"Queria sair de lá". É assim que uma aluna de 15 anos se sente em relação à escola onde estuda, em Bauru. O espaço que deveria ser instigante, de desenvolvimento intelectual e de relações humanas se tornou um ambiente hostil para a menina, que é negra.
Há duas semanas, a jovem foi vítima de racismo dentro da unidade. Não é a primeira vez que isso acontece com ela. Não é a primeira vez que isso acontece dentro de uma instituição de ensino. Infelizmente, também não será a última.
O combate ao racismo, embora apresente avanços, ainda segue como um desafio para a rede de ensino pública e privada. A estudante de 15 anos, que preferiu manter a identidade preservada, diz que não teve qualquer respaldo da diretoria.
"Acabei me conformando porque repito a seguinte frase comigo mesma: não vai ser a primeira nem a segunda vez. Eu já me acostumei a lidar com isso sozinha", lamenta. A adolescente diz que foi discriminada por uma aluna branca, que disse em sala de aula não gostar de negros e que "o cabelo ruim" deles era "nojento". "Eu sofro preconceito desde os 13 anos. Cada vez que isso acontece, é como se tudo o que vivi antes viesse à tona: a tristeza, a inferioridade", relata.
EVASÃO
A jovem ainda resiste. Mas Selma de Fátima Cosmo Celestino, atualmente presidente do Conselho Municipal da Comunidade Negra, conta que chegou a abandonar os estudos em razão da agressividade dos colegas, motivada pela cor da sua pele. "Eu me sentia rejeitada e creio que muitos alunos negros, até hoje, se sintam assim. Só voltei a estudar depois de muitos anos", lembra.
A escola, contudo, é apenas uma instância de uma sociedade que perpetuou o racismo ao longo de séculos. Embora seja impossível a rede de ensino, sozinha, transformar comportamentos repetidos ao longo da história, a sala de aula, ressalta Selma, continua sendo um espaço que deve provocar reflexão, inclusive no sentido de valorizar a diversidade humana.
Professor e coordenador da Área da História da Secretaria Municipal de Educação, Amarildo Gomes Pereira entende que o caminho para que as mudanças aconteçam passa, principalmente, pela conscientização, ainda que o racismo seja considerado crime.
"O jovem, muitas vezes, tem dificuldades em lidar com o diferente, até porque sofre influencia do mundo adulto, do que ocorre fora da escola. De certa forma, ele também é vítima deste contexto e a transformação não acontece de uma hora para outra. É um processo", pondera ele, que é membro do Núcleo de Educação em Direitos Humanos, desenvolvido em parceria com a Unesp de Bauru.
DEBATE
Amarildo explica que o Plano Municipal de Educação, a proposta pedagógica do ensino infantil e os currículos dos ensinos fundamental e médio contemplam discussões que visam o respeito à diversidade. Ele cita, ainda, que a rede oferece cursos de formação de professores e diretores com este mesmo objetivo.
"Com esta base, penso que as unidades de ensino estão instrumentalizadas para lidar com o tema, que precisa ser permanentemente debatido. E, quando qualquer caso de violência ocorre, as famílias dos alunos envolvidos são chamadas para orientações", diz.
ENFRENTAMENTO
Segundo Deiziane da Silva, supervisora responsável pela pasta da Mediação Escolar na Diretoria Regional de Ensino (DRE), o combate ao racismo é discutido de maneira interdisciplinar dentro do currículo escolar. E, para lidar com casos específicos que ocorrem no interior das unidades, são desenvolvidas atividades pontuais, como palestras, debates de textos ou filmes e exercícios didáticos em sala de aula.
"A vítima e quem cometeu o ato de racismo, acompanhados dos pais, também são ouvidos. Tudo isso está inserido na linha de trabalho da justiça restaurativa, que não busca culpados, mas a retomada da harmonia do ambiente escolar", observa.