| Aurélio Alonso |
| Garotos de escolas de Iacanga acompanham orientações dos professores durante aula de atletismo no estádio municipal |
A facilidade de reunir grande quantidade de atletas em uma atividade que possibilita vários tipos de exercícios e socialização colaborou para que as cidades de Iacanga, Lucianópolis e Pederneiras apostem no atletismo no lugar do futebol, prática tradicional e muito preferida, em um projeto de esporte que visa atender crianças e adolescentes. À frente das aulas está o ex-preparador físico do Noroeste e de equipes do futebol profissional, o professor João Gonçalves, que já vem de uma família que sempre esteve envolvida com o atletismo. Filho do cabo Alcides dos Santos Gonçalves, o maior incentivar do esporte em Bauru, que também foi preparador físico do Noroeste e revelou muitos atletas de ponta no atletismo brasileiro, seu plano é a possibilidade de a longo prazo revelar novos talentos.
É o esporte passado de pai para filho que faz João Gonçalves fazer uma "maratona" durante a semana para ensinar o que mais sabe: atletismo. O projeto não visa só a competição. Na realidade, é uma prática esportiva para crianças e adolescentes. Se não virarem atletas, pelo menos conviveram com o esporte como prática de melhoria da qualidade de saúde. Mas claro as aula servem para "garimpar" novos atletas na modalidade.
Recentemente, um desses ex-alunos já conquistou medalha em campeonato de atletismo internacional, como é o caso Gabriel Rodrigues, de 17 anos, sagrou-se campeão mundial nos Jogos Escolares de Nancy, na França. A competição ocorreu no final de junho e, além da experiência de disputar um torneio internacional de alto nível, Gabriel trouxe na bagagem a medalha de ouro nos 1.500 metros rasos do ISF World School Championship Athletics 2017 (Mundial Escolar).
E ele foi "descoberto" na verdade pelo "olhar" de um especialista da área, João Gonçalves, que percebeu que Gabriel tinha potencial para o atletismo e não futebol. Foi quando convidou-o para treinar e dali em diante o jovem foi se firmando e é uma das promessas em corridas como meio fundista para o futuro. Atualmente treina no Sesi em Santo André.
O coordenador de Esporte da prefeitura de Iacanga, João Carlos Lopes, o "Bugre", já jogou futebol profissionalmente. Começou no Noroeste, depois passou pelo Comercial de Campo Grande, equipes do México e Portugal até encerrar a carreira. Ao justificar o motivo de apostar no atletismo ele tem uma tese: "Se você não é um super craque, mas tem ótima preparação física, você poderá fazer a diferença no futebol. E a preparação do atletismo ajuda muito. É meu caso, não fui um craque, mas sobrava em campo na parte física", conta "Bugre", o maior entusiasta do projeto e sonha até em ter um local próprio em Iacanga para treinamento de atletismo, como polo da região. Mesmo na manhã gelada da quarta-feira (19), em pleno o período de férias, um grupo de mais de 40 crianças e adolescentes participou dos exercícios no estádio municipal recém reformado após um período de completo abandono. "O atletismo possibilita que vários tipos de categorias possam ser desenvolvidas nas aulas. Não são somente corridas, mas arremesso de dardo, de peso e salto em altura. Cada um vai descobrindo qual tipo se adapta melhor", conta o professor João Gonçalves.
Objetivo de treino é trabalho social
O professor João Gonçalves conta que o projeto desenvolvido em 3 cidades ajuda a descobrir novos talentos para o atletismo, mas o difícil é ensinar a técnica?
| Aurélio Alonso |
| Professor João Gonçalves coordena o projeto de atletismo em três cidades da região |
O projeto de atletismo desenvolvido em Iacanga, Lucianópolis e Pederneiras visa a um trabalho social, mas já tem colhido bons frutos e serve para "garimpar" novos talentos numa modalidade olímpica que o país tanto necessita de novos atletas e falta estrutura. No país do futebol, incentivar a prática do atletismo não é fácil. O professor João Gonçalves admite que nessa faixa etária sempre há preferência pelo futebol.
"O projeto é a formação do cidadão por meio de um trabalho social. Mas como tem uma participação de bastante jovens, a gente vai descobrindo novos talentos. E temos uma parceria com a Associação Bauruense de Desportos Aquáticos (ABDA) que tem o professor Alcides, meu pai, e o meu sobrinho Neto Gonçalves que é técnico da ABDA e da Seleção Brasileira de Atletismo. Os que despontam já começam a fazer intercâmbio para treinar junto com a equipe de competição", explica João Gonçalves.
A Associação Bauruense de Desportos Aquáticos também tem projeto de atletismo, embora tenha surgido para os desportos aquáticos. A entidade é filiada à Federação Aquática Paulista (FAP), à Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA), à Federação Paulista de Atletismo (FPA) e à Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt).
O professor admite, por exemplo, para descobrir novos talentos não é tarefa tão difícil: são feitas avaliações como descobrir se o atleta tem velocidade, resistência, explosão, mas há um desafio enorme para transformar esse atleta competitivo. "Difícil é colocar técnica, daí a parceria com a ABDA. Nesses locais, então, fazemos a iniciação em salto em distância, lançamento, arremessos e provas de velocidade e de fundo. Os que destacam procuramos parcerias. O trabalho social possibilita um volume grande de atletas", contou.
JC - Quais as dificuldades que enfrenta para treinar esses jovens?
João Gonçalves - Principalmente aqui no Brasil na faixa de 16 anos a família pressiona muito o jovem a trabalhar e deixar de praticar o esporte. Essa é a maior dificuldade. O que ocorre, o menino começa a trabalhar cedo. O meu pai, por exemplo, em Bauru enfrenta esse problema: o menino vai trabalhar em mercado para ajudar a família. Aí não consegue mais continuar os treinamentos. O Brasil perde muitos talentos assim. A Bolsa Atleta que ajuda financeiramente tem sofrido corte devido a crise econômica. Então, o atletismo é um dos esportes mais básicos e de uma classe social mais baixa.
JC - O país tem potencial para o atletismo, porque ainda somos conhecidos como o país do futebol?
João Gonçalves - Acho que tem sim potencial no atletismo. Há vários atletas que se destacaram. Na última Olimpíada cito o caso de Thiago Braz, campeão em salto com vara, que começou em projeto social da cidade de Marília. O treinador, o Luiz Carlos Albieri, foi atleta e é amigo meu. De Marília saiu Jardel Gregório e vários atletas. O Brasil tem potencial, mas falta apoio do governo e das empresas para investir nesses atletas. A maior dificuldade nesta crise econômica é conseguir patrocínio. As cidades têm dificuldades até em levar atletas às competições. Há despesas porque numa competição federada as taxas são cobradas por provas. Tudo é cobrado e muitas vezes as prefeituras não têm nenhum recurso para custear as despesas. Veja o caso de Lucianópolis, neste ano disputou um campeonato paulista. Em três projetos sociais que eu trabalho a prefeitura tem notado um bom retorno na comunidade. Eles apoiam, custeiam as viagens e isso motiva os atletas.
JC - O que levou Lucianópolis a ter um projeto na área de atletismo? Apareceu um atleta que se destacou?
João Gonçalves - Em 2012, eu era gerente de futebol do Noroeste quando fomos campeões da Copa Paulista. Eu achei que deveria fazer outra coisa na área esportiva. Sempre fui do atletismo, mas minha vida sempre esteve ligada ao futebol seja como preparador físico, gerente de futebol e ocupei diversos cargos em clubes. No ano passado fui gerente de futebol do XV de Jaú. O que ocorre? Quando terminou a competição decidi fazer algo para o próximo na área de atletismo, que eu gosto muito. A minha família é dessa área e já fui atleta de rendimento em provas de 5 mil e 10 mil metros. Tive um convite para fazer um trabalho de futebol em Lucianópolis, quando cheguei lá a gestora social falou para mim: João, o meu sonho era ter uma equipe de atletismo, nem sei o que é isso. Respondi: vim para o lugar certo. Depois de seis meses trabalhando com futebol iniciamos o atletismo. Esse menino, Gabriel Rodrigues, veio jogar futebol. Pensa num caneludo que não tem técnica de futebol. Só que no aquecimento, ele deu duas a três voltas em cima dos demais. Notei: esse menino vai ser campeão porque tem uma resistência incrível. Depois de três meses com quinze anos já estava vencendo competições na região de Bauru. No segundo ano, fomos vice-campeões da segunda divisão de atletismo masculino nos Jogos Regionais de Santa Bárbara do Oeste.
Alavanca para outros esportes
| Aurélio Alonso |
| O coordenador esportivo João Carlos Lopes, o “Bugre”, jogou futebol profissionalmente |
Ex-jogador profissional com passagem pelo Noroeste, Comercial (MS) e em clubes mexicanos e portugueses, João Carlos Lopes, o "Bugre", é o coordenador esportivo de Iacanga e maior incentivador do projeto de atletismo no município. Ele sonha em ter uma estrutura própria e quem sabe até como um polo regional.
Apesar de toda essa experiência no futebol, "Bugre" conta que que o atletismo é a "alavanca" para outras modalidades esportivas. Embora só neste ano começou a ser implementado, o coordenador revela que já estava no programa de governo de outra gestão do atual prefeito Ismael Boiani (PSB), porém só conseguiu viabilizar após mais de oito anos."
"Bugre" explica que o atletismo é "o pai" de todas as outras modalidades". "Todos os outros esportes passam por metodologia de trabalho do atletismo: que é a força e potência. O basquete, o vôlei, handebol e futebol precisam disso. E também queremos desmistificar que o atleta só vai treinar o futebol e não pode se condicionar pelo atletismo.
Revelar talentos
O prefeito de Iacanga, Ismael Boiani (PSB), garante que o o atletismo é um tipo de atividade que não tem muito custo e consegue reunir o máximo de crianças e adolescentes para atividades de educação física. “Há possibilidade de revelar talento escondido. Quem sabe uma pessoa que nunca teve oportunidade na vida, ela passa por aqui, vai poder competir e ser um atleta famoso. É uma maneira de manter as pessoas ocupadas a custo baixo”, conta.
| Aurélio Alonso |
| Prefeito de Iacanga, Ismael Boiani, decidiu apostar no projeto social de atletismo |
Revelação ganhou medalha na França
Gabriel Rodrigues, de Lucianópolis, foi descoberto em projeto social no próprio município e já tem conquista internacional em campeonato escolar?
| Divulgação |
| Gabriel Rodrigues já venceu na França em campeonato colegial e é da cidade de Lucianópolis |
O jovem Gabriel Rodrigues, de 17 anos, de Lucianópolis, como todo adolescente brasileiro queria ser jogador de futebol, mas não tinha talento suficiente. O professor João Gonçalves percebeu uma outra qualidade: quando o atleta fazia o aquecimento e exercícios conseguia terminar na frente disparado com duas voltas de vantagem sobre os demais companheiros. Foi assim que Gabriel deixou a escolinha de futebol para virar um meio fundista.
O treinador viu no jovem condições para treinar na equipe de atletismo de um projeto social do Centro de Referência em Assistência Social (Cras) que estava sendo montada. Na época ele tinha 15 anos. "Não tinha dom para futebol. A minha primeira competição foi numa corrida de rua realizada em Marília em 2014, quando cheguei em terceiro lugar. Dali em diante passei a me dedicar ao atletismo e não parei mais".
Após competir em Lucianópolis, Gabriel veio para Bauru para a ABDA. Já no final de 2015, agora atleta federado, foi vice-campeão brasileiro. "Daí começaram a vir as propostas e escolhi o Sesi, onde treino em Santo André", conta.
O meia fundista compete nas provas de 800, 1.500. 2.000 com obstáculos e 3.000 metros rasos. Embora com 17 anos competiu na categoria de 18 anos nos Jogos Escolares de Nancy, na França, onde foi o campeão. A competição ocorreu no final de junho e, além da experiência de disputar um torneio internacional de alto nível, Gabriel trouxe na bagagem a medalha de ouro nos 1.500 metros rasos do ISF World School Championship Athletics 2017 (Mundial Escolar). Ele é atualmente o líder do ranking brasileiro sub-18 nos 1.500 m e também nos 800 m.
Em 2016, Gabriel foi ao Mundial Escolar na Turquia, terminando em o quinto lugar na prova em que agora conquistou a primeira posição.
Agora nos próximos meses vai competir no Campeonato Brasileiro sub 20 e sub 23. Ele treina 15 quilômetros por dia. "Morava em uma chácara em Lucianópolis e jamais pensei em ser atleta no atletismo. Fui treinar futebol no projeto social de terceira idade para melhorar o condicionamento físico", conta Gabriel.
O atleta reclama da falta de apoio ao atletismo no Brasil, mas conseguiu recursos para uma bolsa atleta do governo federal que nos últimos meses tem reduzido os recursos devido a crise econômica. Ele conta que para o ano que vem há possibilidade de um intercâmbio em Portugal, durante um mês. "Ainda sou novo. O meu treinador me explicou que o treino tem que ser gradativo para conseguir o índice, porque senão chego aos 24 anos e não tem mais como evoluir", contou na última semana.
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Você sabia?
O grande destaque do atletismo nas Olimpíadas de Londres 2012 foi o jamaicano Usain Bolt. Ele ganhou 3 medalhas de ouro, vencendo os 100 metros rasos (recorde olímpico com 9,63 segundos), 200 metros rasos e com a equipe da Jamaica no revezamento 4x100.
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