Sempre recorro ao Jornal da Cidade nas minhas aulas. São dois os motivos que me levam a fazê-lo: trazer a reflexão sobre a importância da língua enquanto instrumento de divulgação de ideias em uma situação real de comunicação e tentar aproximar os alunos do hábito da leitura, sobretudo do texto jornalístico, para que se acostumem a buscar informações em fontes confiáveis ao invés de acreditar em textos apócrifos que circulam em abundância pelas redes sociais misturados a tantos hoax e boatos de toda sorte.
Ocorre que a edição impressa do JC de 27/06/207 trazia estampada na primeira página a para lá de infeliz manchete "Nem 10% dos moradores de rua querem deixar o vício e reunião articulará ações". Manchete desmentida já no primeiro parágrafo do texto onde podemos ler que: (...) "Segundo a Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), nem 10% dos moradores de rua de Bauru conseguem ter a disposição necessária para se livrar da dependência química". Conquanto sejam análogos semanticamente os verbos Querer e Conseguir, há um verdadeiro abismo entre o sentido de um e de outro no contexto das pessoas em situação de rua e/ou dependência química.
A falta de cuidado com a escolha e o tratamento das palavras fica ainda mais evidenciado quando tomamos o exerto que reproduz a fala do tenente coronel Flávio Kitazume, para quem (...) "Não temos uma fórmula, porque a questão é bastante complexa, mas caminhos precisam ser buscados, porque ela afeta toda a sociedade". Até mesmo o coronel responsável por uma instituição que não é reconhecida exatamente pelo hábito de ponderar reconhece que há uma gama de fatores que precisam ser levados em consideração antes que se possa concluir que a situação de rua em que vive um indivíduo é falta de vontade, interesse.
Eu que convivo diariamente com jovens e crianças posso afirmar com alguma segurança que é cada dia mais difícil falar de empatia e alteridade com os mais jovens que estão cada vez mais acostumados com a intolerância e o extremismo que circula livremente nas já citadas redes sociais, o fazer justiça com as próprias mãos; e manchetes como essa contribuem para o agravamento dessa forma de pensar e agir que está se tornando cada dia mais natural.
Qualquer pessoa que não tenha tido o cuidado de ler o texto na íntegra e não seja capaz (ou não queira) interpretar o texto poderá concluir facilmente que mais de 90% dos moradores de rua de Bauru vivem nas ruas porque quer, será possível mesmo? Todos nós sabemos da importância e relevância dos veículos de comunicação na construção do imaginário e da subjetividade coletiva e também sabemos que a crise humanitária que estamos vivendo teve origem nas redações dos jornais dos grandes veículos de comunicação e agora colhemos os frutos dessa forma desonesta de informar em cada pessoa que acha que é normal e aceitável que se tatue o crime de alguém na própria testa.
Quero acreditar que foi mais por descuido que por convicção que alguém teve a capacidade de criar uma manchete tão preconceituosa e higienista e por isso escrevo com o objetivo pedagógico de dizer que é preciso escrever e revisar com algum cuidado porque um texto diz muito naquilo que não diz e as palavras têm poder.