| Aceituno Jr. |
| Placa indica a localização do ginásio e estádio, que ficam no complexo esportivo Damião Garcia, na Vila Pacífico |
| Samantha Ciuffa |
| Vizinho do complexo, Donizete Santos Donizete mostra a foto de um amistoso em que participou nos gramados do estádio, em 1997, após convite da diretoria do Norusca |
Quem mora na Vila Pacífico, nas imediações do maior complexo esportivo de Bauru, casa das três equipes especiais da cidade, o Bauru Basket, o Vôlei Bauru e o Noroeste, tem sua rotina, inegavelmente, influenciada pelo funcionamento do Estádio Alfredo de Castilho e ginásio Panela de Pressão. Mas alguns moradores vão além da relação de vizinhos e transformam a proximidade com o ponto esportivo em torcida e em afeto pelo próprio local (leia mais abaixo).
Com o despontamento do Bauru Basket - campeão no Novo Basquete Brasil (NBB) -, o ressurgimento do Noroeste - que teve novas contratações e segue em campanha pela Copa Paulista - e do Vôlei Bauru - que treina para nova temporada da Copa Paulista -, as imediações do complexo Damião Garcia têm registrado grande movimento aos finais de semana. No último deles, por exemplo, mais de 1,1 mil torcedores acompanharam o desempenho do alvirrubro no Alfredão.
Além de aumentar a paixão dos torcedores e vizinhos do local, o sucesso das equipes também é sinônimo de giro econômico para quem mora por lá e aproveita os dias de jogos para angariar uma renda extra. A reportagem do Jornal da Cidade foi a campo e reuniu histórias de moradores e de comerciantes da Vila Pacífico que dividem mais do que o espaço físico com o complexo esportivo.
'PRIVILEGIADOS'
O quarteirão que compreende o estádio Alfredo de Castilho e o ginásio Panela de Pressão é cercado por quatro ruas. Duas delas, a Wenceslau Braz e a Benedito Eleutério (vias da bilheteria e entrada) quase não possuem imóveis habitados. As outras duas, a Luiz Beviláqua e a Antônio da Silva Souto são tomadas por residências. Em uma delas, mora a família Mereu Santos, apaixonada declarada pelo Noroeste, o Basket e o Vôlei.
"Sou sócio remido do Noroeste e me sinto privilegiado morando aqui, não vendo e não troco nossa casa por nada. O fundo do estádio carece de mais cuidado e reformas, mas a paixão pelo Norusca é bem maior que qualquer dissabor", conta o vizinho do complexo Donizete Santos, 59 anos. "Acompanho os jogos desde as categorias de base, se eu não morasse aqui seria difícil isso acontecer", acrescenta.
A paixão é tanta que Donizete guarda com carinho a foto de um amistoso, em 1997, do qual ele participou. Atuou como convidado em um time formado pela diretoria do clube e que disputou contra profissionais da imprensa bauruense. Foi a primeira e última vez que ele saiu da torcida para atuar nos gramados do estádio. E até hoje a situação é rememorada pela família.
| Aceituno Jr. |
| Bruna Mereu, moradora da rua Antônio da Silva Souto, guarda paixão pelo Norusca, Bauru Basket e Vôlei Bauru |
Dia de jogo é dia de festa
Influenciada pelo pai desde pequena a frequentar as atrações no vizinho esportivo, Bruna Mereu, 25 anos, filha de Donizete, acompanha o Vôlei e, principalmente o Basket sempre que pode. "Quando tem jogo, amigos param o carro aqui em casa e vamos todos juntos pra lá. Vira uma festa", detalha. E a rotina do ginásio parece ter virado até parte da família. "Temos um carinho pelo local, meu pai conhece todos desde os porteiros. Sempre acompanhamos tudo o que acontece lá", acrescenta. Mas o melhor mesmo, segundo ela, "é poder sair para uma simples caminhada na calçada e, de repente, encontrar com o Alex Garcia (atleta do Bauru Basket), isso já aconteceu várias vezes", lembra Bruna.
'O destino me permitiu morar aqui'
Ex-jogadora de basquete da antiga equipe do Bauru Tênis Clube e vizinha do complexo, Edna Alves de Souza é frequentadora assídua dos jogos
| Aceituno Jr. |
| Com a companhia inseparável da prima Esther Manfio da Cunha, Edna Alves de Souza, que é ex-jogadora de basquete, dificilmente perde uma partida do Bauru Basket |
Apaixonada por basquete desde a infância, Edna Alves de Souza, 51 anos, diz que morar em frente ao complexo que abriga o ginásio Panela de Pressão, casa do Bauru Basket, foi uma sorte do destino. "Nunca imaginei que um dia isso aconteceria, mas deu certo", conta a moradora da rua Antônio da Silva Souto.
Edna foi jogadora de basquete na década de 80 da antiga equipe feminina do Bauru Tênis Clube (BTC), comandada, na época, por Antônio Carlos Barbosa. Por Bauru, ela disputou vários campeonatos na região e guarda com carinho as recordações de atleta, como fotos com Hortência e Paula, destaques da Seleção Brasileira na época.
Pouco mais de duas décadas depois, a bola e dezenas de histórias são revividas por ela nos dias de jogos do Bauru Basket. Há alguns anos morando em frente ao ginásio, ela diz que a paixão pelo esporte até aumentou. Com a companhia inseparável da prima Esther Manfio da Cunha, de 52 anos, sua parceira também nos negócios - donas de um Pet Shop na cidade -, ela diz não perder a maioria dos jogos do Bauru Basket.
"Morar aqui pertinho do ginásio ajuda a manter a chama acesa. Chega a dar tremedeira nos dias que perco algum jogo. De casa, eu fico escutando a torcida e desejando estar lá", ressalta Edna, mostrando a camisa da antiga torcida organizada "Sem Limites".
SAUDOSISMO
Assim como a prima, Esther, que mora na mesma casa, também possui uma história com o esporte, mas atrelada ao complexo Alfredo de Castilho e Panela de Pressão.
"Meu pai era noroestino roxo e sempre me trazia nos jogos. Tenho muitas lembranças e morar aqui em frente me faz reviver isso quase todos os dias", lembra Esther, hoje, apaixonada declarada pelo Bauru Basket.
Tanto Esher quanto Edna, no entanto, assim como a maioria dos vizinhos do complexo reclama das condições atuais do local. "Parece largado. A prefeitura deveria investir, afinal as equipes merecem muito mais pelo tanto que levam o nome da cidade para fora", critica Edna.
Do trabalho à torcida
| Aceituno Jr. |
| Luiz Carlos Rocha limpa a rua Luiz Bevilacqua, fundos do Noroeste |
Figura conhecida por muitos moradores do entorno do estádio Alfredo de Castilho, o bauruense Luiz Carlos Rocha, de 40 anos, atua como serviços gerais do Noroeste.
Há 15 anos, ele cuida da limpeza das calças nas imediações do estádio, assim como do interior, do gramado, dos jardins, da manutenção no alojamento, entre outros serviços. "Mas sempre que tem jogo, a gente dá aquela paradinha no serviço para torcer. O Noroeste é parte da minha vida. Além de trabalho, é uma paixão", elogia Luiz, que desde a infância é torcedor do time.
Antiga entrada
| Aceituno Jr. |
| Antiga bilheteria do Esporte Clube Noroeste, na rua Antônio da Silva Souto |
As grandes filas que se formavam na antiga portaria do Panela de Pressão, na rua Antônio da Silva Souto, desativada atualmente, é uma das recordações que Esther Manfio da Cunha guarda da infância em que frequentava o complexo na companhia de seu pai. A entrada do ginásio, hoje, ocorre pela rua lateral, Benedito Eleotério, no mesmo ponto onde os ingressos são comercializados, após a construção de uma nova bilheteria.
Em junho de 1960, complexo era inaugurado na Vila Pacífico
Cerca de 700 famílias com quase 4 mil pessoas moram, atualmente, no entorno do complexo esportivo Damião Garcia, que abriga o ginásio Panela de Pressão e o estádio Alfredo de Castilho.
Mas nem sempre foi assim. Na época de sua construção, que teve início em meados da década de 50, a área era cercada por cerrado. Após a doação das terras pelo fazendeiro e comendador Daniel Pacífico à Noroeste do Brasil (NOB), o projeto dol local saiu do papel.
Mas a ideia complexo tomou mais formato mesmo após um incêndio danificar a estrutura de madeira do antigo estádio do Norusca, que, até então, ficava nas imediações da rua Quintino Bocaiúva, próximo ao Hospital de Base, no Centro.
Com o Noroeste na primeira divisão, o então superintendente da NOB, Ubaldo Bedeiros, obteve verba para continuar o trabalho iniciado por seu antecessor, general Marinho Lutz. "O Ubaldo terminou o campo e inaugurou o local em 5 de junho de 1960. No jogo de estreia, o Noroeste venceu o Palmeiras por 3 a 0, foi uma alegria só", lembra Luciano Dias Pires, jornalista e historiador.
| Arquivo Luciano Dias Pires/ Reprodução |
| Imagem área feita durante a construção do complexo esportivo mostra que a Vila Pacífico ainda não urbanizada |
| Bauru Ilustrado/ Reprodução |
| Edição de maio de 1998 do caderno Bauru Ilustrado do JC relembrou detalhes da inauguração do estádio em 1960 |
| Arquivo Luciano Dias Pires/ Reprodução |
| Imagem da construção do ginásio Panela de Pressão na década de 50 |
Você sabia?
O historiador e jornalista Luciano Pires conta que na data de sua inauguração, o estádio foi batizado de Ubaldo Bedeiros. Com a sucessão da chefia na NOB, que passou para um general, a nomenclatura foi alterada, por questões políticas, para Alfredo de Castilho, nome do engenheiro que construiu o primeiro estádio da equipe na cidade, localizado na rua Quintino Bocaiuva. Como a área é particular, é passível de mudanças do tipo. Já o Ginásio Panela de Pressão nunca recebeu um nome oficial e ganhou o apelido em questão por causa dos carnavais da antiga NOB, que eram celebrados no local na década de 60. “Fervia de gente nessas festas, por isso era chamado assim”, comenta Pires. O apelido ganhou ainda mais fama e proporção por causa das disputas acirradas de jogos no local. Na última década, o complexo esportivo, que integra tanto o ginásio Panela de Pressão quanto o estádio Alfredo de Castilho, ganhou nome de Damião Garcia, nome do empresário que patrocinou a o Noroeste Esporte Clube por 9 anos.
Sucesso dos times beneficia vizinhança
Torcedores que são moradores das proximidades do complexo também aproveitam os dias de jogos para angariar uma renda extra
| Aceituno Jr. |
| Vizinho do complexo esportivo, o comerciante Antônio Rodrigues de Souza Neto, o Totó, diz que o movimento aumentou até 30%, recentemente, por causa do sucesso das equipes |
Considerado reduto histórico dos torcedores e até da antiga diretoria do Noroeste, o bar do seo Antônio Rodrigues de Souza Neto, 71 anos, mais conhecido como Totó, é um dos grandes vizinhos beneficiados economicamente com o sucesso das equipes. Mas quando o Norusca cai, a freguesia também some. E é assim há 27 anos, desde que o negócio, localizado na confluência entre as ruas Praxedes Lopes Pinto e Nilo Peçanha começou no bairro.
O despontamento recente do Noroeste, assim como do Bauru Basket e do Vôlei Bauru, fez com que o negócio de Souza Neto registrasse até 30% a mais de movimento. "Nos finais de semana, mais de 50% da clientela são de torcedores, que se reúnem aqui antes e depois dos jogos", comenta o comerciante, que fica a distância de 1 mil metros do complexo esportivo, conforme prega a lei.
E o poder da torcida alvirrubra como consumidora por lá é tanto que até o cardápio do estabelecimento foi alterado para agradar a clientela do esporte.
"O alho frito foi sugerido pelo Amantini [antigo diretor do Noroeste] e nunca mais saiu do cardápio. Se não tem, o pessoal reclama", lembra Souza Neto.
Tanto trabalho acaba impedindo o comerciante, que se considera noroestino roxo, de assistir as disputas. Mas nem por isso ele fica por fora dos resultados dos jogos. "Meu radinho de pilha fica ligado o tempo todo aqui no jogo. E quando a partida acaba, eu fico sabendo até dos bastidores por causa do pessoal que vem pra cá", detalha Souza Neto. "Não deixo esse ponto comercial por nada na vida", fecha questão o comerciante e noroestino.
DEUSA DO PEDAÇO!
| Samantha Ciuffa |
| Deusa Eliana Barbosa com o sobrinho Mateus Carvalho Faustini no colo e seu filho João Pedro Barbosa de Souza, todos com a camisa da Sangue Rubro |
Outra moradora do local e bastante conhecida pelos que trabalham no complexo esportivo é a Deusa Eliana Barbosa, de 40 anos, que reside com a família na confluência da rua Pixinguinha com a Benedito Eleotério, em frente ao Panela de Pressão.
Assim como Souza Neto, Deusa, que também é auxiliar de cozinha, aproveita o sucesso das equipes para angariar uma renda extra.
Nos dias de jogo na Panela ou no estádio, ela transforma o quintal da casa onde há quatro décadas, em estacionamento improvisado para motos.
"Em jogos bons, chego guardar 30 motos aqui. É uma grana boa", comenta Deusa, que também se diz torcedora fanática do Norusca.
Ela, aliás, é integrante da torcida organizada do time, a Sangue Rubro, que possui sua sede a algumas quadras do estádio.
"Parte do dinheiro que eu ganho guardando as motos uso para acompanhar os jogos do Noroeste fora da cidade", detalha a moradora. "O Noroeste é mais do que um ganha-pão, já se tornou uma família para mim", completa Deusa, beijando a camiseta da torcida organizada.
E tanta paixão não surgiu da noite para o dia. Desde a infância, ela frequenta o estádio e também os jogos e atividades no ginásio. Hoje, Deusa divide a paixão com filhos e sobrinhos. "Meus filhos praticamente nasceram aqui na Panela de Pressão. Os meus 27 anos de Vila Pacífico são divididos com o ginásio", reforça.
Torcida Sangue Rubro: animação
| Aceituno Jr. |
| Sede da Sangue Rubro, na 8 da rua Ângelo Cerigato, vira “casa” de mais de cem torcedores em dias de jogos |
Localizada na Vila Pacífico, a sede da torcida organizada do Noroeste, a Sangue Rubro, que fica na quadra 8 da rua Ângelo Cerigato. Nos dias de jogos do Norusca, o local vira reduto oficial de mais de 100 sócios-torcedores antes e após as partidas.
"É uma bagunça no bom sentido. Pegamos a bateria e aquecemos a festa lá na frente e, depois, descemos até o estádio. Sempre rola um churrasquinho lá na sede depois da partida", conta Deusa Barbosa.
Fundador e diretor da Sangue Rubro, José Roberto Pavanello Silva, 62 anos, conta que a sede, que antes ficava em uma sala no estádio, está instalada lá há seis anos e meio no local.
"É uma animação só, mas procuramos não nos exceder para não incomodar a vizinhança", frisa Pavanello.
Noroeste busca melhorias para o entorno do complexo
Todos os moradores entrevistados pela reportagem são unânimes ao afirmar que gostariam que, ao menos, o entorno do complexo fosse melhor cuidado, como os muros que estão desgastados e tortos.
O Esporte Clube Noroeste, proprietário da área, disse que está em contato com a prefeitura para que, juntos, possam resolver o problema sobre o desgaste do muro no entorno do complexo. “O Noroeste forneceria mão de obra e o município o maquinário de grande porte. Algo que pode acontecer já nas próximas semanas”, informou o clube por meio de nota. Em resposta à demanda, a Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Semel), que fica instalada no prédio do ginásio Panela de Pressão, informou não ter não verbas para manutenção ou reforma no prédio. Como locatária da Panela de Pressão, a Semel disse “que está tudo adequado aos frequentadores na área que é responsável”.
A Secretaria de Obras disse que enviará uma equipe ao local para checar se há possibilidade de melhoria da iluminação no trecho. A Emdurb também informou ter feito melhorias de sinalização de trânsito nas imediações do estádio, na primeira quinzena de junho. Entre as benfeitorias estão a implantação de faixas de pedestres, faixas amarelas e vagas de idosos.