09 de julho de 2026
Articulistas

Assim não somos mais

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Do outro temos medo. Dele queremos o melhor afeto, aprovação e, se possível, amor. Até mesmo para sabermos como é a nossa cara e quanto valemos no mercado dos homens, da opinião do outro precisamos. Ele sempre foi o nosso maior espelho, disso nunca duvidou o tamanho do nosso ego. Ainda que tão determinante em nossas vidas, há quem diga que com a opinião do outro não deveríamos nos preocupar. Como não?

Em contrapartida, ele que de nós se cuide e de nós se proteja. Invadir a sua intimidade sempre foi a nossa maior tentação. Que o diga o buraco da chave. Nossos ouvidos em conluio com a boca fuxiquenta. Nossas orelhas coladas nas paredes. Queremos do vizinho saber e ouvir mais. E, por mais que ele de nós se esconda, estaremos sempre lhe farejando o rastro em todas as tocas e moitas. Incansável, o focinho quer o escondido, o que escandaliza, o que compromete. Nada mais nos excita do que a nudez da vida alheia.

Não bastasse a fome gulosa dos olhos e dos ouvidos, a tecnologia cuidou de ampliar desmesuradamente os limites da nossa investigação. Lentes poderosas passeiam por prédios de janelas descuidadas. Há grampos traiçoeiros em telefones imprudentes. Disfarçadas, microcâmeras tudo gravam sob golas e bonés. Para gozo dos "voyeurs", a privacidade, estertorando, morre a cada dia um pouco mais.

Contudo, nestes tempos em que muito escondemos, também muito queremos mostrar. Escancaramos nossas gavetas e janelas com todas as minudências, um jeito de nos promovermos e, assim, melhor nos precificarmos. Pelas redes sociais, imploramos migalhas de atenção. Pelas ruas e calçadas, bocas deseducadas berram em celulares indiscretos. Somos obrigados a ouvir o que do nosso interesse nunca foi. Numa das minhas caminhadas de algumas manhãs, passou por mim, passos ligeiros, moça que cumpria igual exercício. Do tipo "não estou nem aí", ela dizia sem nenhuma preocupação: "Marcela, olha..., Marcela me escuta..., Marcela, por favor!!! Você tem que ser mais inteligente, amiga!" Foi só o que ouvi no lance de ultrapassagem. O suficiente, contudo, pra perceber o jeito devassado e público de xingar de burra, senão de idiota, a amiga aconselhada.

É bem assim. Se de um lado muito escondemos, de outro muito mostramos.. Pelas redes sociais, tudo de todos sabemos. Nelas nos estampamos em "posts" e "selfies" diários. Facebuscamo-nos compartilhadamente: há muito a exibir, outro tanto a competir. Por tamanha exposição, nossos dados cadastrais já não nos pertencem, expropriados que foram pelo faminto mercado de consumo. Conhecendo os nossos hábitos e desejos, a publicidade irritante não para de nos perseguir em cada página do computador. Estamos nus em praça pública.

E pensar que houve tempo em que roupa suja se lavava em casa. E pensar que as redes sociais eram apenas cadeiras nas calçadas. E pensar que nessas tardes compartilhavam-se - entre vizinhos , crianças e cachorros - bolos, pipocas, groselha... Era um tempo lento e afetivo em que muito se conversava numa linguagem sem vírus e antivírus. Nada se temia e muito pouco se mostrava.

Assim éramos. Assim não somos mais.

O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras