09 de julho de 2026
Geral

Medicina: 'Tirei um nó da garganta'

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 9 min

Samantha Ciuffa
Carlos Bonora, 82 anos: “Como bauruense, estou muito feliz”

Foi com queima de fogos que a cidade recebeu, em julho de 1958, a notícia de que a Assembleia Legislativa do Estado havia aprovado o projeto de lei apresentado um ano antes pelo então deputado estadual José Ferreira Keffer para criar a Faculdade de Medicina de Bauru. "A informação chegou via rádio, por volta das 15h30 daquele dia. Houve foguetório subindo a rua Batista, que ainda era de paralelepípedo. Foi grande a comemoração, da qual participei ainda jovem", relembra o empresário Carlos Bonora, 82 anos, entusiasta da implantação do curso. 

Para o descontentamento dos moradores, o texto nunca saiu do papel. E, em 2006, uma lei sancionada pelo então governador Cláudio Lembo acabou revogando uma série de leis do período entre 1953 e 1961, incluindo a criação da Medicina no município.

Agora, 60 anos após o movimento ter se iniciado (começou em 1957), uma ação coordenada de representantes do Estado (governador Geraldo Alckmin, deputado Pedro Tobias e secretário estadual da Saúde David Uip), com dirigentes da USP (reitor Marco Antonio Zago e diretora da Faculdade de Odontologia, Maria Aparecida Machado Moreira), mais a participação e incentivo do Jornal da Cidade em conversações e negociações, o sonho finalmente se realizou.  

ALEGRIA APÓS ESPERA

Ainda na década de 1960, Bonora conta que uma nova expectativa tomou conta da cidade, mas a faculdade acabou sendo implantada em Botucatu e, na década seguinte, incorporada à Unesp. "Marília, Catanduva, Rio Preto e Ribeirão Preto também ganharam seus cursos. Agora, depois de tanta espera, posso dizer que tirei um nó da garganta. Como bauruense, estou muito feliz".

Filha do pastor José Walter Lelo Rodrigues, Gianne Rodrigues Morais conta que o pai, vereador por 25 anos em Bauru, também participou ativamente de tratativas visando trazer o curso.

"Dialogou com governadores e autoridades ao longo dos seus mandatos para que o município pudesse ser beneficiado neste sentido", relembra ela, que guarda recortes de jornais da época até hoje.

Falecido em 2010, pastor Lelo, que foi servidor da USP antes de se tornar vereador, não teve tempo de ver o sonho concretizado, mas a Gianne relata que a família recebeu emocionada a notícia sobre a confirmação do curso em Bauru. "Esta conquista faz parte do legado que ele deixou", diz.

FRUTOS DA PERSISTÊNCIA

Em 2011, conta o médico Assaf Hadba, uma comitiva de Bauru foi até o ex-ministro da Saúde, Adib Jatene, falecido em 2014, para buscar apoio para a implantação do curso.

"O Adib era meu amigo e fomos lá. Na época, ele destacou as estatísticas que mostravam que a cidade tinha todas as condições de receber a medicina", relata.

Uma reunião com o governador Geraldo Alckmin, então, foi marcada. Do encontro, participaram, além de Hadba e do ex-ministro, o deputado estadual Pedro Tobias; José Alberto de Souza Freitas, o Tio Gastão (na época, superintendente do Centrinho) e o diretor do Grupo Cidade, Renato Zaiden.

"O tempo passou e as conversas não prosperaram, mas toda caminhada de 1 mil quilômetros começa com o primeiro passo. Na época, ajudamos a abrir portas, a plantar a semente que, agora, rendeu frutos", celebra.

Eder Azevedo/JC Imagem
Duda fala sobre aprovação do novo curso

DUDA PREVÊ INVESTIMENTO

Um dos maiores especialistas em cursos preparatórios para vestibular do País, Gerson Trevizani, o Duda, avalia que Bauru, sendo um importante polo universitário paulista, merecia receber o curso.

“Além da tradição da USP, temos o campus da Unesp, o maior de todo o Estado. Com a vinda da medicina, Bauru torna-se a cidade com maior prestígio universitário do Interior, o que vai atrair muitos investimentos”, aponta, lembrando que a Uninove também oferecerá o curso na rede particular do município.

“Juntas, elas vão trazer muitos estudantes para Bauru, vindos da região e de outros Estados, o que ajuda a movimentar a economia, que já é beneficiada pela presença de outras unidades privadas reconhecidas nacionalmente e que estão instaladas na cidade”, frisa ele, que também é diretor regional do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo (Sieeesp).

Professores comemoram ganhos para a cidade em vários aspectos

Fotos: Samantha Ciuffa
Carlos D’Incao: “Nível das escolas em geral terá de subir”
Cláudio Ferreira, o Cacá: movimento e estímulo à economia
Wagner Montanha: novos cursos preparatórios no horizonte

Representantes de diversas escolas de ensino médio de Bauru avaliam que a implantação do curso de medicina pela USP irá trazer uma série de benefícios para a cidade, em todos os setores. Para o educador Carlos D'Incao, a novidade se tornará um divisor de águas para a história recente do sistema educacional local, que deverá sofrer um processo de aprimoramento.

"O nível das escolas em geral terá de subir, serão necessários novos investimentos principalmente para o Ensino Médio e cursos preparatórios, porque os candidatos dos processos seletivos para medicina na USP têm um nível de conhecimento bastante elevado. E isso vai ser bom para os professores, que serão mais valorizados", pontua. D'Incao também aponta ganhos para a cultura, a imprensa e a saúde da cidade.

Professor de biologia de um colégio da rede privada de Bauru, Cláudio Ferreira, o Cacá, destaca ainda o estímulo à economia da cidade.

A previsão é de que o curso englobe aproximadamente 500 alunos até o sexto ano de funcionamento, sem contar os estudantes vindos de outras cidades da região, que devem vir a Bauru para frequentar cursos preparatórios que tenham foco na área médica. Foi o que ocorreu, segundo ele, quando a Faculdade de Medicina da USP foi implantada em Ribeirão Preto, na década de 1950.

"Movimentou toda a economia da cidade, seja no comércio, no setor imobiliário, restaurantes, transportes. Além dos alunos, há professores, técnicos que se deslocam para a cidade", cita, salientando que o curso deve atrair, ainda, centros de pesquisa para a região.

Assim como D'Incao e Cacá, o professor de biologia Wagner Montanha de um colégio particular de Bauru também enumera somente aspectos positivos com a chegada da medicina na USP. "Acredito, inclusive, que surgirão novos cursos preparatórios específicos para o vestibular da Fuvest, que oferece as vagas para o curso em Bauru. É um mercado que tende a crescer. Eu dou aula na região e vejo os alunos daqui e de outras cidades bastante empolgados para enfrentar este desafio", pondera.

Futuros médicos sem sair da cidade

Estudantes renovaram esperanças, alteraram planos e até intensificaram o empenho para buscar aprovação no curso da USP: início já em 2018

Samantha Ciuffa
Guilherme Sanches já prestou vestibulares como treineiro: agora, enfrenta desafio “pra valer”
Douglas Reis
Ana Carolina Redondo Viol irá prestar vestibular para novo curso de Medicina da USP-Bauru
Anderson Felipe de Oliveira Pinto: vocação desde a infância
Débora de Souza: meta é o curso que a cidade passa a ter
Lara Urives Rosa: “Agora, acho que terei mais chances”

Eles abdicam de festas e reuniões em família para se dedicar a uma rotina rígida de estudos. Todos muito jovens, desejam seguir carreira médica, sonho que, ao menos geograficamente, está mais próximo após o anúncio da criação do curso de medicina no câmpus da Universidade de São Paulo (USP) em Bauru.

Assim que souberam da novidade, estes estudantes renovaram esperanças, alteraram planos e até intensificaram o empenho na preparação para disputar uma das 60 vagas que serão disponibilizadas para o primeiro ano, já em 2018.

Com o apoio dos avós, com quem mora no Núcleo Edson Francisco da Silva (Bauru 16), Ana Carolina Redondo Viol, 18 anos, espera conseguir aprovação no vestibular e, assim, realizar um sonho de infância, nutrido em razão da morte de sua mãe, que sofreu um acidente de moto há dez anos.

"Desde então, eu comecei a alimentar esta vontade de ajudar as pessoas. As pessoas até brincam que, quando falo sobre medicina, meus olhos brilham", comenta.

Ana Carolina conta que, no ano passado, chegou tentar ingressar na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mas acabou não sendo aprovada. "E, mesmo que eu tivesse sido, seria difícil, para mim, me manter fora de Bauru. Com o curso na cidade, vai ser muito mais tranquilo. Vou tentar quantas vezes forem necessárias", garante, enquanto divide o seu tempo de estudos com a faculdade de enfermagem e o curso técnico em enfermagem.

Estudante do terceiro ano do Ensino Médio na rede privada, Guilherme Sanches, 17 anos, já prestou vestibulares como treineiro e, entre novembro e janeiro, quando ocorrerão as provas da Fuvest, irá enfrentar o desafio "pra valer". Assim como Ana Carolina, ele conta que a escolha da carreira também teve motivação pela dor.

"Aos 8 anos, eu tive apendicite e, se não fosse o médico que me atendeu, eu poderia ter morrido. Perceber o valor que um profissional pode dar à vida e o quanto ele pode significar na vida de alguém mudou algo dentro de mim", relata.

SUOR

Guilherme corre atrás do seu sonho com muito suor. Ele estuda cerca de 12 horas por dia, rotina semelhante à adotada por Anderson Felipe de Oliveira Pinto, 19 anos, aluno de um cursinho preparatório de Bauru. "Eu quero ser médico desde pequeno e isso nunca mudou ao longo do tempo. Como a concorrência é grande, só dou uma pausa nos estudos aos domingos", diz, com a expectativa de ser aprovado no curso da USP em Bauru.

Orientados pelos coordenadores do colégio onde estudam, ele e a amiga Lara Urives Rosa, 18 anos, projetam que a concorrência local, neste primeiro ano, será menor do que o dos outros campi que abrigam cursos de medicina. No ano passado, em Ribeirão Preto, a proporção foi de 75 candidatos por vaga e, na Capital, 63.

"Prestei vestibular no ano passado e não deu. Agora, acho que terei mais chances e minha estratégia é concentrar nos estudos em exatas, que é meu ponto fraco. Espero que dê certo, porque meus pais querem muito que eu fique em Bauru, até por a gente morar bem em frente à universidade", revela.

Também aluna de cursinho preparatório, Débora de Souza, 22 anos, decidiu cursar medicina no ano passado, quando desistiu de tentar carreira na área de engenharia. Agora, a meta, ela diz, é conseguir aprovação no curso que será oferecido pela USP em Bauru.

"Despertou em mim o desejo de cuidar das pessoas e me apaixonei pela profissão. E fiquei feliz pela criação do curso aqui, porque quero muito poder ficar perto da minha família. Medicina da USP em Bauru, agora, é a minha primeira opção".

EM TODA A REGIÃO

Arquivo Pessoal
Emanuel Tiago, de Lins: ele é um dos estudantes da região que está com foco em Bauru

E não são apenas alunos de Bauru empolgados com a implantação do curso de medicina pela USP.

O JC descobriu que já existem dezenas de jovens em várias cidades da região, como Arealva, Avaí, Reginópolis, Igaraçu do Tietê e Macatuba, aguardando o início das inscrições, em 21 de agosto, para concorrer a uma das vagas que serão oferecidas.

Emanuel Tiago, 23 anos, é um deles. Morador de Lins, ele trabalhou em Bauru entre 2013 e 2016 como recuperador de crédito e voltou para a casa dos pais, no início deste ano, para se dedicar integralmente aos estudos.

"Minha família conta que, quando eu tinha 5 anos, já falava que queria ser médico.

E, para alcançar minha meta, seria difícil conciliar o trabalho com este momento", revela ele, que dedica cerca de 12 horas por dia à preparação para os exames, com a ajuda de uma plataforma digital de videoaulas com foco em vestibulares.

"Organização e o foco são as principais ferramentas, ainda mais em um curso concorrido, como é o de medicina da USP, porque a pressão social é muito grande e pode atrapalhar na hora da prova. Além de tempo disponível, poder estar perto da família tem sido muito importante para mim", completa.