Quem nasce em berço esplêndido e ainda jovem dispõe de uma herança polpuda, se souber aproveitá-la para preparar seu futuro já sai em grande vantagem na vida. Se não tiver cabeça e gastar tudo com bobagens, pode se divertir um pouco, mas depois não será fácil se recuperar. E os outros, que opções têm?
Sem a muleta da herança, já sabemos que no sistema capitalista, onde há liberdade para criar e empreender, pode-se acumular riquezas apenas pelo mérito. Para isso, na atividade que pretende exercer, basta ter mais determinação e habilidade que a maioria dos seus concorrentes. Não é fácil, mas é possível. Entretanto, este processo de avançar pelo mérito é desvirtuado pela herança farta, pois permite ao herdeiro sair em vantagem na competição da vida, uma vez que dispõe de mais recursos iniciais para se qualificar e melhorar suas habilidades.
Isto propiciaria a ele conquistar bons empregos e avançar mais que os outros, gerando um ciclo que fortaleceria mais seu grupo familiar (clã). Mas, por um mistério da natureza humana, para alguns a herança pode servir como fator de acomodação, com a possibilidade de jogar no lixo boa parte da riqueza que os pais conquistaram. Apesar disso, certamente outros que fazem parte destes grupos continuarão avançando, com alguns chegando até as grandes fortunas. No geral, como esta riqueza adicional tende a se acumular na mão de alguns clãs, ao longo do tempo a herança ajuda a perpetuar ou até ampliar a desigualdade.
Para conter este ciclo, uma atitude que os socialistas pregam é uma taxação pesada na herança, achando que com isto o Estado teria recursos para efetuar uma melhor redistribuição da riqueza e inaugurar um novo modelo visando a igualdade. Nesta hipótese, um erro básico é confundir esta riqueza com algo material e transferível, e que não tem nada a haver com a dinâmica da sociedade que, com certeza, seria alterada.
Esta saída, onde parte da sociedade produz riqueza com investimentos e trabalho qualificado enquanto outra usufrui sem a devida contrapartida, é um modelo que não se sustentaria por muito tempo. Neste caso, é bem provável que seria gerado um estímulo gradual para aumentar os que "usufruem", acompanhado de outro para diminuir os que "produzem", até o ponto em que o caos se estabeleceria. Ou, de outra forma: já imaginou a situação onde uma pessoa tem bastante dinheiro no deserto? Não serviria pra nada, né! Viraria apenas "papel pintado" uma vez que não existiria atividade econômica compatível que daria utilidade para ele. Esse modelo poderia resultar em algo parecido, pois haveria queda nos investimentos, acompanhado de fuga de capitais, afetando gradativamente a economia do país.
Por essa e por outras, a taxação pesada na herança encontra resistências entre as classes mais altas, e acho que mesmo entre aqueles com consciência coletiva. Acredito também que em nosso estágio atual como nação, muitos não aceitariam se desfazer de parte significativa de seu patrimônio conquistado com suor, preferindo repassá-lo aos filhos ao invés de se deixar ser surrupiado pelo governo, com resultados bem duvidosos em termos de justiça e confiabilidade.
Entretanto, num futuro em que se vislumbre um horizonte mais promissor para nós como nação - onde a justiça, a ordem e a transparência seriam algo predominante e habitual -, acredito que se teria mais "confiança" nos governos e muitos admitiriam repensar a questão. Afinal de contas, viver numa sociedade tranquila é o que a grande maioria quer.
Uma proposta que poderia despertar interesse seria a possibilidade de abrir mão de parte da herança numa proporção equilibrada a ser estudada, para ser aplicada especificamente em escolas de qualidade e destinadas às pessoas das classes mais pobres. Assim, estaríamos defendendo também um "princípio da igualdade", pois isto procura igualar a capacidade de competir nas várias oportunidades que se apresentassem. Ao atuarmos como sociedade solidária, estaríamos oferecendo meios para que se conquiste autonomia econômica com dignidade, e, além da paz de espírito, estaríamos também mais perto de obter um ambiente mais justo, tranquilo e seguro.
Para aqueles que se enriqueceram beneficiados pela natureza ou por outras circunstâncias da vida, esta atitude poderia ser até um gesto de agradecimento pelos benefícios que tiveram a favor dos que não os tiveram. Mas, é importante sentir confiança no sistema a ser aplicado, uma vez que em nosso país a "esperteza e a desordem" ainda é um esporte nacional.
Incomodaria e muito entregarmos para o governo nosso dinheirinho extra conquistado com suor e baseado num bom propósito, e depois verificarmos que ele foi desviado pela desordem ou pela corrupção.