09 de julho de 2026
Articulistas

A memética em foco

Maria da Glória De Rosa
| Tempo de leitura: 4 min

Todas as vezes que eu dava início a um curso na Universidade, tinha por costume fazer algumas perguntas de caráter pessoal aos alunos, a fim de "quebrar o gelo", como se diz comumente. Uma questão que quase sempre eu levantava referia-se à leitura. Perguntava, por exemplo, qual o último livro que o aluno havia lido? Soube, posteriormente, que uma moça indignou-se porque não havia lido nenhuma obra, ao que mostrei polidamente a conveniência da leitura para todo mundo, especialmente para o universitário. Infelizmente, aí nascia uma aversão da aluna por mim. Claro, minha intenção foi orientá-la. Tanto isso é verdade que, nos meus artigos, não me canso de citar nomes de livros ao leitor, a fim de prestar-lhe assistência. Procuro sempre me pôr a par de obras importantes que estão sendo editadas. Semana passada mesmo, estive em duas grandes livrarias de São Paulo e não tive surpresa nenhuma ao ver empilhadas centenas de exemplares de "Homo Sapiens" - que já indiquei várias vezes em meus artigos - um best seller, da autoria de Y.N. Harari, imperdível. Peço até desculpas ao leitor (presumo que exista algum) pela insistência para com a leitura, mas é um vício do qual não consigo me livrar.

Já escrevi artigos baseado nessa obra supracitada, que se faz seguir de outra do mesmo autor, "Homo Deus", com a mesma estrondosa repercussão. Hoje escolhi, extraído de Harari, o tema memética, termo ao qual também já me referi em outras matérias. É apenas um pequeníssimo ângulo abordado por Harari, em "Homo Sapiens", que quero compartilhar. Para esse autor não há prova de que o bem-estar humano lucrou alguma coisa com a história nem que as culturas mais benéficas devem se disseminar, enquanto as menos benéficas desaparecem. Por faltar uma escala objetiva para isso, não há provas de o maniqueísmo ter sido melhor que o cristianismo ou vice-versa. Grande número de estudiosos enxerga na cultura uma infecção. Do mesmo modo que essa infecção contagia alguns, que acabam contagiando outros, as ideias culturais contaminam as mentes, que as espalham, contaminando, por sua vez, outros seres humanos. O homem morre, mas a ideia se espalha. Assim, as culturas são infecções ou parasitas mentais que surgem por acaso e posteriormente tiram proveito de todas as pessoas infectadas por ela.

Segundo Harari, essa abordagem é chamada de memética. A evolução orgânica é baseada na replicação de informações biológicas. Tentando explicar o autor, para clarear mais a compreensão, o gene seria uma unidade de informação no campo biológico, orgânico, enquanto o "meme" é a proposta de uma unidade equivalente no campo cultural. Esta palavrinha "meme" vem do grego, "mimena", que significa imitação. A memética é uma teoria jovem, voltada para o estudo dos memes que se espalham e na web viralizam-se, principalmente se são engraçados.

Vê-se que Harari aborda a memética em sua obra, por se tratar de algo recente, uma novidade que ainda está sujeita a muitos embates, mas que não poderia ficar de fora, dada a sua repercussão atualmente. Ele sabe que a memética é desdenhada na área de humanidades, encarada por alguns como uma tentativa amadora de explicar processos culturais com analogias biológicas pobres. Mas, continua Harari, muitos desses pensadores não são avessos ao seu irmão gêmeo - o pós-modernismo, que fala de discursos, em vez de memes, como os blocos construtores de cultura. Não obstante, eles também enxergam a cultura como alguma coisa que se propaga sozinha, com quase nenhuma consideração pelo bem da humanidade. O autor cita como exemplo o fato de os pensadores pós-modernistas descreverem o nacionalismo como uma praga que se espalhou, nos séculos XIX e XX, originando guerras, opressão, ódio e genocídio. Assim que pessoas de um país eram infectadas por ele, os moradores de países vizinhos ficavam propensos a pegar o vírus. O nacionalismo apresentou-se como salutar ao homem, embora tenha beneficiado apenas a si mesmo.

São citadas também as "corridas armamentistas" como um padrão de comportamento que se espalha de um país a outro como uma bactéria ou vírus, prejudicando a todos, mas beneficiando a si mesmo segundo os critérios evolutivos de sobrevivência e reprodução. A corrida armamentista, assim como os genes, não têm consciência - a disseminação é o resultado de uma poderosa dinâmica. Independente do nome - pós-modernismo, mimética -, a dinâmica da história não está voltada para a felicidade de organismos individuais. E os seres humanos geralmente são fracos e ignorantes demais para influenciar o curso da história em seu benefício. Entretanto, as culturas bem sucedidas são as que se sobressaem ao reproduzir seus memes, independentemente dos custos e benefícios aos hospedeiros humanos.

Gostaria que o leitor entendesse que não estou desdenhando quem ainda nada sabe sobre memes e memética (como aquela minha ex-aluna teria suposto que a estivesse depreciando por falta de leitura). Absolutamente, apenas estou querendo ser útil, tentando orientar o leitor, como sempre procurei ajudar meu alunado, passando a todos um pouco de minha experiência. Sempre é tempo.

A autora é pedagoga, jornalista, advogada e professora doutora aposentada da Unesp - mg-de-rosa@hotmail.com