09 de julho de 2026
Bairros

Bauru discute novas rotas para bicicletas

Ana Beatriz Garcia
| Tempo de leitura: 8 min

Samantha Ciuffa
Ellen Beatriz Fonseca, arquiteta e urbanista da Seplan e coordenadora do grupo de trabalho do projeto de ciclomobilidade

Caminhos mais seguros estão sendo planejados para as pedaladas dos ciclistas da cidade. Isso vem sendo discutido pela Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan) com o projeto de ciclomobilidade paralelamente ao plano de mobilidade da cidade - que deverá ser implementado em abril de 2018. Para isso, um grupo de trabalho foi designado para cuidar particularmente e adiantar o projeto que beneficiará os ciclistas de Bauru. Eles se reuniram na última terça-feira (18), no prédio da Seplan, para fazer novos ajustes no projeto.

"No mundo ideal, as bicicletas poderiam andar tranquilamente nas ruas dividindo espaço com os carros, mas sabemos que isso não faz parte da nossa cultura e temos que forçar os motoristas de carros entenderem que o ciclista também tem direito a esse espaço. Para isso, a gente precisa das ciclovias", explica Ellen Beatriz Fonseca, 35 anos, coordenadora do grupo de trabalho do projeto de ciclomobilidade, que deverá ser apresentado na Câmara no próximo dia 15 de agosto. A partir disso, o projeto aguardará recursos para ser implementado.

DIFERENCIANDO

O plano em questão prevê a substituição do mapa atual de ciclovias e ciclofaixas da cidade. Essas são duas das três opções que existem para o tráfego de quem se locomove com bicicletas, a terceira é a ciclorrota. Essas três vias são formas de garantir maior comodidade e segurança para os ciclistas e motoristas no trânsito da cidade.

A primeira citada é um espaço separado por meio fio, grade, muretas, blocos de concreto ou outros tipos de isolamento fixo para o tráfego de bicicletas, em avenidas e vias expressas e protege o ciclista do rápido e intenso trânsito. Já a ciclofaixa, como o nome já diz, delimita esse espaço por uma faixa pintada no chão e não por separação física. Recursos como "olho de gato" ou "tartaruga" também são comumente utilizados para aumentar a sinalização.

Por fim, a ciclorrota é uma das opções mais recentes para facilitar o trânsito dos ciclistas. Essas rotas atuam tanto para indicar quais as melhores ruas para se utilizar quanto para torná-las ainda mais seguras, diminuindo a velocidade dos automóveis e estimulando o compartilhamento das vias. "Dentro dos bairros, as ciclorrotas são as alternativas para levar as pessoas até as ciclovias próximas", diz Ellen Beatriz.

EM NÚMEROS

De acordo com dados da Emdurb, atualmente Bauru conta com aproximadamente 11 km de ciclovias que passam pela avenida Edmundo Coube, Distrito Industrial I ao Octávio Rasi, Nações Norte e avenida Jorge Zaiden. Já as ciclofaixas passam dos 30 km, somando as de lazer (nas avenidas Getúlio Vargas e Dr. Marcos de Paula Raphael) e as de trabalho (localizadas nas avenidas Moussa Nakhl Tobias, Comendador José da Silva Martha, Dr. Mário Oliveira Mattosinho e Mário Ranieri). Além disso, os ciclistas bauruenses também podem utilizar as ciclorrotas implantadas nas ruas José Fernandes e Agenor Meira (a partir da avenida Comendador José da Silva Martha até a rua Marcondes Salgado) e na rua Aviador Gomes Ribeiro (entre as ruas Rubens Arruda e Professor José Ranieri) que funciona como via alternativa ao trânsito da avenida Duque de Caxias.

CICLOATIVISTAS SE REÚNEM COM A SEPLAN

Com informações de diagnósticos realizados desde 2011, o grupo formado por ciclistas e cicloativistas juntamente com a Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan) se reuniu na tarde da última terça-feira (18) para avançar na elaboração do projeto de ciclomobilidade. Na reunião anterior a essa, os ciclistas receberam um mapa com as novas vias de ciclofaixa previstas no projeto, com o intuito de que percorressem pelo trajeto e detectassem pontos críticos. "As estruturas que nós temos na cidade ajudam muito quem precisa, mas ainda não são muito seguras e não estimulam novos usuários", comenta Ellen Beatriz Fonseca, coordenadora do grupo de trabalho.

Uma das primeiras pessoas a compor essa equipe foi Fábio Eduardo da Silva, 40 anos, que é cicloativista integrante do Pedala Bauru. Ele conta que o grupo já participou de algumas reuniões junto a Emdurb para opinar sobre vias e que, neste período, realizaram pesquisas sobre o uso de bicicletas em Bauru. "No viaduto Mauá, que liga a Vila Falcão com o centro da cidade, contamos próximo de 300 ciclistas no dia. E no viaduto Antônio Eufrásio de Toledo, que faz ligação com a região oeste da cidade, 250 no dia. A pesquisa foi feita cerca de dois anos atrás e esse número tende a ter aumentado por muitos fatores", comenta.

'PLANO IDEAL'

Além de dar mais segurança para o tráfego desses ciclistas, o projeto visa melhorar os ambientes e promover revitalização para tornar o caminho mais atrativo para as pessoas, inclusive pedestres. "Não é só colocar a ciclovia para ser apenas uma passagem, mas criar estruturas para que pedestres também possam usufruir. É como a ciclovia da Octávio Rasi, por exemplo. Ela existe, mas as pessoas, às vezes, optam por outros caminhos, por ela ser um trecho pouco atrativo. É importante que o projeto também atenda os pedestres e revitalize os pontos da cidade", destaca o cicloativista.

Segundo ele, o plano ideal seria que as ciclovias se comunicassem com trechos da cidade que dessem acesso à pontos de ônibus, praças, parques e outras áreas de lazer. "Isso vem de projetos que vem sendo executados pelo mundo todo, inclusive na América Latina, que é uma visão diferente de tentar humanizar a cidade. Assim, criam-se espaços que são mais convidativos para as pessoas, senão não adianta, elas continuarão usando o que elas usam hoje", justifica.

PONTOS DE ATENÇÃO

De acordo com o levantamento do grupo, até o momento, os principais pontos de debilidade detectados no projeto estão na Nuno de Assis com a Rondon, no trevo da rotatória no final das Nações Norte, além dos pontos de acesso a bairros como Nova Esperança, Jaraguá, Santa Edwiges até o Fortunato Rocha Lima. "Esses acessos necessitam de maior atenção. São regiões de grande concentração de pessoas, núcleos habitacionais antigos e, atualmente, tem conjuntos do 'minha casa, minha vida'. Os acessos para essa área da cidade estão saturados pela estrutura viária que existe lá. Trata-se de bairros residenciais, as pessoas precisam acessar outros lugares da cidade para trabalhar", comenta Fábio.

Detectando esses pontos, o grupo vem discutindo nos encontros, ruas e caminhos alternativos para solucionar os problemas encontrados que variam de falta de sinalização a vias muito estreitas. "A intenção é substituir as ciclofaixas pelas ciclovias. Nós estamos projetando o ideal para a cidade. Agora, como será executado, dependerá da verba cedida e dos recursos que o projeto conseguirá. Mas nós estamos planejando o melhor em termos de mobilidade para os ciclistas", afirma a coordenadora do projeto.

CICLISTAS APONTAM DIFICULDADES

Todos os dias, Caio Vinícius Evangelista de Melo, 17 anos, sai logo pela manhã com sua "magrela". Ela é responsável pelo deslocamento do jovem de onde mora, na Vila São Paulo, até seu local de trabalho, na avenida Nuno de Assis. Nesse trajeto, o rapaz afirma que passa por algumas dificuldades e opta por andar pelo canto da rua, contramão e calçada. "Nessa região, principalmente, não tem muita sinalização para bike e os motoristas não respeitam. Agora mesmo, o carro quase me 'pegou' ali no sinaleiro", conta.

Caio ainda diz que prefere utilizar os recursos de mobilidade para ciclistas sempre que pode e quando vai ao Centro da cidade. "É bem mais seguro para que os carros e, principalmente, as motos não batam em mim. Eu andava bastante na ciclofaixa do Mary Dota e da Quinta da Bela Olinda. Aos domingos, é fechado para as crianças brincarem também e até cadeirante usa a ciclofaixa. Eu acho muito bom, seria ótimo que tivesse em mais lugares", comemora ao saber do projeto de ciclomobilidade que vem sendo estruturado pela Secretaria de Planejamento de Bauru (Seplan).

Quem também poderá ser beneficiado com as melhorias que o projeto prevê é Dalton Paoli, 37 anos. Assim como Caio, ele usa sua bicicleta como transporte para o trabalho. Todos os dias, Dalton pedala da Quinta da Bela Olinda até o Paineiras, o que totaliza uma distância de aproximadamente 13 km, passando pela Rodovia Marechal Rondon. "Faço esse caminho todos os dias. Não é muito seguro, mas preciso chegar no trabalho", comenta Dalton que diz utilizar bastante a ciclovia próxima da faculdade Anhanguera. "Ali é bem mais tranquilo para andar por causa da ciclovia. Até os carros respeitam mais".

MARECHAL RONDON

A equipe de trabalho que está auxiliando a Seplan na estruturação do projeto de ciclomobilidade de Bauru reconhece que a Marechal Rondon é um eixo importante de ligação entre pontos da cidade. "O novo projeto pensa em como atravessar de forma mais segura a Rondon, porque, fatalmente, as pessoas vão usar essa via. Com esse novo traçado, ele (Dalton) poderia escolher caminhos mais apropriados e seguros para trafegar de bicicleta", afirma Fábio Eduardo da Silva, 40 anos, cicloativista e representante do grupo de trabalho do projeto.

Já a recém-integrante no grupo, Gabriela Teixeira, 31 anos, tem o costume de pedalar toda semana com as amigas, mas, assim como Caio e Dalton, ela revela que ainda se sente insegura. Por isso, não utiliza a bicicleta para fins de mobilidade, como gostaria. "O que me impede é não me sentir muito tranquila no trânsito. Por isso, eu vejo que esse é um projeto muito importante. Com essa restruturação, eu acredito que vá melhorar muito a acessibilidade e dá muito mais vontade de pedalar pela cidade. Vim para me inteirar e para contribuir com o que eu puder", comenta.

VOCÊ SABIA?

A Organização das Nações Unidas (ONU) elegeu a bicicleta como o transporte ecologicamente mais sustentável do planeta. Além de sustentável, o fato de não consumir combustível também a torna uma alternativa de transporte mais econômico.