08 de julho de 2026
Ciências

Quem somos a partir dos nomes!

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 3 min

Divulgação
Os 20 nomes europeus ibéricos mais frequentes entre os brasileiros!

Depois de passar por um terremoto de 6,4 pontos em plena cordilheira dos Andes e sentir a força de uma cultura milenar nas faces, vestes, estilo de vida e comida dos descendentes dos incas em pleno 2017, notei que no Peru havia uma diferença no biótipo e nomes das pessoas: a maioria eram inca-descendentes e apenas alguns tinham fortes traços europeus ou orientais.

Na sociedade brasileira miscigenada é muito mais forte a influência dos padrões culturais dos colonizadores antigos representados pelos europeus ibéricos e pelos atuais padrões estadunidenses dominantes. A origem das pessoas pode ser reconhecida no biótipo, na situação econômica e no nome.

Os indígenas parece que não influenciaram tão fortemente no biótipo e composição étnica do país como ocorreu com os incas, maias e astecas. A influência dos nossos indígenas ficou mais dissolvida quanto à fisionomia das pessoas e ficou maior na composição de palavras e nos nomes das cidades.

O nosso biótipo sofreu mais a influência dos escravos libertos afrodescendentes que adotaram nomes e sobrenomes emprestados dos senhores e colonizadores europeus, especialmente dos povos ibéricos portugueses e espanhóis. Vieram para o país por violência e desumanidade de quem os extraiam de suas famílias e grupos étnicos na África. Uma vez libertados, precisavam de sobrenomes para os documentos e nem sabiam quais eram os de suas famílias, pois foram arrancados e colocavam em seus documentos os sobrenomes dos próprios algozes.

Podemos até não perceber, mas pelo sobrenome dá para saber muita coisa. Os sobrenomes que predominam nas famílias brasileiras são europeus ibéricos portugueses e espanhóis, incluindo-se os dos afrodescendentes. Por estes nomes dá para se comparar com outros de origem europeia não ibérica como italianos, franceses, ingleses, alemães, holandeses, poloneses e com os japoneses.

Existem programas nos computadores que ao digitar o sobrenome se delineia todo perfil familiar, incluindo os econômicos, salariais e sociais. O Ministério do Trabalho recebe dados socioeconômicos fornecidas pelos empregadores que formam um banco de dados conhecido como Relação Anual de Informações Sociais ou Rais, que em 2013 tinha as informações de 46,8 milhões de brasileiros entre 23 e 60 anos.

Utilizando-se destes dados, Leonardo Monasterio do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e da Universidade Católica de Brasília perguntou: haveria diferenças salariais e de escolaridade entre os portadores de nomes ibéricos com os não ibéricos? Sim! Os atuais descendentes dos imigrantes japoneses, italianos, alemães e de outros países europeus ganham mais do que os brancos de origem ibérica português e espanhóis e, muito mais ainda, do que os negros, pardos e indígenas que representam 55% dos brasileiros.

Os imigrantes do final do século XIX e início do século XX que vieram substituir os escravos negros eram mais escolarizados e gerou uma classe diferenciada com uma desigualdade socioeconômica que perdura ainda até hoje, como revelou a pesquisa de Leonardo Monasterio publicada na revista Plos-One com o título de "Sobrenomes e ancestrais no Brasil". Os sobrenomes ibéricos foram separados entre os brancos de um lado e os pardos e negros de outro.

Esta diferença salarial vem acompanhada de diferença também na escolaridade. O salário médio e a escolaridade foi maior nos indivíduos e sobrenomes japoneses que ganham R$73 por hora, o dobro do que ganham os bancos com sobrenomes ibéricos e três vezes mais do valor pago aos negros, pardos e índios de sobrenomes ibéricos. Depois dos japoneses, ganham mais os nomes de origem italiana, alemã e nomes derivados do Leste Europeu.

Esta diferença é escandalosa e nesses dados ainda não constam os ricos que nem vivem de salário e também não os mais pobres que trabalha sem carteira assinada! A diferença socioeconômica entre as pessoas no Brasil é muito grande e assustadora! As melhores oportunidades nunca foram ofertadas aos negros e índios. Com todo respeito ao sociólogo Gilberto Freyre, ainda somos apenas disfarçadamente uma verdadeira "casa-grande e senzala"!