica um feijão grosso e gordo. Sem ele no cardápio o cliente reclama", confessa.

Em casa, Natália diz que aprecia o "tipo virado". "Faço com bacon, calabresa, farinha de milho e feijão. Mas tem quem faça o virado de feijão diferente", menciona. No Sudeste do Estado, por exemplo, o virado usa, além do carioca, alho, cebola e sal e, ao final, o toque com cebolinha. Claro, farinha de milho a gosto para formar o mexido.

No restaurante da Fazenda São Benedito em Agudos o feijão gordo leva calabresa e bacon. Fábio Andreotti, que assumiu o estabelecimento somente há três meses, conta que deixa o caldeirão aquecido em banho maria no fogão de lenha. "É para não perder a temperatura, o ponto e o saborzinho da lenha", justifica.

Feijão semente

Até a identificação da coleção de plantas que originou o carioca, em 1968, o feijão era cultivado com tegumento de coloração única (rosinha, jalo, amarelo, preto) e de tegumento bicolor (rajado e pintado).

A revolução gerada a partir do carioca teve relação direta com a modernização da cultura do feijão, um programa originado entre os pesquisadores que culminou com o programa "Pró Feijão Irrigado" da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. As pesquisas evoluíram a ponto de mapear, no campo e no laboratório, a "fórmula" capaz de "driblar" as enormes flutuações na produção, abastecimento e preços em razão de fatores climáticos. Afinal, temperatura amena e baixa umidade relativa do ar são fatores fundamentais para se produzir sementes sadias. Então, de Guaíra (SP), chegou-se à terceira safra. Tanto que a cidade passou a ser conhecida, na época, como a capital do feijão irrigado. A expansão para outros estados foi natural. Modernização tecnológica e aperfeiçoamento produtivo foram primordiais nessa "evolução".

As pequenas áreas de cultivo deram lugar a extensas lavouras de feijão, processo seguido de desenvolvimento na aplicação de insumos, manejo, armazenamento e mecanização. A escala, em consequência, deu suporte para a auto-regulação do setor.

De qualquer forma, salienta Eduardo Bulisani, o carioca mudou a cara da vertente empresarial da feijoicultura brasileira sem deixar de representar papel ainda mais importante para a agricultura de subsistência.

Sérgio Carbonell complementa que os melhoramentos chegaram a tal patamar, hoje, que "além do grão com mais proteína, coloração e formato padrão do grão, ele oxida menos na prateleira, tem maior resistência à exposição à luz".

A produção média equilibrada se dissemina em três safras, com plantio na temporada das águas (outubro/novembro), da seca (janeiro/fevereiro) e do inverno (maio/junho). "A pesquisa e inovação mudaram o panorama do carioca. Hoje você aplica adubo e ele responde na produção. Antes não era assim. Você faz o processo irrigado e a produção responde", cita. Entre os desafios atuais está o de tornar o carioca consumido no mercado externo. A produção e consumo são, basicamente, para o mercado interno. "Em 2016 mandamos o carioca para a Ucrânia. Há nichos de brasileiros em diversos países que estão sendo explorados", diz. É o chamado mercado da saudade, que concentra milhares de brasileiros espalhados por diferentes cantos do mundo.

Preço não vai disparar

A população brasileira mais que dobrou nos últimos quarenta anos, mas a produção de feijão teve oscilação diferente no período. A área plantada do grão caiu, mas o aumento da produtividade garantiu a oferta ao consumidor. O que não mudou, nesse tempo, é a presença, em definitivo, do feijão no cardápio diário do brasileiro, em especial de paulistas, mineiros e paranaenses.

Do tradicional virado de feijão, ao tempero usual com alho, cebola e sal, o feijão ganhou a influência regional em seu preparo. Feijão com couro de porco, de um lado, com costelinha de outro, misturado a mostarda e calabresa em outro canto...

O fato é que a variedade contemplou não só a culinária regional. Em qualquer canto, em cada uma das cidades, vilarejos ou sítios, o grão sempre se manteve à mesa. O turismo rural, de outro lado, trouxe junto a seu crescimento, a presença, marcante, do feijão não só como cardápio necessário.

Em hotéis fazenda, restaurantes temáticos, o carioca não sai do fogão. Assim também o é em todos os estabelecimentos 'caipiras' da região. Em qualquer amostragem, o resultado é próximo do que acontece no Restaurante do Campinho, na Chácara São João, na estrada que liga a rodovia Bauru-Jaú a Itapuí.

O restaurante atende de terça a sábado, sempre no jantar. No sábado e domingo tem almoço no cardápio caipira. A cozinheira Natália Flores Ferrarezi há 20 anos repete o ritual na cozinha caipira do estabelecimento. "O carioquinha é disparado o mais pedido aqui. Fazemos o feijão com couro de porco na sexta-feira. Faço picadinho. Fica um feijão grosso e gordo. Sem ele no cardápio o cliente reclama", confessa.

Em casa, Natália diz que aprecia o "tipo virado". "Faço com bacon, calabresa, farinha de milho e feijão. Mas tem quem faça o virado de feijão diferente", menciona. No Sudeste do Estado, por exemplo, o virado usa, além do carioca, alho, cebola e sal e, ao final, o toque com cebolinha. Claro, farinha de milho a gosto para formar o mexido.

No restaurante da Fazenda São Benedito em Agudos o feijão gordo leva calabresa e bacon. Fábio Andreotti, que assumiu o estabelecimento somente há três meses, conta que deixa o caldeirão aquecido em banho maria no fogão de lenha. "É para não perder a temperatura, o ponto e o saborzinho da lenha", justifica.

Aposta no gourmet

O Instituto Agronômico (IAC), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, lançou no mês passado, na Agrishow 2017, duas cultivares de feijão: tipo gourmet e uma do tipo preto. A cultivar IAC Nuance de grãos rajados tipo Cramberry é a primeira no Brasil com registro no Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Até então, o que se cultiva desse feijoeiro no Brasil é material oriundo de outros países.

A aposta é que esse tipo de grão terá aceitação no exterior e a IAC Nuance abrirá possibilidade de negócio nos mercados dos Estados Unidos, Canadá e Europa, em especial da Espanha e Itália. Já a cultivar IAC Tigre apresenta grãos rajados tipo Pinto Beans, um tipo americanizado, consumido no México e na Europa.

Esses feijões de grãos especiais têm alto valor agregado. Os preços costumam ser o dobro do aplicado quando comprado ao tipo Carioca. Além disso, não sofrem tanta variação, o que permite ao agricultor fazer planejamentos. "O preço é mais previsível, o mercado futuro é mais garantido. O valor não oscila tanto como ocorre com o Carioca", diz o pesquisador do IAC, Alisson Fernando Chiorato.

No Brasil, a saca do feijão tipo rajado para o agricultor tem girado ao redor de R$ 200,00 a R$ 250,00 e nas gôndolas do supermercado, o pacote de meio custa cerca de R$ 5,00 a R$6,00. No mercado americano, o consumidor paga, aproximadamente, US$ 6,00 pelo quilo do feijão tipo Pinto Beans.

A IAC Nuance, ao contrário dos materiais importados, foi desenvolvida para apresentar bom desempenho agronômico em solo e clima brasileiros. O resultado é alta produtividade, com potencial que pode chegar até 4.130 quilos, por hectare. A resistência a doenças pode reduzir em até 30% o uso de controle químico na lavoura.

De acordo com o pesquisador, a cultivar IAC Tigre chega para abrir mercado, assim como fez o Carioca na década de 70. "A IAC Tigre apresenta o mesmo tegumento das cultivares americanas que são exportadas para o México, Canadá e Europa", afirma. O grão é semelhante ao do Carioca, mas é maior e ao invés de listras ele tem pontuações de coloração marrom. A IAC Tigre tem potencial produtivo que chegar até 4.383 quilos, por hectare.