08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Ecléa Bosi

Iolanda Toshie Ide
| Tempo de leitura: 2 min

Chamara-me a atenção um volume grosso da bem cuidada biblioteca da Unesp de Marília: 'Memória e sociedade - Lembranças de velhos'. Uma verdadeira jóia contendo recordações de pessoas idosas que a professora Ecléa Bosi, com tanto cuidado, soube colher. Por duas vezes, devorei as preciosas lembranças nele contidas.

As memórias de velhos não ficaram só no livro. Ecléa Bosi fez frutificar fundando, na mesma USP, a Universidade Aberta à Terceira Idade que, atualmente, conta com 10 mil alunas/os nessa modalidade. Nos 21 anos em que se empenhou nessa realização, freqüentaram mais de 100 mil alunas/os idosas/os. A respeito de lembranças de pessoas idosas, faz uma advertência: "Os urbanistas têm que escutar essas memórias, saber o que essa cidade significa e o que as transformações da cidade significaram na vida de seus cidadãos. [...]"Quando a fisionomia do bairro se humanizou e amadureceu, ela pode continuar vivendo, mas pode ser golpeada de morte. Golpeada pelas imobiliárias e urbanistas que não têm nenhum interesse na memória, na sobrevida dos moradores."

"Essa Ecléa que nos dá a ver o invisível e a ouvir o silêncio, que não recua diante das perdas e dos desenraizamentos, que não recusa, em instante nenhum, a militância por um mundo outro, é uma Ecléa que luta teimosamente, como alguém que aparece nas suas estórias de Velhos Amigos" (Marilena Chauí).

Essa memoralista de escol foi uma jovem simples, que não nasceu rodeada de livros. Andava a pé longas caminhadas economizando passagens de ônibus para comprar um livro: 12 passagens equivaliam ao preço um livro. Talvez por isso, em sua tese de doutorado, dedicou-se a pesquisar as leituras de operárias. Não tem preconceitos sobre folhetins que elas liam: "a operária se impressiona com questões essenciais ligadas à justiça, à culpa, ao castigo, à transgressão, à revolta, ao suplício imerecido. Mas não é disso mesmo que trata a grande literatura? Os temas são os mesmos."

A tese de doutorado resultou no livro 'Cultura de Massa e Cultura Popular: Leituras de Operárias', em que enfatiza as dificuldades de leitura devido às condições de vida das operárias: cansaço, dupla jornada, salário exíguo... Sobre sua relação com as operárias, faz uma belíssima revelação: "Não existe amizade temporária. Não existe simpatia fácil pelo sujeito da pesquisa, pela classe desfavorecida. Existe engajamento responsável da vida inteira. Isso é amizade." Em função dessa pesquisa, foi chamada a trabalhar nas secretarias municipais com Lúcio Gregori, Marilena Chauí, Paulo Freire. Teve o prazer de, em Genebra, denunciar, à Organização Internacional do Trabalho (OIT), as condições em que trabalhavam as operárias no Brasil, os riscos a que estavam sujeitas pelas radiações, pelos produtos químicos que, inclusive poderiam prejudicar as gestantes e seus filhos.

Com imenso pesar, soube que a professora Ecléa Bosi nos deixou nesta última segunda-feira, 10 de julho.