08 de julho de 2026
Articulistas

Lula e as ilusões perdidas

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

A jararaca está viva. Lula rejeita o papel histórico de primeiro ex-presidente da República condenado por crime de corrupção. Ele sabe se defender, no papel de herói injustiçado. O juiz Sérgio Moro, ao condenar Lula a nove anos e meio de reclusão, justificou não decretar sua prisão por "cautela". Quis evitar um trauma com a prisão do ex-presidente, deixando essa tarefa para a segunda instância, se assim entenderem os desembargadores do TRF. Soou incoerente o magistrado reafirmar que "todos são iguais perante a lei", e tratar Lula de forma desigual. Mesmo assim, o réu prefere o discurso da vitimização. Promete voltar às ruas como candidato, no ano que vem.

O bote da jararaca pode se perder no vazio. Se a sentença for confirmada em segunda instância, Lula se tornará inelegível por oito anos, como estabelecido na Lei de Ficha Limpa. O Supremo Tribunal Federal já decidiu no ano passado, que réus não podem ocupar a linha sucessória da Presidência da República. Lula como réu, em tese, não poderia ser empossado como presidente. Observam os juristas que, por enquanto, o único caminho seguro para Lula é o Senado. Lá, ele não enfrentaria essa questão. Para fugir da prisão e subir a rampa do Palácio do Planalto, Lula ainda terá que responder por duas ações tocadas pelo próprio Moro, no Paraná, e outros três processos sob responsabilidade da Justiça do Distrito Federal.

Lula sustenta sua inocência mediante uma discussão semântica. Diz que não há uma "única prova" nas duzentas e trinta páginas da sentença de Moro. O magistrado sustenta que a condenação por corrupção e lavagem de dinheiro está embasada em documentos, laudos periciais, em depoimentos de testemunhas sem acordo de delação premiada e de delatores, mensagens telefônicas de executivos da OAS e documentos da Bancoop onde Lula e a falecida esposa figuram como donos do tríplex do Guarujá - o réu alega que os papeis não estão assinados. "Se alguém tiver uma prova contra mim, por favor, diga. Eu ficaria muito mais feliz se eu fosse condenado com base numa prova" - discursou Lula. Com 30% das intenções de votos nas pesquisas eleitorais, e 45% de rejeição, a estratégia é vociferar contra a sentença acusando-a de conter "um alto componente político". Os desdobramentos previsíveis da condenação podem mandar para a cadeia aquele que já foi chamado de o maior líder popular vivo da América Latina. Enquanto isso, o clássico truque da vitimização deve ser usado à exaustão.

Vem aí a delação de Eike Batista, que deve abrir o bico sobre o lobby exercido pelo ex-presidente para que o empresário arcasse com despesas da campanha de Fernando Haddad, à Prefeitura de São Paulo. Eike, cedeu às pressões e pagou R$ 5 milhões ao marqueteiro João Santana. Mais um caso de caixa dois.

A candidatura de Lula à Presidência da República tem forte componente ilusório. Quase impossível desembaraçar todos os óbices legais. O curioso é que o PT não tem um Plano B. Nenhum outro candidato além de Lula. A campanha eleitoral de 2018 bate às portas e poucos sabem em quem votar. O PSDB perdeu a chance de desembarcar do governo Temer. Deixou de ser imprescindível à salvação do atual governo e corre o risco de ser rejeitado, e até humilhado, pelo próprio Temer. Aécio Neves voltou para o Senado. Virou zumbi. Serra está enredado com os R$ 23 milhões delatados por Joesley Batista, dinheiro de caixa dois para a campanha presidencial tucana. Alckmin, marca passo nas pesquisas e impede Doria de tomar o seu lugar. Não há como esquentar o clima entre coxinhas e mortadelas. Restaria o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), para desempenhar o mesmo papel de Trump, na eleição dos EUA. Ele também é réu. Vai ser julgado por incitar o estupro da deputada federal Maria do Rosário, do PT. O mesmo princípio pode embasar pedidos de impugnação de candidatos que respondam a ações penais.

O outro lado da tragédia política brasileira: a equação que prevê um Lula condenado (e inelegível) não combina com a de um Temer livre, leve, solto e presidindo o país com seus ministros também acusados. O presidente respira à custa do dinheiro público - R$ 1 bilhão em emendas parlamentares. Incógnita cruel: quando é que o povo vai sair de casa? A apatia das ruas vem salvando Temer e dificulta o caminho da oposição que precisa de 342 votos na Câmara para afastá-lo do poder. A repulsa da sociedade manifestada com ruídos é que vai pôr fim à corrupção e ao patrimonialismo que nos envergonham.

O autor é jornalista e articulista do JC