O termo em inglês "slash career" é usado para designar um fenômeno recente de pessoas que, por necessidade financeira, precisam manter duas (ou mais) carreiras simultâneas. Mas também designam pessoas que levam uma segunda atividade tão a sério, a ponto de deixar ser apenas um hobby. Aqui, três profissionais da saúde contam como exercitam o dom da duplicidade.
'Os Gatos' estão de volta
Ao menos uma vez por semana, o doutor Carlos Eduardo Francischone deixa Bauru e retorna a Dois Córregos, sua cidade natal, para ensaiar com o grupo "Os Gatos". Especialista em implantes e reabilitação oral, este dentista tem o brilho nos olhos quando fala da banda que fez história na região há 50 anos.
O encontro com os amigos é regado, além da música, a planos para nova apresentação, a gravação de um CD (quem sabe até um DVD do grupo) e, claro, boas lembranças.
Apesar de o grupo estar voltando para valer agora (já se reencontraram há quase uma década), não pense que a música deixou de existir na vida dele. Ao contrário. Para quem estudou música em conservatório (no caso o Jauense) e tem a composição no sangue - é autor, por exemplo, do Hino de Dois Córregos em parceria com o jornalista Carlos Nascimento -, as apresentações podem ter ficado suspensas, mas não a habilidade.
Essa sempre foi exercitada em paralelo. Tanto que nestes anos todos ele fez várias composições e já, já está saindo mais uma inédita, chamada "Eu e o Mar". "A música faz parte da minha vida e, além de tirar o estresse, me ajuda muito na profissão, porque ao piano exercito os dedos que uso nas cirurgias", conta, mostrando as partituras onde escreve as composições. Trabalho de profissional, leva a sério mesmo.
E nos últimos cinco anos, ele se exercita ao teclado de um piano Steinway (da Steinway & Sons, uma das principais fabricantes mundiais e de mais alta qualidade em pianos de cauda) de 1866. Uma relíquia. Adquirida como pechincha e, por acaso, em um hotel antigo em Lima, no Peru. Foi o filho quem encontrou o exemplar de uma série especial, esquecido em um canto do hotel, que havia passado por uma reforma e o decorador, modernoso, achou que algo tão clássico não combinaria com o novo visual. Resultado: estava lá para ser restaurado e, depois, vendido. Já sabemos onde veio parar. Afinal, quando a dedicação é tanta, o Universo conspira a favor.
O médico que cuida das mentes e aquece os corações
Cheio de romantismo, com melodias que falam de amor, como "Amar é Sentir Dor", Guto Hueb se autodefine como "o médico que cuida das mentes, e agora aquece os corações", para falar das duas carreiras que leva em paralelo. A de psiquiatra e a de músico. Médico, ele atende em Lençóis Paulista, ao lado da vizinha Macatuba, onde nasceu. Músico, ele é do mundo, vai aonde houver um convite ou um festival para disputar, com canções inscritas em festivais nos quatro cantos do País. Ele começou a carreira aos 16 anos, era violonista de bancas. Hoje, está formado, tem dois filhos, mas 20 anos depois, após ter as suas composições gravadas por vários artistas, resolveu investir na própria carreira, que ocupa seus finais de semana.
Além da família, claro, são dois amores paralelos. "Quando tive o primeiro contato com a psiquiatria no 4º ano de medicina, me apaixonei. Sempre gostei de ouvir histórias, conhecer os anseios das pessoas e, por isso, jamais abandonaria a psiquiatria", conta. Ele afirma: as duas paixões são imprescindíveis em sua vida. E fecha lembrando que tem muitos pacientes que o chamam de "doutor/cantor", mas há os que ficam espantados por exercer duas profissões tão distintas. "Para mim, são muito parecidas, já que nas duas lido com emoções."
Quitutes e bom humor
Uma hora ele está lá postando que está no plantão médico e repartindo energias positivas para vencer as horas seguintes. E que plantão! Dificilmente, as 12 horas seguidas são sossegadas. Mas no dia seguinte, as postagens em sua página pessoal do Facebook estão deliciando os amigos com pratos que são de dar água na boca. Difícil não salivar.
O ele em questão é o cirurgião cardiovascular Valter Luiz Zorzetto, 60 anos, natural de Cabrália Paulista, casado, pai de dois filhos (um rapaz de 23 e uma moça de 21 anos). Ele mora em Bauru desde 1969 quando veio para estudar. "Fiz medicina em Botucatu e, depois de formado, resolvi voltar para Bauru e retribuir tudo o que a cidade tinha feito por mim. Trabalho há mais de 30 anos por aqui".
E a culinária é a profissão que corre em paralelo. Só que, apesar de fazer pratos dignos de grandes chefs, ele não fez ainda um grande jantar. Ao contrário, seus pratos são degustados em família e com amigos. "Desde menino sou atraído pela culinária. Comecei ajudando minha mãe. Não sei se é dom, mas sei que cozinhar é algo muito prazeroso. Autodidata, costumo cozinhar para desestressar já que trabalho em um meio muito estressante", diz. "Fico satisfeito de ver amigos e familiares saboreando e gostando dos pratos que faço como hobby", emenda. E compara medicina e gastronomia: "Esta última, se bem feita, com produtos de qualidade e saudáveis, nada mais é do que uma medicina preventiva".